BibliotecaLateralMovimento

Artistas inesquecíveis: Amin Feres

“A voz de Amin Feres (1934-2006) pode desenvolver-se desde a profundidade e autoridade de um baixo até a cálida coloração do barítono.” The Times of India – Nova Dehli

 Há 13 anos a voz de Amin Feres foi silenciada por uma morte inesperada. À época já não cantava, mas destacava-se nacionalmente como dedicado professor que deixou seus ensinamentos em profissionais que atuam hoje em diversas partes do Brasil e também em outros países.

Mineiro da gema, além do êxito obtido em terras brasileiras, teve também uma carreira internacional consagrada, atuando como contratado da Columbia Artists Management, após indicação de Bidu Sayão (1902-1999). Participou de montagens de óperas de repertório, mas também emprestou sua técnica vocal para estreias mundiais de obras nacionais como, por exemplo, o ciclo “Beira-mar”, de Marlos Nobre (1939) e a ópera “Lídia de Oxum”, de Lindembergue Cardoso (1939–1989).

 

Dados biográficos

Primeiros anos e estudos na Europa

Natural de Ressaquinha, MG, quando criança Amin Feres já participava de comemorações em igrejas católicas em sua cidade. Em suas próprias palavras, entre maio e junho de 1940, quando contava apenas seis anos de idade, nas comemorações do mês de Maria e Sagrado Coração de Jesus:

As meninas coroavam em maio e os meninos tiravam espinhos, um a cada dia, ao longo do mês. Meu irmão mais velho, Pedro, sobressaia com sua bela voz, sempre recebendo de meus pais todo carinho. Numa reação normal de criança, pedi à minha mãe, outra voz bonita, para me deixar “tirar espinhos”. Dizendo-me ainda ser muito criança, tinha apenas seis anos de idade, quis adiar minha pretensão, mas insisti e consegui. Poucos dias depois, eu subia as escadarias montadas no altar-mor da matriz para o meu primeiro canto. Fora preparado pela harmonista do coral, também da família, que dias antes já prevenira meus pais sobre “uma surpresa”, lembro-me. Não cantei direto para a imagem, fiquei um pouco na diagonal, de acordo com orientação da prima e botei a boca no mundo. A voz de contraltino encheu a igreja e, após a cerimônia, uma cena que se iria repetir mais tarde: o aplauso dos fiéis à saída da igreja. Fato que realmente se repetiu dezoito anos mais tarde no Concurso Internacional de Canto do Rio de Janeiro, ao ser encaminhado, sem que eu soubesse porque, para sair pela porta da frente do Teatro Municipal, onde fui saudade pela plateia acenando com lenço branco e cantando “Oh, Minas Gerais”. (FERES, 1995, p.6).

Prosseguindo seus estudos formais em Belo Horizonte, Amin Feres foi aluno regular do curso de Arquitetura na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG entre os anos de 1954 e 1956. No entanto, sua vocação estava na música. Assim, abandonou a faculdade para dedicar-se em tempo integral aos estudos musicais.

Esteve sob orientação dos professores Maria da Conceição Rezende (1919) e Elza do Val Gomes (s.d.), entre os anos de 1956 e 1958. Integrou o Madrigal Renascentista, criado em 1956 pelos maestros Carlos Alberto Pinto Fonseca (1933 – 2006), Carlos Eduardo Prates (1934 – 2013) e Isaac Karabtchevsky (1934), que dirigiu o grupo em sua primeira formação.

Digna de nota é a importância do Madrigal Renascentista no desenvolvimento da música coral em Minas Gerais, tendo realizado turnês internacionais e participado de momentos marcantes da história do Brasil, como, por exemplo, o concerto na inauguração de Brasília, após convite do então presidente da república Juscelino Kubitschek (1902–1976).

Como solista desse grupo vocal ao lado de Maria Lúcia Godoy (1924), Amin Feres participou da gravação de LP lançado em 1959 com solos que podem ser acessados nos seguintes endereços:  https://www.youtube.com/watch?v=xe73iOtE_OU e https://www.youtube.com/watch?v=xmlMaJA79Cg. Trata-se de um registro do artista em início de carreira. Posteriormente, entre os anos de 1959 a 1966, Amin Feres realizou estudos na Escola Federal Superior de Música da Freiburg, Alemanha, prosseguindo sua formação entre 1966 a 1968 em Berlim.

Na Alemanha, pôde estudar incansavelmente os Lieder de Schubert (1797–1828), compositor que sempre admirou. Já como docente, contava sempre aos alunos que estudou por um ano inteiro a canção Gute Nacht, do ciclo Winterreise, e que somente após aquele período sua professora à época permitiu-lhe o estudo das outras 23 canções do ciclo.

As aulas realizadas sob orientação de Pierre Bernac (1899–1979) em Londres e em Paris contribuíram sobremaneira para sua atuação junto ao repertório francês. No entanto, não focava sua atenção apenas no estudo da voz. Assim, pôde estudar dinâmica de palco com Ernst Jokisch (1907 – 1965), administração teatral com bolsa DAAD – Deutscher Akademischer Austauschdienst (Departamento Alemão de Intercâmbio Acadêmico), canto com Marion Mattäus (1896–1980) e Margarethe von Winterfeldt (1902–1978), regência coral com Carlos Alberto Pinto Fonseca, violoncelo com J. L. Musa Pompeu (S.D.) e interpretação pianística com Jacques Klein (1930–1982).

Sua atenção para com diversos aspectos da formação musical permitiram ao artista um trânsito satisfatório em atividades administrativas futuras, como quando assumiu o posto de Diretor Artístico da Fundação Clóvis Salgado, em 1971 a 1974, ou a presidência da Cultura Artística de Minas Gerais.

 

A voz e as críticas

Sua extensão vocal permitia-lhe transitar pelo repertório de baixo em personagens como Sparafucile, da ópera Rigoletto, de Verdi, e Mefistófeles da ópera Faust, de Gounod. Premiado no II Concurso Internacional de Canto do Rio de Janeiro, em 1965, no qual foi escolhido como melhor intérprete da música brasileira, pôde apresentar-se em Washington e posteriormente em Nova York, onde estreou no Carnegie Hall o papel de Tolomeo da ópera Giulio Cesare in Egitto, de Händel (1685–1759), sob regência de Arnold Gamson (1926–2018) e ao lado de Montserrat Caballé (1933–2018) e Simon Estes (1938).

Por sua versatilidade técnica, Amin feres atuou tanto no repertório operístico quanto em obras sinfônicas, estreias mundiais e também concertos de câmara, dos quais citamos alguns no Quadro 1, a seguir:

 

Oratórios e Missas Compositor Cidade de apresentação
Messiah G. F. Händel Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Pittsburg, Nova York, Minneapolis, Oklahoma city e Quebec.
Missa Solemnis L. v. Beethoven Campinas, Ouro Preto, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte.
Missa em Si Menor J. S. Bach Campinas, São Paulo e Ouro Preto
Requiem G. Verdi Rio de Janeiro, Nova York, Porto Alegre e Belo Horizonte.
Missa para sopros Igor Strawinsky Donaueschingen.
Missa da Coroação W. A. Mozart Buenos Aires, Freiburg, Curitiba, Sete Lagoas, Barbacena, Ouro Preto, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Missa em Dó Maior L. v. Beethoven Belo Horizonte e Ouro Preto.
A criação J. Haydn Porto Alegre.
Óperas Compositor Cidade de apresentação
Comédia na ponte B. Martinu Freiburg.
A noiva vendida B. Smetana Freiburg.
Hun und Zurück P. Hindemith Berlim.
Rigoletto G. Verdi Dallas, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Moisés G. Rossini Nova York.
Giulio Cesare in Egitto G. F. Händel Nova York.
La Bohème G. Puccini Porto Alegre e Belo Horizonte.
Lohengrin R. Wagner Porto Alegre.
Tannhäuser R. Wagner Porto Alegre.
Contos de Hoffmann J. Offenbach Porto Alegre.
Lo schiavo Carlos Gomes Porto Alegre, Montevidéu e São Paulo.
Lucia di Lammermoor G. Donizetti Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
A flauta mágica W. A. Mozart Barcelona, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Ouro Preto.
Nabuco G. Verdi Buenos Aires
Tiradentes Manoel de Macedo Belo Horizonte
Aida G. Verdi Curitiba
Fausto Ch. Gounod Curitiba
Lídia de Oxum Lindemberg Cardoso Brasília, Salvador e São Paulo.

Quadro 1 – Missas, óperas e oratórios interpretados por Amin Feres.

 

Cantou ao lado dos mais consagrados cantores nacionais, como Neyde Thomas (1929–2011) e Fernando Teixeira (1933–1991), e apresentou-se com regularidade no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como podemos verificar na Figura 2, a seguir, um recorte do Jornal do Brasil, em sua edição de 23 de julho de 1972, que indica a participação do artista nas montagens de Lucia de Lammermoor, de G. Donizetti, e Rigoletto, de G. Verdi.

 

 

Sua maleabilidade vocal junto à sua elegância no fraseado musical permitiram a ele o acúmulo de diversas citações positivas em seu início de carreira no exterior. Desta maneira, citamos no Quadro 2, a seguir, algumas críticas internacionais guardadas cuidadosamente pelo artista e registradas em seu Memorial:

 

Cidade Jornal Crítica
Minneapolis (USA) St. Paul Pioneer Journal “No Messiah, cantou os solos do baixo com segura agilidade e esplendidamente claro e preciso.”
Barcelona (Espanha) Pauta e Clave “Suas apresentações no concerto final dos vencedores do concurso, cantou com aprumo e uma nobreza expressiva que cativaram os ouvintes.”
Bruxelas (Bélgica) La Libre Belgique “Qualidades vocais a serviço de uma fina sensibilidade. Compreende perfeitamente o Lied.”
Washington (USA) The Washington Post “Um jovem com propriedades vocais e atributos pessoais que o elevarão à elite dos recitalistas.”
New York (USA) The New York Times “Uma voz profunda e melancólica, esplendidamente ressonante.”
Hamburgo (Alemanha) Die Welt “Inteligência e sensibilidade, grande qualidade de voz e pureza de entonação.”
Nova Dehli (Índia) The Times of India “A voz de Amin Feres pode desenvolver-se desde a profundidade e autoridade de um baixo até a cálida coloração do barítono.”
Wilmington (USA) Evening Journal “Cinco principais compositores brasileiros: Souza, Ovalle, Villa-Lobos, Guarnieri e Tavares foram representados em 10 canções folclóricas para as quais o cantor trouxe ideias especiais de cor, idioma, caráter e estilo.”

 Quadro 2 – Críticas internacionais sobre a atuação de Amin Feres.

 

Discografia

Para este artigo, encontramos algumas gravações que registraram a voz de Amin Feres ao longo de sua carreira. No entanto, por ter permanecido um tempo considerável na Alemanha e também nos Estados Unidos, não descartamos a existência de outros registros sonoros contendo sua participação como solista.

O primeiro registro encontrado do artista é o LP Madrigal Renascentista, citado anteriormente, que contém dois solos de Amin Feres, a saber, Riu, riu, chiu, atribuída a Mateo Flecha el Viejo (1481–1553), e o negro spiritual Roll, Jordan, roll.

A ópera Giulio Cesare in Egitto, de Händel, como podemos verificar na Figura 3, a seguir, foi gravada ao vivo em março de 1967, no Carnegie Hall, em Nova York. Posteriormente lançada em CD, esse registro é facilmente encontrado atualmente.

 

“Encontro Barroco” é outro LP gravado com participação de Amin Feres. Regido por Sergio Magnani (1914–2001), este trabalho contém obras de Emerico Lobo de Mesquita (1746–1805), J. S. Bach (1685–1750) e Antonio Vivaldi (1678–1741).

Como regente, teve seu trabalho registrado em dois LPs junto ao Coral Madrigal Ouro Preto, sendo o primeiro com a “Missa da Coroação”, em 1986, e o segundo com o “Requiem” ambos de W. A. Mozart (1756–1791), em 1992, como podemos verificar na Figura 4, a seguir:

 

Pouco antes de falecer, o artista gravou o CD Magnificus, acompanhado por Eliane Fajioli. Lançado em 1996, dez anos antes do falecimento do artista, Magnificus contém obras de compositores nacionais e estrangeiros, sendo seu último registro em áudio.

 

A docência

Com a carreira estabelecida, no início da década de 1970, mais precisamente em 1972, Amin Feres deu início ao trabalho como docente na Schola Cantorum, criada por ele mesmo enquanto diretor artístico o Palácio das Artes. No mesmo ano, atuou também como professor de canto no Curso Básico de Formação Vocal, na mesma instituição.

Data de 1973 o ingresso de Amin Feres como docente na Escola de Música da UFMG, instituição que contou por mais tempo com sua atuação como professor, visto que sua permanência na UFMG durou até sua aposentadoria, no início do séc. XXI.

Paralelamente ao trabalho realizado na UFMG, Amin Feres ministrava técnica vocal em diversos corais de Belo Horizonte e região. Desses, citamos o Madrigal Ouro Preto, grupo vocal para o qual trabalhou entre os anos de 1979 a 1993 e que despertava-lhe grande carinho e dedicação, tanto que em 1995 recebeu da cidade de Ouro Preto o título de Cidadão Honorário.

Sobre seu ofício, o artista registrou:

O canto, por se constituir na mais completa forma de expressão musical é consequentemente a mais complexa. Comparado com os outros instrumentos é também singular, por ser o instrumento mais barato. Todo mundo tem. Constitui-se no mais rico em timbres, uma gama infinita de cores e timbres que varia desde o agudíssimo soprano coloratura até o baixo profundo.

É produzido de dentro de nosso corpo para fora. Daí o inebriante encanto que envolve as pessoas que têm a ventura de possuí-lo em condições de aplicá-lo à imensamente vasta literatura que se tem registrada, desde o gregoriano até o contemporâneo, passando do popular até o erudito.

Este imenso leque timbrístico exige do professor uma pesquisa constante, pois, em se tratando de um trabalho técnico de correção de respiração, emissão e consequente impostação, ele se depara com um sem número de cantores em seu estágio bruto. A forma de produção da voz é muito subjetiva e requer do aluno muita sensibilidade tanto física quanto auditiva. Os meandros da didática, que varia de voz para voz são altamente complexos e rigorosamente individuais“. (FERES, 1995, p.9).

Na década de 1990, criou o projeto Opera Studium, apoiado pela Escola de Música da UFMG, contribuindo significativamente para a divulgação do ensino do canto lírico em Belo Horizonte, despertando em muitos o desejo de cantar a partir dos constantes recitais apresentados por esse grupo.

Idealista incansável, investiu em inúmeros alunos externos à universidade em incontáveis aulas gratuitas, nas quais lembrava sempre de sua gratidão à professora Margarethe von Winterfeldt, citada anteriormente, que após suas aulas depositava vinte marcos em seu bolso, como incentivo a seu estudo diante das dificuldades que passava durante seus estudos na Alemanha.

Seus conhecimentos como professor foram ainda absorvidos em Master classes em São Paulo, Brasília e também na Bahia, além de uma viagem ao Japão, na qual pôde apresentar-se interpretando canções brasileiras e japonesas, além de lecionar sobre aspectos de nossa produção de canções de câmara.

Em seus últimos anos, lecionou na Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG, onde contribuiu para a formação de alunos do curso de graduação.


Saudade

Amin Feres faleceu em São Paulo, em 2006, após um procedimento cardíaco. Suas memórias, organizadas durante seus últimos anos, permanecem com a família. Trata-se de um livro com informações sobre sua carreira, incluindo anedotas que nos mostram um pouco de seu espírito alegre, generoso e comunicativo. Em sua homenagem, o compositor Carlos Alberto Pinto Fonseca (1933–2006) deu início à composição de um Requiem. Porém, esse maestro faleceu poucos dias após Amin Feres, em grande parte sensibilizado pela perda do amigo próximo.

Seu nome figura em obras de referência, como o livro A canção brasileira de câmara (2002), de Vasco Mariz (1921–2017) e o Dicionário de ópera (1987), de Charles Osbourne (1927–2017), e permanece na memória dos profissionais que conviveram com ele e também no imaginário de alunos atuais que ouvem histórias sobre sua arte e também sobre sua didática.

 

Referências

– CARDOSO, Lindembergue: catálogo de obras / catalogação e elaboração dos anexos Ilza

– Nogueira., Lucy Cardoso. – 1. ed. – Salvador : Programa de Pós-Graduação em Música da

– UFBA, 2009. 95 p. – (Marcos históricos da composição contemporânea na UFBA. Série catálogos-web; v. 2).

– FERES, Amin. Memorial (Manuscrito). Belo Horizonte: 1995, 105 f.

–  (Interp.). Madrigal Renascentista. Rio de Janeiro: Chantecler,1959, 1 disco de vinil, estéreo.

– LOPES, Robson. A AFRO-BRASILIDADE NA MÚSICA PARA CANTO E PIANO

– NO CICLO BEIRAMAR – OP. 21, DE MARLOS NOBRE. Belo Horizonte, 2010. Dissertação apresentada à Escola de Música da UFMG, para obtenção do título de Mestre em Música.

– MARIZ, Vasco. A canção brasileira de câmara. 4.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002.

– OSBORNE, Charles. Dicionário de ópera. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.

– SANTOS, Manoel Hygino dos. Madrigal Renascentista. Belo Horizonte: FUNDAÇÃO DE ARTE MADRIGAL RENASCENTISTA, 2012.

 

Mauro Chantal

Professor Adjunto da Escola de Música da UFMG – maurochantal@gmail.com

Mauro Chantal
Doutor em música pela UNICAMP, atua como docente na área de canto lírico na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.