EntrevistaLateral

A saudade me trouxe pelo braço

Voltei, Recife: OSB volta à capital pernambucana após uma década e se apresenta com Lenine. Leia entrevista do maestro Leandro Carvalho (na foto).

A Orquestra Sinfônica Brasileira abre espaço com carinho entre seus músicos para receber um renomado artista popular. O grupo, regido pelo maestro convidado Leandro Carvalho, e o músico Lenine apresentam-se no dia 20 de outubro, às 17h30, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, em Recife. O evento, gratuito, comemora os 60 anos do grupo Queiroz Galvão, patrocinador da orquestra.

O concerto marca ainda a volta da OSB a Recife, quase dez anos depois de sua última apresentação na cidade. O repertório mescla erudito e popular. Sozinha, a OSB interpreta a abertura de Russian and Ludmilla, de Mikhail Glinka; segue Lamento e Dança Brasileira, do compositor, arranjador, pianista e regente recifense Clóvis Pereira; e finaliza com a suíte O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsky.

Depois sobe ao palco o cantor, compositor, produtor musical e arranjador pernambucano Lenine, que completou 30 anos de carreira em 2013. Ao lado da orquestra, apresentará várias de suas canções, como A gandaia das ondas/Pedra e areia, De onde vem a canção, O último pôr do sol, Chão, Jack Soul Brasileiro e Se não for amor eu cegue. Para o bis, orquestra e cantor prometem levantar poeira com um medley de frevo, contendo as tradicionais Vassourinha, Último dia e Duda no frevo, entre outras.

A apresentação será conduzida por Leandro Carvalho, um dos fundadores da Orquestra do Estado de Mato Grosso e seu atual diretor artístico e regente principal, além de maestro assistente da OSB. O músico tem uma ligação muito forte com o Recife, já que fez sua tese de mestrado (intitulado “…e o estrepitoso zabumba põe tudo em alvoroço”) no Departamento de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal de Pernambuco, orientado pelo escritor Ariano Suassuna.

 

Cinco perguntas para Leandro Carvalho

Movimento.com – Pode-se dizer que a música clássica vem, cada vez mais, ultrapassando as suas fronteiras, e um concerto da OSB com o cantor e compositor Lenine pode ser considerado um exemplo disso. Você é adepto do cada qual no seu quadrado – isto é, orquestras devem manter foco em música erudita – ou acha válido botar bebop no samba, como diria Jackson do Pandeiro, misturando clássico e popular?

Leandro Carvalho – Sem dúvida! Para mim, essas fronteiras não são tão definidas quanto parece. Uma orquestra, sinfônica, de câmara, de sopros, de cordas dedilhadas, é ‘apenas’ um instrumento, um canal para transmitir ideias, visões e sentimentos. Ela pode (e deve) fazer música de várias origens e vertentes. A capacidade de uma orquestra como a OSB é tão grande, e sua possibilidade de atingir e emocionar públicos diversos, que seria um desperdício não navegar por esses mares e promover a cultura brasileira nas suas mais diversas formas de expressão.


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Stravinsky e Lenine combinam? Conte-nos um pouco sobre esse concerto da OSB: como foram a produção dos arranjos das canções de Lenine e os ensaios, e quais são as suas expectativas para o recital.

Leandro Carvalho – A música de Lenine é extremamente rica. Ela tem uma qualidade rara que é a capacidade de comunicação imediata, por um lado, e profundidade (poética e musical), por outro. Quanto mais se escuta, mais se descobre.

Quando excelentes arranjadores, como é o caso de Ruriá Duprat, Rodrigo Morte e Tiago Costa, que escreveram para o espetáculo que apresentaremos, se deparam com esse conteúdo, as possibilidades buy bupropion online without rx são infinitas. Eles sabem utilizar as potencialidades da orquestra e trabalham com as cores e as texturas certas de cada naipe, e conseguem fazer a orquestra ‘suingar’ como pede a ocasião.

Nesse sentido, há uma aproximação da música de Lenine com a ‘música de concerto’, especialmente na suíte O Pássaro de Fogo, que escolhemos para a primeira parte da apresentação. Stravinsky utilizou temas populares russos na obra, orquestrando-os e dando-lhes o colorido e sentido que desejava para contar uma estória. É exatamente isso que Lenine faz na sua música, mas, desta vez, com as potencialidades e a força de uma orquestra sinfônica de primeira grandeza.


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O trabalho árduo e regular das Filarmônicas de Minas Gerais e do Espírito Santo, regidas pelos maestros Fábio Mechetti e Hélder Trefzger, respectivamente, e da Orquestra do Estado de Mato Grosso, fundada e dirigida por você, vem colocando esses grupos orquestrais na boca de cena, ao lado de grandes conjuntos do país, como as Orquestras Sinfônica Brasileira e a Sinfônica do Estado de São Paulo. O que de bom essa novidade pode trazer para o cenário de música clássica do Brasil?

Leandro Carvalho – O cenário da música clássica vem mudando muito, para melhor, nos últimos anos. Tivemos um divisor de águas importante no passado recente que foi a reestruturação da Sinfônica de São Paulo. A partir desse bom exemplo, outros estados buscaram estruturar-se e oferecer para suas comunidades uma programação que pudesse enriquecer o cotidiano simbólico de sua gente e promover o desenvolvimento humano. Afinal, orquestras, quando sérias e bem geridas, são ‘vetores’ de desenvolvimento que efetivamente transformam uma sociedade.


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Ações que levam as orquestras para fora das salas de concerto e vencem fronteiras físicas não são exatamente uma novidade – haja vista os mais de 40 anos do primeiro concerto do Projeto Aquarius (em 30/4/1972, a OSB, regida por Isaac Karabtchevsky, apresentou-se no Aterro do Flamengo, no Rio, para um público estimado de 100 mil pessoas). Hoje, cada vez mais, em continuidade a esse movimento, as orquestras saem de suas cidades-sede e ganham as cidades do interior e outras capitais, como é o caso desse concerto, no qual a OSB irá apresentar-se no Recife. Ainda é preciso fazer muito para popularizar e democratizar a música clássica ou já estamos quase lá?

Leandro Carvalho – Estamos apenas no começo. É preciso haver continuidade para haver uma transformação efetiva. É preciso que essas iniciativas se tornem políticas públicas de longo prazo. Estamos falando de ‘educação’, antes de tudo. As orquestras fazem, com muita luta, aquilo que está ao seu alcance, mas o alcance das instituições públicas, municípios, estados e Federação, é, evidentemente, muito maior. Ainda há muito que se fazer e a hora é agora. As pessoas querem oportunidades.


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Você é um maestro ainda jovem, chegando à casa dos 40 anos. O que o fará pensar – se é que ainda não pensa – que alcançou o sucesso no mundo da música clássica?

Leandro Carvalho – Longe disso! Sou privilegiado por trabalhar com o que amo. Sempre persisti e tratei o meu ofício como músico com muito respeito e dedicação. A partir disso, as coisas aconteceram e a vida me trouxe oportunidades lindas, como este trabalho junto a OSB e Lenine. Mesmo com muita estrada ‘nas costas’, sinto que ainda estou no começo de uma longa caminhada.

 

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com