CríticaÓperaRio de Janeiro

Acordes de lascívia e desespero

A ópera Anjo Negro, de João Guilherme Ripper, com direção de André Heller-Lopes, tem estreia eletrizante no Rio de Janeiro.

 

As paredes do Parque Lage, palacete construído nos anos 1920 no Rio de Janeiro para o contralto Gabriella Besanzoni por seu marido Henrique Lage, acostumadas aos refinamentos do canto lírico, há tempos não acolhiam bemóis e sustenidos emitidos por vozes humanas. Na noite do dia 20 de outubro, o casarão foi cenário perfeito para a estreia carioca da ópera Anjo Negro, com música e libreto de João Guilherme Ripper, a partir da peça homônima de Nelson Rodrigues, cujo centenário de nascimento comemora-se em 2012.

Escrita em 1946, a peça de Nelson alcança uma grandiosidade trágica ao retratar o drama de Ismael, negro que não aceita sua raça, marido de Virgínia, mulher branca cujos filhos negros recém-nascidos sucessivamente morrem. Estupro, incesto, traição e volúpia em uma obra de tonalidades gregas transformam-se em matéria-prima essencial para um drama musical lírico. A tragédia rodrigueana, entretanto, está sempre a um passo do dramalhão piegas quando em mãos que não entendem sua dimensão trágica e cotidiana.

Quase uma década após sua estreia nacional, ocorrida em 2003, em São Paulo, a ópera de Ripper ganha nova versão, na qual o compositor enxuga sua duração e troca um grupo de instrumentos de câmara por uma orquestra – neste caso, a OSBrasileira Ópera & Repertório, sob a regência de Abel Rocha. “Reescrevi boa parte da ópera. Nove anos após a estreia, minha linguagem musical e a compreensão do texto da peça mudaram”, explica Ripper.

As mudanças foram acertadas. O libreto flui, conciso e preciso, respeitando as intenções do primeiro autor. Palavras e música imprimem ao espetáculo um desespero atávico e de proporções míticas. As emoções intensas dão também o tom da direção cênica de André Heller-Lopes, que elegante e inteligentemente explora a área em torno da piscina do Parque Lage, desenrolando ali o cerne da ação trágica. Colaboram ainda sobremaneira a iluminação de Fábio Retti e os (belos e expressivos) figurinos de Marcelo Marques.

As paredes de pedra, iluminadas ainda pela luz da lua, não escondiam as obsessões dos personagens, mas, antes, eram cenário que se aliava com total aderência a toda a concepção artística e musical, bem como ao excelente desempenho do time de cantores. Intérprete de voz expressiva, David Marcondes tem physique-du-rôle perfeito para o monumental Ismael, trágico como um Otelo de subúrbio. Ao seu lado, a talentosa Luísa Francesconi alcançou, em diversos momentos, a angústia doentia de Virgínia. Marcos Paulo criou um cego Elias de doçura e fragilidade, enquanto (no dia 20) Michele Menezes fez de sua Ana Maria uma jovem Electra perdida na escuridão. Merece ainda destaque pela imponente presença cênica a Tia interpretada por Ruth Staerke, acompanhada, como uma revoada de corvos, pelas filhas Flavia Fernandes, Maíra Lautert e Carolina Faria (que timbre!). Completaram o elenco Fabrizio Claussen, Murilo Neves e Frederico de Oliveira (este com trabalho corporal digno de nota).

A direção cênica bem elaborada, a regência precisa e o desempenho intenso da orquestra, a interpretação inspirada dos cantores, os figurinos primorosos, a expressiva luz – aliados à lua no alto, ao cenário perfeito, aos reflexos bruxuleantes da água da piscina – foram os ingredientes que coroaram à perfeição a requintada ópera de Ripper. São inesquecíveis momentos como o coro da maldição de Virgínia; a cena em que a protagonista alterna frivolidade e languidez para seduzir o cunhado cego; o terceiro ato, de grande variedade rítmica e beleza melódica, que culmina em um surpreendente e eletrizante final. Apesar de toda a tragédia da trama, resta, ao fim, a alegria de tantos talentos reunidos e levando aos palcos uma bela obra, originada do nosso mais importante dramaturgo. Que venham as outras dezesseis.

 

11 Comments

  1. Obrigado, caro Jacinto, pela visita, pelo comentário e pelo elogio (que vale tanto vindo de um poeta como você).

  2. Caro Anônimo, sou obrigado a discordar de sua afirmação. Não sou a última palavra, mas diz a regra: Sobrepõe-se o acento agudo ao “a”, “e” e “o” abertos e ao “i” e “u” da penúltima sílaba dos vocábulos paroxítonos que acabam em “l”, “n”, “r” e “x”; e o acento circunflexo ao “e” e “o” fechados e ao “a”, “e” e “o” seguidos de “m” ou “n”, em situação idêntica: açúcar, afável, alúmens, córtex, éter, hífen, aljôbar, âmbar, cânon, êxul, fênix, vôpmer, Nélson, etc…

    Em outro parágrafo: os nomes próprios personativos, locativos e de qualquer natureza, sendo portugueses ou aportuguesados, estão sujeitos às mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns.

    O que se diz muitas vezes é que o escrivão escreveu sem acento e, por isso, a pessoa ssina sem acento. Isso é uma coisa. Entretanto, eu não estou assinando, mas sim escrevendo um nome próprio Nélson, que tem acento, por se enquadrar na regra acima. Que eu saiba, esta regra não foi modificada.

    SAe eu estiver errado, agradseço esclarecimento de quem puder dá-lo.

  3. Primorosa a obra e o seu relato, Fabi, viajei com você. obs: adorei também o comentário sobre a necessidade do acento no nome, perfeito! beijos

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com