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Alberto Nepomuceno – breve memória

Em época de “Artemis”, de Nepomuceno, no Teatro São Pedro, vale saber mais sobre o autor.

Em 1917, Alberto Nepomuceno deu entrevista à revista carioca “A Época Teatral”. Indagado sobre a excessiva influência europeia na cultura brasileira, sobretudo no que diz respeito à música, pôs em questão uma possibilidade dada como única: a de nosso pretenso refinamento às custas de uma rejeição a tudo o que não fossem os valores assimilados pela cultura europeia, arriscando uma outra possibilidade, a de “não ter ainda aparecido um gênio musical imbuído de sentimentos regionalistas que, segregando-se de toda influência estrangeira, consiga criar a música brasileira por excelência, sincera, simples, mística, violenta, tenaz e humanamente sofredora, como são a alma e o povo do sertão”.

O gênio musical de Alberto Nepomuceno foi um dos mais ousados em toda a historiografia da música no Brasil. Por acreditar firmemente em suas ideias, investiu talento e força humana contra a subserviência que definia a educação musical em nosso país na passagem do século XIX para o XX. Soube situar as diversas modalidades harmônicas e melódicas em diálogo com a contemporaneidade e com uma tradição popular, que ele próprio rejeitava como regionalizante, pois a encontrava em diversos pontos do país. Insistia na essencialidade de se estudar o folclore brasileiro, de maneira a que viéssemos não somente a compreender melhor o que somos, como também a fundar nossa própria escola.

Os ideais abolicionistas, que, como veremos, em muito prejudicariam os primeiros anos de sua vida, podem ser melhor localizados em tudo o que buscou para a música. Para ele, o Brasil não se libertaria da condição em que se encontrava se não descobrisse a si mesmo.

 

Fortaleza, depois Recife e Rio

Dizem que certas construções, ao serem desfeitas, levam consigo a memória de quem as habitava. É possível. Havia uma casa na rua Amélia, no centro de Fortaleza, onde em julho de 1864 nascera Alberto Nepomuceno. Era a casa de Víctor Augusto Nepomuceno e Maria Virgínia de Oliveira Paiva. Víctor era músico. Por muitos anos foi professor de violino e organista da Catedral de Fortaleza. Ali naquela casa cresceu Alberto, guiado pelo pai nas primeiras lições de solfejo, piano e órgão.

A rua Amélia não existe mais. Seu novo nome, rua Senador Pompeu, não corresponde à memória daquelas décadas intermediárias do século passado. Ao mudar o nome, oculta-se a história. Algo se perde na mudança do nome. Naquele caso, a mudança foi mais radical. Já não existe a construção. Hoje passamos todos pela rua Senador Pompeu, em algum ponto entre a Liberato Barroso e a Pedro Pereira, sem vislumbrar um resquício de memória que nos reanime. Invisível, no entanto, ali permanece a infância de Alberto Nepomuceno.

Logo nos primeiros anos, Víctor percebeu em Alberto a presença de um grande artista. Foi visionário da contribuição imensa de seu filho à música. A província de Pernambuco se apresentava, naquela ocasião, como local melhor indicado para a formação do jovem músico. Então Víctor concluiu que havia chegado a hora de arrumar as malas e partir para Recife.

Ali chegaram quando o menino contava 8 anos. Embora frequentando a escola, seguia tendo aulas com o pai, em casa, que agora acrescentava o estudo de violino. Era o ano de 1872 e havia um espírito comum de prosperidade na família Nepomuceno. Alberto era o grande norte, o futuro com que todos deveriam contribuir. Os estudos tomaram seu curso feliz. Alberto era aluno aplicado. Víctor se mostrava reconfortado com seu esmero e talento. Assim, as coisas tomaram seu curso, sem prever interrupções. Só que, no mesmo julho em que nascera Alberto, acabara morrendo o pai, em 1880, deixando-o com apenas 16 anos e uma realidade brutal pela frente.

O músico era apenas o músico. Não fazia ideia de onde vinha o sustentáculo de sua vida. Para que pudesse manter os estudos escolares, foi trabalhar em uma tipografia, o que garantia parcialmente seu sustento e também o da mãe e de sua irmã, Emília. Insuficiente, teve que ir buscar complemento em aulas de piano e teoria musical.

A vida mostrava os caninos da adversidade. Alberto, porém, era ainda um predestinado. Logo tornou-se aluno de Euclides Fonseca, compositor e pianista pernambucano. Sua relação com alunos e professores na Faculdade de Direito de Recife abria espaço para algumas ações. E nisto foi despertando seu ideal abolicionista. Graças à sua amizade com Tobias Barreto, logo dedicou-se ao estudo do alemão e da filosofia. Assim foi fortalecendo sua vida.

Alberto seguia as lições de seu pai, mesmo depois de morto. Embora trabalhando para manter a família, não se desfez um instante sequer de seus estudos. A música estava entranhada em seu espírito. A amizade recente com o músico Euclides Fonseca fez com que estreasse como violinista, no Teatro Santa Isabel, em Recife, justamente em uma ópera do próprio Euclides, “Leonor”. Era o ano de 1883. Um ano antes, Alberto havia sido nomeado diretor do Clube Carlos Gomes, uma das mais destacadas casas musicais do período. Agora estava mais firme em seus ideais políticos, vindo a tomar parte em várias campanhas em prol da causa republicana, empenho que acabaria lhe rendendo o título de Sócio Honorário da Sociedade Nova Emancipadora de Pernambuco.

No entanto, no ano seguinte, Alberto sente que era o momento de retornar ao Ceará, para dar continuidade a suas atividades e preparar-se para um grande salto em sua vida: ir à Europa, onde aperfeiçoaria seus conhecimentos musicais. Viaja então com a família e, em Fortaleza, filia-se ao grupo abolicionista Centro 25 de Dezembro, através de suas ligações com João Brígido e João Cordeiro. As instituições eram marcos do abolicionismo na província. Cordeiro era então o presidente da Sociedade Cearense Libertadora.

Foi ali que teve o primeiro contato com o mundo das intrigas palacianas. Uma petição enviada ao Império pela Assembleia Legislativa no Ceará, com o fim de custear sua temporada europeia, foi indeferida sob a justificativa de que era homem ligado a atividades políticas inaceitáveis.

Era chegado o momento da ruptura. Não poderia mais conviver com aquele cenário de falsas intenções. Ao completar 21 anos, parte para o Rio de Janeiro, desta vez sem levar os parentes, deixando Maria Virgínia e Emília aos cuidados de um tio. Uma família carioca de jovens artistas, os Bernadelli, o acolheu nesse início de uma nova vida. Em poucos meses, Alberto já começa a sentir a diferença.

Em 1º de novembro, faz sua estreia, como pianista, ao público carioca, ao lado de Arthur Napoleão, músico que posteriormente atuaria como solista em concertos regidos por Nepomuceno. A noite se deu na aclamada sala musical Clube Beethoven. E trouxe consigo a fortuna de um outro convite: apresentar-se em companhia do violoncelista Frederico Nascimento. Este músico viria a tornar-se um de seus mais constantes amigos, inclusive o hospedaria em seus últimos anos de vida.

A partir daí, começa a ensinar música e a apresentar-se como pianista em inúmeros saraus e concertos. O próprio Clube Beethoven o nomeia professor de piano, em 1886, quando então estudava harmonia com o professor Miguel Cardoso. Alberto era um incansável estudioso. Em definitivo, era um artista, e não facilitaria em nada os reveses da vida.

O grande artista terá sempre a consciência de que rompe com um estilo em voga? Alberto tinha um destacado interesse pela literatura brasileira, o que o levara a aproximações com vários escritores, entre eles Olavo Bilac, Aluísio Azevedo, Coelho Neto e Machado de Assis. Este último conhecera no Clube Beethoven, quando então ali Machado trabalhava como bibliotecário. Esses primeiros contatos fortaleceram em Alberto seu interesse pela valorização da língua portuguesa.

Se, por um lado, importava o diálogo com os movimentos europeus – Romantismo, Realismo, Parnasianismo, Naturalismo –, a verdade é que esse diálogo só iria existir, de fato, quando fundássemos nossas próprias vozes poéticas, ou seja, quando deixássemos de ser apenas eco de experiências alheias. Percebeu que logo começaria a escrever uma série de composições com esses jovens brasileiros que lhe pareciam estar conquistando a referida voz própria. Por enquanto, havia ainda muito a estudar, ao mesmo tempo em que seguia se apresentando como músico.

Em junho de 1886, por exemplo, fez sua grande estreia como solista ao piano ao interpretar o Concerto # 3 de Beethoven no Cassino Fluminense, acompanhado por orquestra de 60 músicos sob a regência do maestro Roberto Benjamin. A noite tinha sabor especial, marcada pela presença do imperador Pedro II. Alberto possuía um carisma excepcional. Mesmo com as reservas com que era visto na corte, em decorrência de suas atividades republicanas no Nordeste, chegou a ser convidado pela princesa Isabel para acompanhá-la em um chá no Paço Imperial.

Nos dois anos seguintes, dedica-se finalmente à composição. Viaja a Fortaleza, onde se encontra com o então presidente da Província do Ceará, Caio Prado, ao lado dos escritores Oliveira Paiva e Antônio Sales. No Clube Iracema, mostra, em primeira audição, sua “Dança dos Negros”, composição para piano que depois seria integrada à Série Brasileira, já com o título de “Batuque”. Na verdade, a viagem a Fortaleza fazia parte de um giro nordestino, ao lado de Frederico Nascimento, onde apresentaram várias peças para piano e violoncelo, tanto em conjunto como em separado. O giro, por sua vez, tinha a intenção de recolher fundos para que Alberto finalmente fosse à Europa. O escultor Rodolfo Bernadelli empenhou-se pessoalmente na busca de recursos que garantissem a viagem de Alberto, recolhendo a colaboração de diversos amigos e estimulando a turnê pelo Nordeste do Brasil.

 

A caminho de Gênova e Roma

Agosto de 1888. O pintor Henrique Bernadelli, seu irmão Rodolfo, escultor, e Alberto, embarcam no vapor Adria, a caminho de Gênova, Itália. O plano de Rodolfo finalmente funcionara, assim como o desejo de Alberto, ainda que este mantivesse certo orgulho que quase o impedira de aceitar a ajuda dos amigos.

Parte da viagem o músico a fizera recolhido à cabina, dominado pela criação, que se apossara em definitivo de sua alma. Levara consigo os originais do escritor Juvenal Galeno, que acabaria adaptando para o libreto que constituiria a ópera Porangaba, um episódio lírico em três atos, extraído de uma antiga lenda cearense. Embora não tendo sido jamais encenada, “Porangaba” marca um dado histórico, por encontrar-se nos primórdios das composições operísticas brasileiras, ainda mais levando-se em consideração o fato de trazer libreto escrito em português, assinado pelo próprio autor da partitura.

De Gênova, seguem para Roma. A vida de Alberto já estava traçada. Não podia dispersar-se no assombro diante de um novo mundo. Matricula-se logo no Liceo Musicale Santa Cecilia, onde vai estudar harmonia com Eugenio Tarziani e piano com Giovanni Sgambatti, conceituados mestres italianos. Os estudos de piano são interrompidos pela morte de Sgambatti. Alberto então prossegue com o compositor Cesare De Sanctis. Há aí uma larga felicidade, pois De Sanctis havia escrito um Tratado de Harmonia, que Alberto enviou ao Rio de Janeiro, para que o compositor e violinista Leopoldo Miguez oficializasse sua adoção no Instituto Nacional de Música, que acabara de ser criado, em substituição ao antigo Conservatório Imperial.

Este primeiro momento europeu não encerrava aí seu caráter favorável. Ao inscrever-se, em 1890, em um concurso aberto para a composição do Hino à Proclamação da República, Alberto obteve um terceiro lugar que lhe rendeu uma pensão do governo provisório que garantia sua permanência na Europa. Era uma nova situação que se apresentava diante de si.

O jovem músico, então com seus 26 anos, seguia compondo, mas, sobretudo, lhe interessava aprender mais aquele múltiplo caráter de sua atividade musical: composição, regência e técnica instrumental. É quando viaja para a Alemanha e ingressa na Academia Meinster Schulle, o que lhe propiciaria estudar composição com Heinrich von Herzogenberg, um notável teórico por quem Brahms tinha declarada admiração.

O ano seguinte, contudo, concentraria circunstâncias que mudariam toda a vida de Alberto. Assiste a um concerto de Brahms, conhece sua futura esposa e o compositor norueguês Edvard Grieg. Há aquele momento na vida de uma pessoa, sobretudo em se tratando de um artista, em que se percebe que todo um futuro passará a girar em função de seu entendimento, de sua aceitação. Alberto possuía grande percepção do mundo à sua volta. Não se sentia propriamente um missionário, embora os ideais românticos de sua época facultassem tal visão de mundo, mas entendia que vivia um momento de particular responsabilidade que lhe caía sobre os ombros. Teria que lutar contra muitas forças, até porque era bem amplo o universo em que deveria atuar.

E agora ali, com 27 anos, de férias de suas aulas, em viagem a Viena, apenas para assistir a um concerto de Johannes Brahms, tudo começava a se delinear com mais vigor em sua vida. Já não era o mesmo Alberto, circunspecto, considerado petulante por alguns, sempre recolhido à sua fome de saber. Mesmo em férias, vai tomar aulas com o músico Theodor Lechetitzky, quando então conhece a pianista Walborg Bang, que era aluna de Edvard Grieg.

Johannes, Walborg, Edvard. Um jovem artista encontra-se com um dos maiores compositores da história da humanidade, com a mulher que teria a máxima importância em sua vida afetiva e com o compositor que definiria o norte de seu futuro musical. Tudo isto de uma só vez. Era um peso muito grande, que Alberto soube suportar, com o qual logo aprendeu a conviver.

Walborg tinha traços delicados, alegres, joviais. Era uma pianista aplicada em seus estudos. Tocava a vida com tanta leveza que despertou imediata paixão em Alberto. Johannes estava já no auge de sua obra, tendo o nome reconhecido como um dos maiores compositores de sua época. Edvard possuía uma particularidade apaixonante: sua inclinação por um nacionalismo romântico. Alberto tinha diante de si um grande portal, o convite irrecusável à entrada em um novo mundo. Eram três forças que representavam toda a confirmação de que sua vida possuía um caráter diferenciado em relação à de seus contemporâneos. Este é o momento em que um grande artista compreende que faz parte de outra dimensão da existência, quando enfim passa a ter condições de criar com uma consciência de seus motivos mais íntimos. Naquelas férias regimentais na Áustria, em 1891, fundamentou sua existência. Pode-se mesmo dizer que ali nasceu um dos marcos centrais da cultura brasileira: o compositor, músico e regente Alberto Nepomuceno.

Tudo era música na vida do jovem Nepomuceno, no frescor de seus 28 anos. Em maio de 1892, transfere-se para o Conservatório Stern, em Berlim, onde vai estudar piano e órgão. É um período em que compõe muito pouco. A rigor, naquela residência na Alemanha compôs apenas uma peça para quarteto de cordas e seis pequenas outras para piano solo.

Também por aquela ocasião alguns músicos brasileiros estudavam composição em Berlim, e Nepomuceno conhece alguns deles, entre os quais o pianista e compositor paulista Félix Otero. Ao estrear como regente, à frente da Orquestra de Tonhalle, em Zurique, faz questão de apresentar ao público suíço um outro compositor brasileiro, Francisco Braga, autor do Hino à Bandeira e que posteriormente seria diretor artístico da Sociedade de Concertos Sinfônicos.

Além disto, rege uma peça sua, “Batuque”, adaptada para orquestra a partir da composição original para piano solo, “Dança dos Negros”, de 1887, chamando atenção para o fato de que constituía uma das partes da Série Brasileira, talvez sua peça mais popular. No programa de um concerto em 1896, já no Brasil, há uma observação de que “Batuque” foi bisada em Zurique, o que já atestava a empatia com o público.

Julho de 1893. Nepomuceno parte para a Noruega, para casar-se com Walborg. Hospeda-se na casa de Grieg. Em paz com seu amor, aquele é o momento central em que fundamenta a necessidade ulterior de fazer com que os brasileiros entendessem a essencialidade de se criar um patrimônio cultural próprio. As ideias de Grieg fortaleciam as suas. O norueguês não buscava ser uma espécie de ídolo de um programa nacionalista, com que acabaria sendo confundido por vários contemporâneos seus. Menos ainda Nepomuceno, que vinha do distante Brasil, país ainda sem afirmação cultural. Os dois compositores discutiam por noites prolongadas acerca de como valorizar as canções folclóricas, como inserir no cenário erudito alguns instrumentos tidos como vulgares, da mesma forma que certos ritmos populares. De tudo eles se ocuparam, inclusive da necessidade das pautas virem traduzidas para cada idioma, assim como as letras de cada lied, como era chamada a canção de câmara.

O músico brasileiro tinha uma preocupação destacada sobre este assunto, pois considerava prioritária a adequação desse universo do lied à linguagem de seu país. Se as letras não viessem em português, como pensá-las como nossas? Ele próprio diria: “O compositor erudito está refinado demais com a cultura europeia e não se volta para o povo”.

Edvard, Alberto, Walborg. O inverno suíço iria consubstanciar seu amor, mas, sobretudo, a firme decisão de criar um espírito brasileiro, a modulação essencial entre conhecimento e experiência, de tal maneira que fôssemos levados a compreender a real possibilidade de virmos a alcançar um dia uma identidade musical própria.

O risco era grande, especialmente no caso de suas relações com compositores europeus, cujos ideais de nacionalismo possuíam uma outra dimensão. Nepomuceno seguia adiante. Ainda em Zurique, tomava aulas de órgão. De volta ao Conservatório Stern, nas provas finais regeu a Orquestra Filarmônica de Berlim, que executou duas obras suas. Aquele era um momento particular, que começa a repercutir no Brasil. O primeiro sinal disto se deu em abril de 1894, quando foi nomeado professor de órgão do Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro. O cargo não exigia sua presença. Tratava-se de uma relação estratégica. Este seria o primeiro contato direto de Nepomuceno com a política cultural brasileira. Mesmo assim aceitou, logo seguindo para Paris, onde foi se aperfeiçoar nos estudos de órgão.

Já em Paris, conhece, entre outros, o compositor Saint-Saëns, de quem regeria várias peças, a exemplo de Concerto # 2 para piano e orquestra e o poema sinfônico Le rouet d’Omphale. Contudo, o que o marcou foi a estreia da execução de Prélude à l’aprés midi d’un faune online , de Debussy. Além disto, Charles Chabault, um professor de grego em Sorbonne, o convidou para escrever a música incidental da tragédia de Sófocles, Electra. A temporada em Paris foi das mais férteis para Nepomuceno, tanto em termos de composição como de relacionamento. Escreveu várias peças para piano e voz, musicando autores italianos, alemães e franceses, mas, sobretudo, pondo em prática suas conversas com Grieg, ao musicar brasileiros como João de Deus, Gonçalves Crespo, Juvenal Galeno e Luís Guimarães Filho.

Em meados de 1895, recebe convite do governador de Pernambuco, Barbosa Lima, para organizar o Conservatório de Música de Recife. Embora estivesse retornando ao Brasil, não houve como aceitá-lo, pois tinha planos de fixar residência no Rio de Janeiro, então capital da República.

 

Polêmica no Rio

O retorno de Alberto Nepomuceno ao Brasil constitui um dos momentos mais ricos e polêmicos de nossa historiografia musical. Em agosto de 1895, realiza o primeiro concerto brasileiro de suas canções em português, no Instituto Nacional de Música. Apresenta-se como pianista e organista, tendo a seu lado intérpretes como Carlos de Carvalho, Camila de Conceição e Leopoldo Noronha, então considerados nossos mais importantes solistas.

Embora o concerto não se restringisse às peças cantadas – ali tiveram sua primeira audição pública, por exemplo, as Quatro Peças Líricas para Piano Solo, onde se inclui A Galhofeira –, é fato que a grande atenção despertada veio do insólito que era cantar lied em português.

Assim é que, ao invés de impor a qualidade de uma música nova, o que Nepomuceno acabou desatando foi grande ira, sobretudo da parte dos críticos musicais cariocas, que chegaram a considerar sua atitude um ultraje. O mais ferrenho opositor de Nepomuceno foi Oscar Guanabarino, um idólatra do canto em italiano. O Brasil seguia uma tradição musical europeia, em que a França demarcava o âmbito estrutural e a Itália o monopólio do idioma. Nepomuceno como que rompia com as duas circunstâncias, ao mesmo tempo em que mostrava aos brasileiros que era possível ter sua própria música. Ele mesmo diria: “Nossa educação musical é feita atualmente sobre a tríplice influência das escolas alemã, francesa e italiana, mas são as duas últimas que mais se fazem sentir nas nossas produções”.

Nepomuceno desmentia todos aqueles que defendiam que a língua portuguesa não era adequada ao bel canto. O lema criado por ele, e que tão bem caracterizou esse período, não mostrava nenhuma inclinação por um nacionalismo retrógrado, mas antes afirmava seu empenho em ajudar a construir um patrimônio cultural brasileiro. Se, por um lado, contou com o apoio de alguns músicos, onde se incluem os solistas que interpretavam suas peças, com quem dividia ainda os ideais republicanos, também encontrou no presidente Rodrigues Alves um forte aliado, que chegou a promover várias audições de canções brasileiras no Palácio do Catete, para as quais sempre convidava Nepomuceno.

Juntamente com Leopoldo Miguez, em 1896, Nepomuceno funda a Orquestra da Associação dos Concertos Populares, para a qual é nomeado diretor. A pedido do visconde de Taunay, autor do romance Inocência (1872), inicia um extenso período de recuperação da obra do padre José Maurício Nunes Garcia, notável compositor do século XIX que, em 1818, regeu a primeira audição do Réquiem, de Mozart, a começar por Sacrum Convivium, peça para coro misto e pequena orquestra, seguida da Missa de Réquiem, originalmente composta para solistas, coro misto e orquestra, mas que Nepomuceno adapta para órgão ou harmônio.

Ao todo, foram recuperadas onze peças deste importante compositor, todas contando com a publicação integral das partituras. Além dele, Nepomuceno também recuperou duas peças de outro grande compositor do período, Marcos Portugal: Il principe Spazzamino, em 1899, e O Basculho, em 1904. Nos dois casos, tratava-se de ópera-bufa em dois atos, de que foram recuperadas apenas partes avulsas. Nepomuceno conhecia os riscos do trabalho de uma vida inteira perder-se no tempo pela simples falta de registro das partituras. Soube resgatar de forma primordial a música sacra brasileira, embora o tempo lhe reservasse uma ingrata situação, ou seja, a necessidade de um dia alguém recuperar suas próprias partituras.

Por todo o ano de 1896, Nepomuceno se apresentou em público inúmeras vezes, tanto no Cassino Fluminense como no Teatro Lírico Nacional, sobretudo na condição de regente, quando deu a conhecer ao público carioca peças de Haydn, Beethoven, Weber, ao lado de compositores brasileiros como o paulista Carlos Gomes e os cariocas Leopoldo Miguez e Henrique Oswald. Desde cedo, marcara boa distinção, a admirável percepção de que lhe cabia a responsabilidade de impedir que se seguisse adiante no equívoco de uma relação de subserviência entre a música que se compunha no Brasil e na Europa.

Por toda a segunda metade de 1896, Nepomuceno regeu 17 concertos, integrados em grande parte a uma série intitulada Concerto Popular, em que foram apresentadas obras de dezenas de compositores. Em um deles, o IX Concerto Popular, realizado no Teatro Lírico Nacional, tendo sido o primeiro concerto regido após a morte de Carlos Gomes, em 20 de setembro de 1896, recebeu a seguinte nota, dois dias após sua realização, do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro: “O público ouviu de pé a Protofonia de O Guarani, sendo visível a profunda emoção que se apoderou do regente, maestro Alberto Nepomuceno”. Esta profunda emoção tinha muitas razões de ser. Dois meses antes, quando Carlos Gomes ainda estava enfermo, Nepomuceno dividiu com o maestro Cordiglio Lavalle a regência de um Festival Carlos Gomes, no mesmo Teatro Lírico Nacional, na verdade um concerto em benefício do compositor brasileiro que se encontrava em grave estado de saúde e sem um mínimo de recursos. Isto sem falar em um respeito imenso que Nepomuceno mantinha pela obra de Carlos Gomes.

Logo em seguida, na mesma casa, Nepomuceno rege, em noite memorável, a primeira execução conjunta de sua Série Brasileira, composta de quatro movimentos: “Alvorada na serra”, “Intermédio”, “A sesta na rede” e “Batuque”. Também ali apresenta duas outras peças sinfônicas, Suíte Antiga e Sinfonia em Sol Menor, além de As uiaras, curiosa composição para voz solista, coro feminino e orquestra, que trazia texto – sempre em português – do escritor Melo Morais Filho. Lamentavelmente, o manuscrito original dessa peça foi extraviado, a exemplo de alguns outros. Apesar da importância conjunta da noite, a crítica acabou destacando, ao longo dos anos, a apresentação da Série Brasileira. Nepomuceno empregara em sua composição alguns temas brasileiros ao lado de melodias e ritmos que também assim poderiam ser compreendidos. Graças às suas pesquisas de ritmos populares, a exemplo de inúmeros autos nordestinos, mesclava essa música ao buliçoso maxixe tão em voga na sociedade carioca daquela época. Além disso, buscava aproximação entre diversos sons que caracterizavam a vida da gente nordestina, de uma sensualidade nostálgica e um alvoroço caboclo.

Nepomuceno, no entanto, enfrenta algumas adversidades por parte da crítica. Continua, porém, seu trabalho, cercado de amigos e do respeito de algumas instâncias institucionais. A família Bernadelli será o grande referencial afetivo de Alberto e Walborg. O casal está sempre presente naquela casa, no Rio de Janeiro, assim como os filhos: Eivind, Sigurd, Sigrid e Astrid.

Em julho de 1898, é convidado para reger a Missa de Santa Cecília, do padre José Maurício, por ocasião da inauguração da Igreja da Candelária. Pouco depois, em outubro, é encenada, no Teatro São Pedro de Alcântara, sua ópera Artemis, episódio lírico em um ato, que trazia texto e libreto assinados por Coelho Neto. Escrita para barítono, dois sopranos, coro misto e orquestra, seus solistas foram Carlos de Carvalho, Roxy King e Camila da Conceição.

Este é o primeiro registro de encenação de uma ópera brasileira, devendo ainda ser considerado o aspecto de que Nepomuceno inovava quanto ao fato do libreto ser escrito em português, embora trazendo versão francesa, assinada pro Iwan d’Hunac, e alemã, escrita pelo próprio compositor. A receptividade do público decerto o incentivou a seguir a trilha da composição operística. Tendo por base literária a novela Pela fé, do romancista Herbert Ward, começa a compor, em 1899, Abul.

O que é a vida de um músico? Tudo o que lhe diga respeito atende por música. Compõe, executa, rege. Conversa com músicos. Alia-se a músicos, indispõe-se com músicos. O que pode interessar a vida de um músico a quem não é músico? – certamente alguém indagaria. Aí o engano. Talvez interesse mais a quem não é músico, pelo que se pode dela extrair sem a permissiva intimidade.

 

Buy 1900

Enquanto um novo século surgia, Alberto Nepomuceno parte novamente para a Europa. Vai conversar com o compositor Gustav Mahler, que então dirigia a Ópera de Viena, porque ali pretendia encenar Artemis. Não encontraria condições favoráveis. Uma grave crise renal abate o compositor, levando-o de volta à Noruega, à casa de seu querido Edvard. Cuidados médicos. A angústia gerada por uma doença que o abate em meio a um grande projeto de vida. Meses depois vai à Alemanha. Perambula convalescente até dezembro de 1901, quando retorna ao Rio de Janeiro.

Na vida de um músico, de um artista, um período de afastamento, provocado pelo que seja – no caso de Nepomuceno, uma enfermidade –, é parte essencial de seu aprimoramento espiritual. De volta ao Brasil, compôs uma série de seis canções de câmara, musicando versos de Osório Duque Estrada, Hermes Fontes, Coelho Neto, Gonçalves Dias, Carlos Magalhães de Azevedo e Luís Guimarães Filho.

Coincidindo com a morte de Leopoldo Miguez, foi convidado, em julho de 1902, para assumir o cargo de diretor do Instituto Nacional de Música. “Quero ter liberdade completa de agir Purchase ”, disse em carta a seu amigo Luiz de Castro. “Quero ter sempre a cabeça levantada para poder guardar com dignidade o cargo Buy dose of azithromycin for rosacea ”. A prática tornou impossível o desejo natural do compositor. As irregularidades administrativas naquela instituição eram tamanhas, que Nepomuceno acabou não concordando em suportar as pressões políticas geradoras.

Como salientou o compositor Caio Sílvio Braz, em um dos mais primorosos estudos acerca de sua obra, Nepomuceno “encontraria de volta ao Brasil um ambiente hostil, absolutamente insensível à valorização da nossa cultura ainda extremamente dependente dos gostos tradicionais da Europa”. Ao exonerar-se do cargo, alegou “intransigência de caráter e de amor à classe”.

É disto que é feita a vida de um musico? A despeito de inúmeras adversidades, tanto crescia o gênio de Nepomuceno quanto seu prestígio. Até porque era um homem de espírito quase inabalável. Mesmo que despertasse a inveja entre seus contemporâneos, o fato é que fortalecia a cada dia a essencialidade e o pioneirismo de seu trabalho. Antenado com as novas conquistas musicais na Europa, a exemplo das inovações de um Wagner em Tristão e Isolda, foi o primeiro compositor brasileiro a utilizar certas combinações musicais que caracterizavam os novos tempos. É disto que é feita a vida de um músico.

Ao chegar a seus 40 anos, Nepomuceno vê publicada, pelas edições Vieira Machado & Moreira de Sá, uma coletânea de doze de suas canções, com ele próprio ao piano, acompanhado por seus intérpretes habituais, entre os quais Carlos de Carvalho, um dos principais solistas brasileiros naquele momento. Logo em seguida, rege uma primeira audição do prelúdio de O Garatuja, comédia lírica em três atos baseada em romance anônimo de José de Alencar. Esta obra é considera a primeira ópera brasileira, se levados em conta aspectos como tema, ambiente, particularidades musicais e o texto em português. Trata-se, no entanto, de uma partitura inacabada e, consequentemente, jamais encenada. Além do prelúdio mencionado, Nepomuceno concluiu apenas o primeiro ato. Contudo, a leitura do manuscrito permite avaliar sua riqueza estrutural, ao mesclar ritmos populares como o tango, a habanera, o lundu e o maxixe.

Nepomuceno mantinha o firme propósito de desenvolver uma relevante partitura operística. Um ano antes, em 1903, participou de projeto coletivo, ao lado dos músicos Sant’Ana Gomes, Henrique Oswald e Francisco Braga, ao compor a parte conclusiva de um auto religioso em um prólogo e três atos, A Pastoral, cujo texto era de Coelho Neto. A peça teve sua estreia no Teatro São Carlos, em Campinas, na noite de 25 de dezembro. Os regentes eram justamente Alberto Nepomuceno e Francisco Braga.

Já em 1905, conseguiu concluir a orquestração de seu mais ambicioso projeto operístico, Abul, descrita em seu libreto como uma ação legendária em três atos e quatro quadros. O libreto é do próprio compositor. Naquela ocasião, a companhia lírica Luigi Mancinelli chegou a anunciar em sua programação uma primeira encenação. Contudo, embora a suíte da ópera tenha sido executada em ocasiões como o Festival Alberto Nepomuceno, no Instituto Nacional de Música, em agosto de 1906, e uma programação conjunta, no mesmo Instituto, desta vez em agosto de 1907, reunindo Arthur Napoleão e Nepomuceno, Abul teria que esperar até 1913 para ter sua estreia, confirmando o talento do compositor cearense também neste gênero.

Nepomuceno segue regendo o organizando alguns concertos sinfônicos. A pedido de barão do Rio Branco, por exemplo, coordenou a série de concertos em torno do Congresso Pan-americano, entre 23 de julho e 26 de agosto de 1906, quando regeu a cerimônia de abertura, que incluía a primeira parte de O Guarani, de Carlos Gomes, e o poema sinfônico Ave libertas, de Leopoldo Miguez. Este foi um momento crucial para o desenvolvimento das relações continentais do Brasil e, para presidi-lo, o governo brasileiro convidou Joaquim Nabuco, que então residia nos Estados Unidos, e de lá trouxe consigo o secretário de estado Ulihu Root. Já em 1908, Nepomuceno foi nomeado diretor musical e principal regente dos 26 concertos constantes da programação da Exposição Nacional, evento ocorrido em pavilhão montado na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, para o qual Nepomuceno convidou dois outros regentes, Assis Pacheco e Francisco Braga.

Se ali os brasileiros tiveram a oportunidade de ouvir pela primeira vez autores como Berlioz, Debussy, Schumann, Mendelssohn, Weber, Rimsky-Korsakov, Smetana, Beethoven, ouviam também Francisco Nunes, Carlos Gomes, Leopoldo Miguez, Edgard Guerra, Araújo Vianna, Ernesto Ronchini, Francisco Braga e o próprio Nepomuceno, em uma média de quatro peças executadas por dia. Quase 100 compositores foram apresentados ao público, o que dá para se aquilatar a importância histórica desses concertos. Não se sabe por que razão Nepomuceno não incluiu ali nenhuma peça de seu amigo Edvard Grieg, que na época já havia composto o Concerto para Piano e Orquestra. Por outro lado, regeu algumas partituras de Saint-Saëns, que inclusive estivera no Brasil em 1904, sendo recepcionado pelo próprio Nepomuceno. Saint-Saëns, assim como Grieg, Smetana, Bartók, são identificados juntamente com Nepomuceno como defensores de um processo de nacionalização da música erudita, cada um deles em seu país.

 

Buy Escândalo de utilidade pública

Muitas coisas em nossas vidas são frutos de um preconceito. Por vezes, pequenas noções de situações tão cotidianas são movidas pelo preconceito. A ideia que fazemos de um escândalo, por exemplo, é geralmente a de uma ação inconsequente. E sendo uma ação sem consequência não há porque aceitá-la. No entanto, há escândalos consequentes e inconsequentes. Poderíamos assim dizer que há escândalos de utilidade pública. Tal natureza de escândalo traz em si uma verdade implícita, em grande parte garantida por sua ambiguidade.

Se pensarmos, como recorda Caio Sílvio Braz, em estudo aqui já mencionado, que o curso de música da Universidade de Brasília relutava em aceitar, poucos anos atrás, a inclusão do estudo de violão como cadeira regular, o que não dizer da rejeição quase unânime ao convite que Nepomuceno fez a Catulo da Paixão Cearense para realizar um primeiro concerto de violão no Instituto Nacional de Música, ou seja, a presença pioneira daquele instrumento nos salões nobres da música erudita? Escândalo de que natureza?

Não somente a imprensa, mas também inúmeros compositores foram desfavoráveis à atitude de Nepomuceno, considerando-a inconsequente, uma vez que o violão era um instrumento inadequado para o ambiente. Tínhamos ali um velho dilema que perdura até hoje: a presença fantasiosa de dois brasis antepostos, assim situados como áreas de confluência impossibilitada. Nepomuceno punha em choque essa discussão. Dois anos depois de sua morte, um de seus mais fiéis seguidores, Luciano Gallet, convidou o compositor e também violonista Ernesto Nazaré para uma apresentação no mesmo Instituto Nacional de Música.

Nepomuceno era um artista incansável, e que agia em muitas frentes. Nos últimos anos, havia composto o Hino do Ceará, peça que deveria atender à comemoração dos 300 anos da chegada dos portugueses ao Ceará. Coelho Neto lhe escrevera dizendo tratar-se de “uma página soberba, cheia de sol e de heroísmo, bem nossa, do nosso Norte ardente”. Os versos eram de autoria do poeta Tomás Lopes. Já em 1907, aceita outro convite, o de reformar o Hino Nacional Brasileiro, quando então regulamenta sua execução pública, oficializando a letra de Osório Duque Estrada. Tem início aí uma série de transcrições de peças suas para execução em piano com a mão esquerda.

 

De novo na Europa

Antes de partir para sua terceira residência europeia, Nepomuceno envia projeto de lei ao Congresso Nacional que ambicionava a criação de uma orquestra sinfônica estável subvencionada pelo Estado. Era um ponto a ser resolvido: como o governo comissionava um regente para executar um programa de difusão de compositores brasileiros no exterior e, ao mesmo tempo, não dava condições para que a música brasileira florescesse internamente?

Nos anos de 1909 e 1910, Nepomuceno regeu, em Paris, Genebra e Bruxelas, peças sinfônicas suas e de Henrique Oswald, Meneleu Campos, Leopoldo Miguez, Carlos Gomes, Francisco Braga e Elpídio Pereira. É uma temporada riquíssima, porém sempre mencionada restringindo-se ao fato de ele haver visitado Debussy, em sua residência em Neuilly-sur-Seine, sendo ali presenteado com a partitura autografada de Pelléas et Mélisandre. Uma honra, não resta dúvida. Porém, a importância de Nepomuceno fazia jus a tais honrarias. Sua estada na Europa estava marcada por uma importância maior: promover a difusão de compositores brasileiros, a partir de seu enorme prestígio. Era um período soberbo.

No Retorno ao Brasil, recepcionou o pianista Paredewsky, em sua visita em agosto de 1911. Compôs uma nova ópera, A cigarra, peça cômica em três atos e cinco quadros, montada no Palácio Teatro, no Rio de Janeiro, em novembro deste ano, apenas em forma de concerto. Quanto ao libreto original, vinha em português, assinado pelo escritor Luís de Castro. Por uma curiosidade, compositor e libretista assinavam o espetáculo com os pseudônimos João Valdez e Eduardo Rivas, respectivamente.

A música comemorava, em 1913, o centenário de nascimento de Richard Wagner. Nepomuceno regeu várias peças do compositor alemão no Teatro Municipal de São Paulo (maio) e do Rio de Janeiro (junho). Logo em seguida, embarca para Buenos Aires, onde terá a estreia triunfante de sua ópera Abul, no Teatro Coliseo, na noite de 30 de junho. A ópera viria ao Brasil, em setembro do mesmo ano, mas antes seria encenada em Rosário e Montevidéu. A crítica argentina a recebe muito bem. Além do que há um reforço de sua presença ali, pois rege, no mesmo teatro, na noite de 21 de julho, sinfonias suas e de Carlos Gomes, Leopoldo Miguez e Henrique Oswald.

A montagem de Abul seria levada, dois anos depois, a Roma, no Teatro Constanzi. Nepomuceno havia criado uma grande expectativa, que acabou não sendo correspondida. Lemos em uma de suas cartas da época: “Atingir a Arte com os bons processos para sua própria dignificação, é o que almejo. O esforço que eu faço é sincero, há de ser útil, muito embora não seja apreciado pela turba. Se tu, se os meus amigos, ficarem satisfeitos, ficarei contente. É a mais alta compensação. A do público, que é inestimável, virá, embora tarde, reconhecer a minha sinceridade, pois essa, real como é, há de sobrenadar. Questão de tempo.”

Abul foi encenada ainda em São Paulo, Campinas e Petrópolis, somando um número de montagens superado apenas pelas óperas de Carlos Gomes. A desilusão de Nepomuceno certamente será fruto de uma expectativa muito grande criada por ele em relação a esta ópera. Já contava com um grande reconhecimento, talvez até maior do que aquele que atravessou o século e permite a leitura atual de sua importância. É tido como regente consagrado internacionalmente, também respeitado por seus princípios nacionalistas, que acabariam sendo engalfinhados pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. Tem ali início uma distorção grave do sentido de nacionalismo defendido por músicos como Grieg, Bartók e o próprio Nepomuceno. O que eles compreendiam como a necessidade de definição de um patrimônio cultural acabou sendo convertido em cláusula de um programa de supremacia racial.

A despeito dessa desfiguração em curso, Nepomuceno segue trabalhando. Em 1914, rege concerto em comemoração à inauguração do monumento do padre Antônio Feijó, no Teatro Municipal de São Paulo. Ali apresenta peças sinfônicas de seus contemporâneos, Rimsky-Korsakov e Saint Saëns. Em 1916, tenta implantar o Tratado de Harmonia, do compositor alemão Arnold Schoemberg, em tradução sua, no Instituto Nacional de Música, encontrando uma rejeição generalizada, excetuando seu querido amigo, o violoncelista Frederico Nascimento. Para Nepomuceno, aquela era uma situação incontornável. Durante algum tempo havia se enchido de paciência, tentando entender as dificuldades que atravessava como plausíveis dentro de certo assombro frente ao que tinha a oferecer. No entanto, não mais se tratava de puro preconceito ou de baque diante do escândalo conseqüente. O clima havia se convertido pura e simplesmente em uma operação de rejeição a seu trabalho. Por duas vezes estivera à frente do Instituto Nacional de Música. Realizara ali eventos que fariam com que a instituição entrasse para a historiografia nacional. Já havia feito de tudo. O que faltava? Como fazer para ser aceito em seu próprio país?

 

Strauss rege O Garatuja

23 de novembro de 1920. À frente da Orquestra Filarmônica de Viena, Richard Strauss rege uma versão orquestrada da ópera O Garatuja. Meses antes, Nepomuceno é condecorado com a medalha de ouro do Rei Alberto, da Bélgica, por sua devoção à causa belga durante a Primeira Guerra. Em uma entrevista à imprensa carioca, revela haver recolhido e catalogado diversos cantos populares brasileiros: “Nunca me dediquei a esses estudos, mas possuo, como diletante, uma coleção de uns 80 cantos populares e danças, que procuro sempre aumentar. Acham-se quase todos estudados e classificados, e nesse trabalho verifiquei uma modalidade que não é regional, pois que se encontra em cantos recolhidos no Pará, no Ceará e no interior do Estado do Rio”.

Nepomuceno referia-se à sua percepção de uma linha musical brasileira que extravasava os limites regionais. Claro que entendia se tratar de miscigenação de ritmos, incluindo aqueles oriundos das culturas negra e indígena, o que posteriormente permitirá delinear um caráter nacional dessa música.

Segue compondo. Em uma circunstância pouco clara, separa-se de Walborg. Afirma a público o gênio de Heitor Villa-Lobos, cuja obra certamente daria continuidade a seu pioneirismo. Mostrava-se tão empolgado diante deste compositor, que acabaria intercedendo junto a seu próprio editor, para que começasse a incluir em seu catálogo a publicação das obras de Villa-Lobos. Logo em seguida, escreve sua última peça, uma composição para piano e voz, a partir de versos de Juvenal Galeno. É um homem desgastado pela absoluta falta de compreensão do significado de sua obra, de sua existência, especialmente no meio que lhe justificava a ação.

Desde a separação de Walborg, Nepomuceno tinha ido residir com seu velho amigo, Frederico Nascimento, em Santa Teresa. Nos últimos momentos, esteve com uns poucos amigos brasileiros. Morria de um desfalecimento de suas crenças. Sua crise renal jamais seria suficiente para matá-lo. Pode-se dizer que tenha morrido de desgosto. Um profundo desgosto que o levou, na noite de 15 de outubro de 1920, a entoar o Glória a Deus nas alturas como um salmo gregoriano, até que lhe esgotassem as forças, na manhã do dia seguinte. A cadência e a firmeza da voz anunciaram o ritual de sua agonia. Não morreu. Deixou-se morrer.

 

 

Floriano Martins (Fortaleza, 1957) é poeta, editor, ensaísta e tradutor. order lasix online for cheap

Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura, revista de circulação pela Internet. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Coordena a coleção “O Começo da Busca” das Edições Nephelibata (Santa Catarina). Esteve presente em festivais de poesia em Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Portugal e Venezuela. Trabalha ainda com fotografia, colagem e  Cheap design, tendo realizado exposições e capas de livros. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008). Membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009). Professor convidado da Universidade de Cincinnati (Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Alfonso Peña, Juan Calzadilla, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini, Enrique Molina e Pablo Antonio Cuadra.}} else {

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