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As aves que aqui gorjeiam

Philippe Jaroussky dá show de técnica e talento em concerto no Municipal do Rio.

 

O renomado contratenor francês Philippe Jaroussky foi a atração internacional que a série O Globo/Dell’Arte levou ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro na noite de 19 de abril. O cantor, acompanhado pela orquestra de câmara Le Concert de la Loge, fez concerto memorável, no qual esbanjou técnica vocal e sofisticação musical.

O programa foi totalmente dedicado a obras de G. F. Haendel, especialmente as que ajudaram a celebrizar castrati como o famoso Farinelli. Foram interpretadas recitativos e árias de óperas menos conhecidas do gênio alemão.

A apresentação começou com a leve e ligeira Overtüre da ópera Radamista, carregada de contrastes fortepiano na dose exata para caracterizar o Barroco. A entrada de Jaroussky ocorreu com o recitativo Son pur felice e aária Bel contento (da ópera Flavio, Re dei Longobardi). Sua voz miúda e agilíssima girava a 300 km por hora, cheia de reviravoltas “pero sin perder la ternura jamás”.

Com fraseado articulado e técnica impressionante, o cantor exibiu dramaticidade nas obras seguintes: o recitativo Son stanco e a ária Deggio morire oh stelle! (da ópera Siroe, Re di Persia). Na ária, a orquestra deu suporte perfeito à tensão e ao sofrimento da voz, carregada de chiaroscuro como um Caravaggio.

A graça e a delicadeza da pena haendeliana continuaram emanando dos instrumentos da orquestra nos movimentos do Concerto Grosso em sol maior, Op. 6 n. 1, HWV 319, que veio a seguir. O mesmo ocorreu com a outra obra instrumental apresentada na noite: excertos de Música Aquática, HWV 348.

Da ópera Imeneo veio a canção seguinte interpretada por Jaroussky: a ária Se potessero i sospir miei. Sua projeção soou impecável, mesmo nas regiões mais graves. O contratenor interpretou apaixonadamente, colorindo a canção com delicados floreios. Versatilidade também foi uma marca do recital, haja vista a ária seguinte, Vile, se mi dai morte (da ópera Radamisto), que arrancou do cantor arroubos vigorosos.

Logo após o breve intervalo, a ária Se parla nel mio cor (da ópera Giustino) foi aplaudidíssima, repetindo, através dos tempos, o sucesso da estreia em 1737. Na ária seguinte, Stille amare, già vi sento (da ópera Tolomeo, Re del Egitto), Jaroussky valorizou a criativa escrita do compositor e reafirmou a musicalidade do intérprete.

Ombra cara (da ópera Radamisto) era a obra mais famosa da récita, e nela o convidado demonstrou enorme controle e técnica de sua voz. Na seguinte, e última do programa, Rompo i lacci (da ópera Flavio, Re dei  Longobardi), Philippe Jaroussky fez pirotecnias vocais impressionantes, para fechar a noite em grande estilo.

E náo ficou por aí: arrancou urros de regozijo da plateia nas árias apresentadas como bis. Feito um uirapuru, que cala a floresta com seu canto lamentoso, o contratenor levou a audiência quase às lágrimas com uma tristíssima Lascia ch’io pianga (da ópera Rinaldo). Por fim, uma preciosa interpretação de Ombra mai fu (da ópera Serse).

Uma noite única, de gorjeios inesquecíveis com o rei dos rouxinóis.

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com