Crítica

À sombra do gigante

Concerto em homenagem a Richard Wagner apresenta filme e música sobre a lenda dos Nibelungos.


PRELÚDIO – Alemanha, 1924

Havia apenas alguns anos – quatro, para ser exato – que o ator e compositor Gottfried Huppertz mudara-se de sua Colônia natal para a efervescente Berlim. A vida parecia navegar tranquilamente: as atuações no Nollendorfplatz Theater eram reconhecidas e até as gravações promocionais, como cantor, da opereta Verliebte Leute faziam sucesso. Duas mulheres importantes haviam entrado em sua vida recentemente: sua futura esposa, Charlotte Lindig, e a mulher de seu amigo de infância Rudolf Klein-Rogge, Thea von Harbou, que começava um affair com o cineasta Fritz Lang e ao lado de quem frequentava a esfuziante noite cultural berlinense.

Lang já era um realizador célebre e considerado um dos maiores expoentes do movimento conhecido como Expressionismo Alemão. Sob sua direção, Huppertz havia participado, como ator, do filme Dr. Mabuse, o Jogador (Dr. Mabuse, der Spieler, 1922). Agora, aos 37 anos, Huppertz recebia de Lang outro convite: compor a trilha sonora do filme Os Nibelungos – A Morte de Siegfried (Die Nibelungen: Siegfried).

Huppertz hesitou. Os poemas do século 12 intitulados A Canção dos Nibelungos (Die Nibelungenlied), que dariam origem aos dois filmes de Lang (o seguinte seria A Vingança de Kriemhild), já haviam inspirado um gigante da música a compor uma obra monumental: O Anel dos Nibelungos (Der Ring des Nibelungen), uma tetralogia de óperas grandiosas escritas pelo compositor alemão Richard Wagner.

Durante mais de um quarto de século, Wagner escreveu o libreto e a música das quatro óperas do ciclo: O Ouro do Reno (Das Rheingold), A Valquíria (Die Walküre), Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses (Götterdämmerung). A estreia do ciclo ocorreu em Bayreuth, em 13 de agosto de 1876, na inauguração do teatro construído pelo compositor para essas suas mais de 15 horas de música.

Abolindo de vez os recitativos, as composições passaram a ser chamadas pelo seu autor de dramas musicais, e continham os geniais leitmotive (leitmotiv, no singular), temas musicais atrelados a uma cena, emoção ou personagem, que se desenrolavam e se repetiam acompanhando a narrativa. O Anel dos Nibelungos de Wagner é simplesmente um marco na história da música ocidental. Considerada por tantos a “obra de arte total”, unia drama, música, teatro e poesia, criou um estilo único de escrita e interpretação operísticas. Daí o grande dilema de Huppertz: como brilhar à sombra de uma obra de proporções olímpicas?

Consta que o ator/compositor só aceitou depois de notar as diferenças de abordagem entre a proposta do filme e a ópera wagneriana, e que escreveu a partitura com o roteiro na mão, acabando-a a tempo para a estreia – o que não aconteceu com Lang, que editou seu filme até o último minuto. A composição era repleta de ufanismo e grandiosidade – bem de acordo com a proposta do diretor Lang e da roteirista Thea von Harbou, que dedicaram a película ao povo e à nação germânicos.

O objetivo era levantar o moral dos alemães depois da derrota na Segunda Guerra e restituir sua dignidade e seu orgulho. Entretanto, o trio Lang-Thea-Huppertz chegaria ao ápice três anos depois, em 1927, quando deixaria para a posteridade a obra-prima Metropolis. O sucesso foi tanto que o próprio Adolf Hitler convidou Lang e Thea (já casados à época), por intermédio do ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, para produzir filmes para o Partido Nazista. A proposta cindiu o casal: Thea aceitou e Lang fugiu para Paris, onde chegou a produzir filmes antinazistas, e, em 1934, para os EUA, onde veio a morrer, em 1976.


EPÍLOGO – Rio de Janeiro, 2013

No ano em que se comemora o bicentenário do nascimento de Richard Wagner, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e sua Orquestra Sinfônica programam um espetáculo singular em homenagem ao grande compositor alemão: a projeção da primeira parte de Os Nibelungos (A Morte de Siegfried), de Fritz Lang, com execução, ao vivo, de sua trilha sonora, composta por Gottfried Huppertz e adaptada por Frank Strobel. A primeira récita ocorreu em 27 de março, com apresentações também nos dias 28 e 30. O concerto inaugurou a edição 2013 da série Música e Imagem, existente desde 2008, na qual filmes clássicos são apresentados com performance ao vivo de suas músicas originais.

Sob regência do maestro Sílvio Viegas, a Orquestra Sinfônica do TMRJ trouxe à vida a partitura grandiosa de Huppertz. Mesmo sem chegar aos pés da colossal criação do homenageado da noite, a música do filme faz mais que meramente acompanhar a genial película de Lang, alcançando alguns momentos brilhantes – ainda que se mantenha aquém de outros elementos fílmicos, como a direção de arte e a fotografia impecáveis.

Dividido em sete cantos, com duração média de 15 minutos (uma ótima solução para as trocas de rolos), o filme apresenta um refinado apuro visual, com sofisticado senso plástico que se reflete nos cenários, figurinos e enquadramentos geométricos. Os efeitos visuais, ainda que toscos diante da tecnologia existente hoje em dia, encantam – vide as fusões na caverna dos Nibelungos e o impressionante boneco do dragão. (É preciso, afinal, levar em conta que foram feitos há quase 90 anos).

Heroica, a Orquestra trabalha com brio durante as quase três horas de projeção, mantendo o brilho de ótimos momentos, como a romântica melodia na cena no Palácio do Rei Gunther (Canto 2); nas intervenções onomatopaicas, como sons de sinos, pássaros e trombetas; e, principalmente, dando o devido destaque ao leitmotiv da lealdade de Siegfried e Gunther, expresso nas cordas.

Ainda que a composição deixe claras – ou ao menos nos faça pensar – as abissais diferenças entre um compositor como Huppertz e um gênio gigantesco como Wagner e sua tetralogia, ela tem bons momentos e funciona perfeitamente a contento para realçar as qualidades do filme de outro grande artista (Lang). E mais: nos revela a competência dos músicos da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do RJ best price cialis 5 mg 315 e seu maestro, Sílvio Viegas.