Crítica

As Walquírias e suas peripécias

Wagner, ao trabalhar com personagens e temas da mitologia, investiga a relação do homem com o poder de Deus. O poder, então, se opõe ao sentimento.

Palavras do diretor do espetáculo “As Walquírias”, de Wagner, em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo.

Há 52 anos, foi quando a “Walquíria”, de Richard Wagner subiu à cena no Theatro Municipal de São Paulo pela última vez,  exatamente em 15 e 17 de Agosto de 1959, compondo a temporada lírica oficial,  figurando no elenco os sopranos Herta Wilfert (Sieglinde), Liane Synek (Brunnhilde), Sebastian Feiersinger (Siegmund), Wilhelm Shirp (Wotan) e Otto von Rohr (Hunding) num elenco composto de artistas anglo-saxões que aqui se apresentou sob a regência de Herbert Charlier.

A importância do diretor da orquestra deve ressaltar simultaneamente as partes sinfônicas, vocais e a beleza poética que compõem esta imponente pintura sonora. O maestro Luiz Malheiro, na noite de estreia do espetáculo no Municipal, em 17 de novembro do corrente ano, revela-se conhecedor da tetralogia do “Anel do Nibelungo”, estreada na época no Teatro dos Festivais de Bayreuth, nos dias 13,14, 16 e 17 de agosto de 1876 e aqui em S. Paulo em 1926 (em italiano) no Theatro Municipal.

A ópera que fica em cartaz até 25/11 em nossa cidade tem as mãos de Malheiro usmedicbay paxil frente à Sinfônica Municipal,  da qual extrai bonita sonoridade, com exceção do Ato I,  onde ainda pouco aquecida, os  cinco flautistas  se retiraram, nem dez minutos iniciada a execução da récita, tendo seus retornos bem depois, reflexo este de uma indisciplina inaceitável reinando no conjunto estável daquele teatro. Isso não se vê em nenhuma orquestra desse gênero e muito menos em noite de estreia do espetáculo. Muito deselegante. Passado esse capítulo, a orquestra se aqueceu e produziu bons momentos de execução sinfônica, melhorando muito seu rendimento musical global, perante uma orquestração já complexa em evolução construtiva e harmônica de seu compositor germânico, ao longo de toda a sua produção operística.

O tenor Martin Muehle, no Siegmund, se não possui uma voz fluente e de timbre verdadeiramente agradável e belo, houve-se a contento, não compremetendo o conjunto lírico. Soubemos que o cantor empenhou-se nos estudos desse personagem o que está  comprovado pela sua  atuação cênica e desenvoltura vocal, resultados estes obtidos ao lado de seus colegas com os quais contracenou.

Um destaque ao soprano escocês Lee Bisset, uma linda voz de soprano lírico-dramático (Sieglinde), nos dias 17, 21 e 25/11, a qual deveria estar em todas as récitas, devido à bela presença no palco, excelência como cantora, conduzida em ótima escola. Sabe conduzir-se com elegância no desenrolar da trama, sobretudo canta com garra e calor vocal. Sua atuação engrandeceu e muito o espetáculo sob todos os aspectos, revelando-se uma artista apta a enfrentar os grandes papéis wagnerianos, como verdianos e demais congêneres, impondo-se entre os destaques atuais do cenário lírico internacional.

No mesmo alto nível sobressaiu-se o baixo norte americano Gregory Reinhart, cujo grande volume vocal somado à generosidade e nobreza de timbre, perfeita musicalidade e potência sonora, resultam em bela performance do personagem  Hunding em presença de acentuada  e sólida marcação cênica .

A Brunnhilde do soprano dramático (EUA) Janice Baird testemunha que ela é uma cantora de reais qualidades, sobremaneira no repertório wagneriano, pois sua voz apresenta as características específicas para tais personagens: voz extensa e de considerável volume, timbre metálico e quente. Saiu-se bem a partir da metade do Ato II em seus diálogos com Wotan e Siegmund, tanto na cena como em seu canto. Sabemos,  adicionando-se às suas qualidades,  que realiza com frequência, em teatros do mundo,  suas já bem conhecidas personificações de Isolda, Elektra e a Marie (Wozzeck). Quem sabe, possa retornar a S. Paulo, para interpretar a Isolda ou papel similar, como também a sua colega Lee Bisset em papéis que lhes sejam adequados? (as Brunnhildes do” Anel”,  a Kundry  de “Parsifal” ou  a  Elisabeth,  de “Tannhauser” por exemplo)! Qui lo sa?

O barítono alemão Stefan Heidmann foi um intérprete inteligente de Wotan. Sua voz não corre com fluência no teatro,  pelas características um pouco opacas de seu timbre, mas é um conhecedor de seu papel, que conduz com muita sabedoria. Seu conhecimento está registrado em seu monólogo, Ato II, que constitui o cerne da Walquiria, e o pivô de todo o ciclo do Anel, que em suas implicações nos remete às notas da abertura de “O Ouro do Reno” da tetralogia wagneriana. Justamente ali, porém,  não conseguiu me convencer,  pois atua como se somente ele estivesse no palco; contracena consigo mesmo. Seus colegas ficam à mercê de sua atuação  e ele pouco se importa com os demais (Martin Muehle e Janice Baird). Como também no final do Ato II,  com a presença de Hunding (o baixo Gregory Reinhart);  bem como com Denise de Freitas e Lee Bisset, pois acaba não acontecendo o jogo de contracena do elenco artístico que se esperava. O que ocorre é um emaranhado no assassinato entre Siegmund e Hunding que não se consegue ver, tamanha a confusão armada pelo diretor cênico André Heller-Lopes.

As demais foram o meiossoprano Denise de Freitas, ricamente trajada nas vestes de Fricka,  a deusa do matrimônio na mitologia. Sua veste mais se parece com a tia princesa de “Suor Angélica”, (Puccini),  nada tendo a ver com a Fricka, e quanto à sua voz, é  apenas regular em sua linha de canto embalada numa timbrística desigual. Uma voz grave e verdadeiramente wagneriana se faria necessária para compor este bom conjunto ora visitante em São Paulo. Fica aqui o erro para se repensar.

Na cavalgada das valquírias, momento mais popular desta ópera cantado pelas oito donzelas que se reúnem no rochedo (Ato III), a resolução cenográfica foi um aglomerado espelhado. Vocalmente resultou num verdadeiro festival de vaidades de suas intérpretes, onde não se conseguia distinguir qual desejava se destacar mais em cena. Muitos sons acirrados, exacerbados, muito além do que se aguarda nessa já conhecida passagem cênica. Não podemos destacar nenhuma delas, devido ao exagero cênico-vocal ora projetado.

Os cenários foram transpostos para a contemporaneidade (uma casa da classe média urbana em dois níveis, no Ato I); a sala de ex-votos em Aparecida do Norte/SP, no Ato II e o quadro do fogo mágico no ato final. Seus responsáveis são Renato Theobaldo e André Heller-Lopes que assina também a “reggia” da ópera.

A luz de Fábio Retti demonstra conhecimento, envolvimento com a obra wagneriana, criatividade e eficiência no desenvolvimento cênico-teatral do espetáculo. Parabéns. Quanto aos figurinos de Marcelo Marques, criam um laço com os sectários da religião de Maomé. O “islamismo” dos trajes do Ato I provam isso com brilhos em demasia e acessórios excessivos; bem como as vestes descaracterizadas dos dois atos seguintes, sem relação com o que se vê no anterior, demonstram a falta de critérios e a confusão temária, onde se mesclam o islamismo, as Cavalhadas, recriação abrasileirada das batalhas medievais de Pirenópolis, no estado de Goiás, como também na entrada do Valhada, a terra dos deuses, ideias entrelaçadas que esfacelam o clima da mitologia que caracteriza a obra wagneriana.

Escrito por Marco Antônio Seta, em 22 de Novembro de 2011.} else {}

4 Comments

  1. Sr. Marco Antônio Seta revela-se a cada crítica um conhecedor da música clàsssica. Suscinto, doa a seus leitores uma sinopse da ” A Valquíria” de Richard Wagner ressaltando tônicas importantes deste drama em três atos e seu consistente parecer. Todavia, creio ter sido benevolente em relação ao desempenho dos cantores, assim como o cenário e figurinos. Louvo seu distanciamento, talvez por estar imbuído em prestigiar e motivar futuras óperas de Wagner. Torna-se claro que o seu desejo era de ver um conjunto mais coerente com a magnitude da ópera. Na sinopse que introduz sua coerente crítica, com elegância denúncia os “achados e perdidos”.
    Parabéns
    Vicente de Percia

  2. Até que enfím alguém com coragem para desmascarar essa encenação ridícula, visualmente feia e conceitualmente confusa! Parece que toda a imprensa caipira se deslumbrou com o espetáculo, colocando-o como marco no Theatro Municipal. Marco de equívoco, só se for. Tirando a parte musical, o resto é bobagem pura. Mas enfím… é Anel que SP merece.

  3. A crítica de Marco A.Seta é extremamente coerente com o que vi 6ª feira no Municipal. Mas aqueles figurinos impróprios e o cenário do 2º ato são uma paulada na cabeça do público. Urros e vaias para André-Heller Lopes e Marcelo Marques. Onde é que vai parar a ópera em São Paulo?

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.