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Bachiana Brasileira nos brinda com “Elias”

O épico oratório de Mendelssohn tem récita na Sala Cecília Meireles. 

 

Cia Bachiana Brasileira

A Cia. Bachiana Brasileira – orquestra, coro e solistas –, sob direção do maestro Ricardo Rocha, interpretará o grande e épico oratório Elias, a obra-prima de Felix Mendelssohn Bartholdy, no dia 17 de dezembro, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, como encerramento da temporada. A Bachiana, além de sua profícua produção de gravações em CDs, DVDs e programas para TV e rádio, recebeu o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro em 2009 e teve montagens eleitas em 2007, 2008 e 2011 entre as dez melhores pelo jornal O Globo, reconhecimento que a consagrou como um dos conjuntos mais importantes da cena musical carioca.

Junto à Orquestra e ao Coro da Cia. Bachiana Brasileira, a obra terá doze solistas. No quarteto principal, o barítono Marcelo Coutinho (Elias); soprano Veruschka Mainhard (viúva e anjo 1); contralto Carolina Faria (rainha Jezebel e anjo 2); e tenor Eric Herrero (rei Acab e Obadias). O Coro terá Ana Cecília Rebelo e Michele Menezes, sopranos; Lily Driaze e Jane Acosta, contraltos; Roberto Montezuma, tenor 1; Ossiandro Brito, tenor 2; Cyrano Sales, baixo 1, e Francisco Carriço, baixo 2, como solistas.

A montagem conta com a tradução do libreto original em alemão com legendas projetadas em português.

Mais conhecido do grande público por obras como Sonho de uma Noite de verão, com a famosa marcha nupcial, ou a Sinfonia Escocesa, Mendelssohn já aos 27 anos de idade se deixou enlevar pela história do profeta que resistiu ao culto do ídolo Baal e às perseguições ordenadas pela rainha Jezabel. Foram necessários dez anos de trabalho para a realização deste seu Elias, sua mais importante composição.

“Como o drama da vida humana se repete através das gerações, a temática é mais do que atual, se pensarmos no deus Baal dos mercadores fenícios, agora representado pelo deus ‘Mercado’ de nossa contemporaneidade, impondo o modelo predatório das economias baseadas no consumo que devora o planeta, os valores do espírito e as relações pessoais, tornadas igualmente descartáveis”, reflete Ricardo Rocha.

Com suas quase duas horas e meia de duração divididas em duas partes, a obra é gigantesca também em termos de intensidade. O coro é exigido o tempo todo: participa da ação ora como povo de Israel, ora como a congregação de sacerdotes de Baal ou ainda como coro de anjos.

Após algumas apresentações com enorme sucesso, a versão final da obra teve sua estreia em 16 de abril de 1847 em Londres, sob a regência do próprio Mendelssohn, que em 4 de novembro deste mesmo ano veio a falecer de derrame aos 38 anos de idade, o que tornou este grande oratório a sua obra-testamento.

 

O Baal fenício e o deus Mercado de nossa contemporaneidade

Estamos no século 9 a.C., mais precisamente à época do reinado de Acab, rei de Israel e Judá, entre os anos de 873 e 853. O povo hebreu, cuja economia ainda era baseada na atividade agrária e de pastoreio, conquistara militarmente grande parte dos domínios fenícios (cananeus), os mais poderosos mercadores e navegadores de toda a região mediterrânea à época.

Guardadas todas as proporções com a Grécia séculos mais tarde, que derrotada pelos romanos termina por conquistá-los culturalmente, assim a Fenícia passa a exercer enorme influência sobre o povo judeu, então entusiasmado com a prosperidade econômica que começa a experimentar.

Estes novos ventos trazem novos interesses, seguidos de mudanças de hábitos e comportamentos. O comércio em particular passa a ser atividade de grande atração, com destaque para os pontos fortes da cultura fenícia, como a tecelagem, a metalurgia, a tinturaria, a cerâmica e o fabrico de joias, cristais transparentes e corante púrpura.

Entretanto, a influência religiosa faz-se igualmente presente nos altares que passam a ser erigidos pelos hebreus para o culto a Baal, o deus da chuva dos amorreus, sincretizado pelos fenícios como o deus das alturas, tempestades e raios. O costume fenício era o de erguer altares nas partes mais altas de suas cidades para os diferentes deuses.

Os judeus que permaneceram fiéis a Javé, Deus de Israel, perceberam o que estava acontecendo e uma tensão começou a se formar, atingindo seu clímax quando a rainha Jezabel, filha do rei dos sidônios Etbaal e casada com Acab, como resultado de uma aliança para fortalecer as relações entre Israel e a Fenícia, mandou construir um grande altar a Baal, no próprio palácio do rei e com o consentimento deste. Utilizando dinheiro do tesouro público, passou a sustentar os 450 sacerdotes de Baal e os 400 profetas da deusa Achera, deusa da fertilidade. Mas não satisfeita com isto, passou a combater o Deus de Israel, perseguindo e matando implacavelmente Seus sacerdotes e profetas, sendo que apenas alguns conseguiram fugir para o deserto.

Neste cenário surge a figura épica de Elias, enviado por Deus para anunciar a punição ao Seu povo, que havia se dobrado à adoração de um deus estrangeiro, rompendo com a economia de vida e os valores contidos em Seus mandamentos. É com o anúncio desta profecia que Mendelssohn inicia este seu monumental oratório, a obra-prima que lhe servirá de testamento musical.

Numa associação livre e sem grandes dificuldades, podemos perceber como o drama da vida humana se repete através das gerações, pois que esta temática ganha imediatamente configuração atual, se pensarmos no deus Baal dos mercadores fenícios representado pelo deus ‘Mercado’ de nossa contemporaneidade, impondo o modelo predatório das economias baseadas no consumo que devora não só o planeta, mas também os valores do espírito e as relações pessoais, tornadas igualmente descartáveis.

Há trinta séculos Baal seduzia o povo hebreu através da prosperidade econômica, às custas de seus valores mais profundos e identidade cultural; já em nossos dias, Mercado seduz pelo consumo, pelo modelo do “é preciso precisar”, às custas dos nossos recursos naturais, do incentivo do ter em detrimento do ser e do estabelecimento de paradigmas de comportamento como o do ‘use e jogue fora’, com consequências que ultrapassam o mundo material e vão atingir em cheio o espiritual, promovendo a decadência ética que caracteriza o nosso tempo.

É o caso da desqualificação de valores que se opõem ao uso descartável, como a lealdade e o cumprimento da palavra, por exemplo, como se fosse possível construir alguma coisa sem assumir compromissos. As massas, agora sem ideologias ou religiões, passam a mover-se sem projetos, transformando a todos em meros voyeurs do outro, na busca de referências que não mais possuem. É o tempo dos ‘talk’- e dos ‘reality-shows’, nos quais todos querem saber o que os outros fazem ou deixam de fazer.

A Arte é embalsamada e seus templos transformados em casas de entretenimento. Ela é fraudada e esvaziada em seu valor como conhecimento e expressão estética para servir a fins de benefícios próprios, políticos, financeiros ou ideológicos, não raro por gente sem nenhum talento. Deste universo surgem as “celebridades”, totens hodiernos que nada têm a dizer ou a contribuir. Ao contrário, como os sacerdotes da rainha Jezabel, suas ações e invocações não trazem chuva alguma.

Surgem então os fast-foods da fé, vendendo as bênçãos de um deus que lhes trará prosperidade material em troca de seus dízimos, enquanto as catedrais do consumo, cada vez maiores, mais luxuosas e com o mesmo formato no mundo inteiro, erigem seus altares a Mercado.

Foi contra tudo isto que Deus enviou Elias a Israel. E foi para expressar a atualidade deste drama que Mendelssohn investiu os últimos dez anos de sua vida, transformando em libelo musical a ideia que há muito já lhe agitava a alma.

Em carta enviada no início de fevereiro de 1838 ao Pastor Julius Schubring, que foi seu consultor bíblico no oratório Paulus e acabaria por se tornar o libretista do Elias, Mendelssohn declara o seguinte: “Eu pensei em Elias como o autêntico profeta que novamente precisaríamos nos dias de hoje: forte e cheio de zelo, mas também zangado, irado e sombrio, o oposto dos canalhas da corte e dos canalhas do povo; o oposto de quase todo mundo, mas, apesar de tudo, como que carregado por asas de anjo.”

E este é, enfim, o Elias mendelssohniano que a Cia. Bachiana Brasileira, com seus corpos artísticos de Coro, Orquestra e solistas, têm o prazer e o orgulho de trazer ao palco para esta apresentação: um profeta atual, com motivos de sobra para zangar-se e dizer o que precisa ser dito, especialmente para um país como o nosso, devorado pela corrupção de suas autoridades. É porque não é ele quem diz, mas Deus quem o envia a dizê-lo.

Ricardo Rocha, adaptado do texto original da montagem de maio de 2009

 

Ricardo Rocha

Ricardo Rocha

Regente e diretor musical, possui os títulos de Kapellmeister (pós-graduação em ópera e concertos sinfônicos na Alemanha), o de mestre e bacharel em Regência pela UFRJ, e o de Piano na E.M. Villa-Lobos.

Foi diretor e regente titular da Orquestra Sinfônica da UFMT (1992-93), assim como professor de Regência e maestro titular da Orquestra e do Coro da Escola de Música da UFMG (1994-95). De 2001 a 2006 dirigiu a Orquestra Sinfônica do Festival de Inverno de Campos dos Goytacazes, RJ. Em 2006, 2011 e 2014 dirigiu a área sinfônica do Curso Internacional de Verão, em Brasília, incluindo os ensaios e concertos das orquestras e o curso de Regência.

Na Alemanha, Rocha criou e dirigiu, por 11 anos (1989 a 2000), o ciclo Brasilianische Musik im Konzert para a difusão da música sinfônica brasileira, gravando e fazendo turnê à frente de grandes orquestras como a Sinfônica de Bamberg, as Filarmônicas da Turíngia e de Südwestfallen e a Sinfônica de Baden-Baden, seguindo mais tarde como regente convidado nesse país.

Fundou a Sociedade Musical Bachiana Brasileira de fato em 1986 e de direito em 1993. Com seus corpos coral e orquestral sob o nome de Cia. Bachiana Brasileira, teve montagens escolhidas entre os dez melhores concertos do ano pelo jornal O Globo em 2007, 2008 e 2011, sendo aclamada em 2009 com o prêmio mais importante do Governo do Estado do RJ em Música Erudita. Em 2012, dirigiu o concerto comemorativo pelos seus 30 anos de regência profissional no Teatro Municipal do RJ.

Em 2013 a SMBB lançou o filme-documentário Vinte anos de um sonho em processo (1993-2013), com takes de várias montagens ao longo das duas últimas décadas, além de depoimentos de importantes maestros, compositores e acadêmicos sobre a sua trajetória no Rio e no Brasil.

Rocha é autor dos livros Regência, uma arte complexa (2004) e As Nove Sinfonias de Beethoven – uma Análise Estrutural  (2013). Diplomou alunos de Regência na Escola de Música da UFMG, mantendo hoje, no Rio de Janeiro, classes particulares de regência sinfônica e ópera, sendo ainda professor em cursos livres de extensão, como os da Pós-Graduação da Faculdade de São Bento, da Pós-Graduação do Conservatório Brasileiro de Música, do Centro Cultural Justiça Federal, Curso Baukurs e outros, tendo artigos publicados em português e alemão.

 


PROGRAMA

Elias, oratório de Felix Mendelssohn-Bartholdy (1836-1846) 


PARTE I

Primeiro “Ato”: A profecia como punição e o desencadeamento do conflito

– cena 1: a Profecia de Elias
– cena 2: a tempo da seca e o clamor do povo
Abertura instrumental e entrada do coro


Segundo “Ato” : refúgios de Elias em Carit e Sarepta

– cena 1: Elias no riacho Carit
cena 2: ressurreição do filho da viúva em Sarepta


Terceiro “Ato”: Encontro com Rei Acab e o desafio no Monte Carmelo

cena 1: no Monte Carmelo com os 450 sacerdotes de Baal
– cena 2: o milagre da chuva, a conversão do povo e seu hino de ação de graças

                      

– -Intervalo —


PARTE II


Quarto “Ato”: Fuga de Elias para o deserto

Abertura

cena 1: Elias, Acab e Jezabel no palácio e a ameaça da Rainha
– cena 2: a depressão de Elias e sua partida para o deserto

                      

Quinto “Ato”: A aparição de Deus e o arrebatamento de Elias aos céus

– cena 1: a teofania no monte Horeb
– cena 2: a ascensão de Elias aos céus

                      

FINAL

Profecias e bem-aventuranças

 

 

 

SERVIÇO:

 

“Elias”, oratório de Felix Mendelssohn para coro, orquestra e nove solistas

 

Cia. Bachiana Brasileira

Ricardo Rocha, direção e regência

 

17 de dezembro, domingo, às 17h 

Sala Cecília Meireles (Largo da Lapa, 47, Centro – Rio de Janeiro. Tels.:(21 2332-9223 / 2332-9224)

 

Ingressos : R$ 40, com meia-entrada para estudantes e pessoas com mais de 60 anos

 

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