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A Rádio MEC fora do ar

Informativo das sociedades de amigos e ouvintes da Rádio MEC.

Nota da redação: Estamos apenas dando início e levantando este assunto, na certeza de que outras pessoas envolvidas darão seu testemunho e trarão novas perspectivas ao assunto. Aguardamos…

 

“Mas as coisas findas …”
Escolhemos o verso de Carlos Drummond de Andrade, que trabalhou na Rádio MEC, para a manchete deste número, que mostra como a emissora acabou tornando-
se uma ilusão auditiva. Na foto grande, a entrada do corredor dos grandes estúdios, no 4º andar, no trecho que dá acesso ao maior estúdio do país. Era o espaço mais nobre da casa – ou mais “de elite”, como diriam outros.

Nos vidros das portas de vai-vem, à esquerda, é possivel ler “ PRA-2” (o 3º prefixo da emissora, depois de SQA-A e PRA-A). Por elas passaram, desde os anos 1940, toda a inteligência brasileira e todos os nossos grandes músicos, de Villa-Lobos a Cartola. No detalhe, a placa na porta do Estúdio Sinfônico (abaixo do back-light esquecido aceso),
homenageando Alceu Bocchino, maestro recentemente falecido.

De repente, não mais que de repente, no dia 21 de março de 2013, as pessoas que trabalhavam ou frequentavam a Rádio MEC foram surpreendidas por uma ordem judicial
interditando o lugar. Era uma sexta-feira e a rádio teria três dias para fazer a mudança. E foi assim, a toque-de-caixa, que as emissoras MEC saíram do prédio que ocupavam – a AM , há 71 anos; a FM, há 30 –, levando apenas a bagagem de mão. O valioso acervo, os grandes estúdios, quase tudo ficou para trás, como mostram as fotos deste número.

Ao que consta, o Ministério Público recebeu denúncia, fez uma vistoria e lavrou um rigoroso laudo, condenando radicalmente o prédio. O momento é grave, pois, além de estar fora do Ministério da Educação, desde 1998, a rádio agora ficou fora do lar. Ou seja, estão interditados, há mais de um semestre: o maior estúdio do país; os estúdios A e B; o Auditório; a Discoteca e suas cabines; todas as salas da AM e FM; as cabines de transmissão; os estúdios do 5º andar e, last but not least, a própria sala da direção. Tudo deserto. E o pior é que o elenco de profissionais da rádio também está sendo desertificado.

Além disso, brevemente, os números referenciais da AM e FM no dial – 800 Khz e 98,9 Mhz – também irão mudar, por ordem do Ministério da Comunicação. O que sobrará da velha rádio?

A SOARMEC também foi afetada: perdeu a sua sede e estaría na rua, não fosse a providencial acolhida por parte do Museu do Rádio. Este número contém fotografias chocantes que não devem ficar ao alcance de olhares muito sensíveis e atentos ao que se desenha. A possibilidade de a SOARMEC voltar para a Praça da República é tão difícil e remota quanto a volta da emissora para o Ministério da Educação, como aconselha o compositor Edino Krieger – veja a carta-aberta a seguir.

Carta-aberta à EBC
Edino Krieger

É legítima a preocupação da Empresa Brasil de Comunicação no sentido de utilizar os seus canais de rádio dentro de sua vocação natural, que é a informação, o jornalismo, voltado para a grande massa de ouvintes.

Minha sugestão é que a EBC devolva a Rádio MEC aos seus gestores originais, escolhidos por Roquette Pinto no ato jurídico perfeito de sua doação da Rádio Sociedade ao
Governo Federal. Ele não doou sua emissora ao DiP, que era a EBC da época, mas ao Ministério da Educação, com o compromisso de que a emissora fosse um veículo de difusão exclusiva da Educação e da Cultura.

No meu entendimento, houve uma apropriação indébita desta emissora por uma empresa de comunicação não comprometida exclusivamente com a difusão da educação e da cultura. Essa apropriação representa um desrespeito aos ideais de Roquette-Pinto. Devolva-se, portanto, a Rádio MEC ao Ministério da Educação ou ao Ministério da Cultura, ou a ambos, para que, em conjunto, restabeleçam a educação e a cultura como fundamentos da programação.

Quanto à EBC, sugiro que atue no sentido de estabelecer normas para a programação das emissoras FM, concessionárias do poder público, e que não têm qualquer compromisso com a cultura brasileira. 95% da programação musical das rádios FM em todo o Brasil são de música popular norte-americana, numa verdadeira lavagem cerebral auditiva de consequência nefasta, pois interfere na formação do gosto musical da população, e até na programação da própria Rádio MEC, que dedica 4 horas semanais, em horário nobre, ao “jazz” americano, e apenas uma hora à roda de choro e à música clássica brasileira.

Uma postura colonialista inadmissível numa emissora oficial brasileira. Em resumo, espero que a EBC não cometa o crime de lesa-cultura, privando os milhares de ouvintes,
de todas as idades, que apreciam a música clássica, de sua única opção de sintonia no Rio de Janeiro.

São os meus comentários e as minhas sugestões.

Edino Krieger

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Gazeta do Povo – Maringá

Extinção da Rádio MEC e Virada Cultural: a música clássica perde espaço
  
Enquanto vemos êxitos mundiais de nossos artistas dedicados à música clássica, como a recente tournée da OSESP na Europa e o reconhecimento internacional de alguns artistas brasileiros dedicados à música de concerto, como a vitória do jovem pianista brasileiro Cristian Budu no concurso Clara Haskil na Suíça, aqui no Brasil a música clássica, ou música erudita como alguns insistem em chamar, recebe um tratamento que se aproxima do desprezo e até mesmo da perseguição. Vou tomar dois exemplos recentes que demonstram este tipo de ação:
– a demissão de um grande profissional como Lauro Gomes Pinto. Algo a lamentar;
– a iminente extinção da Rádio MEC.

A Rádio MEC, sediada no Rio de Janeiro, que transmite na frequência de FM nesta cidade e na frequência de AM em Brasília, está a ponto de ser extinta. Dedicada integralmente actos 15 mg tablet price à musica clássica sua programação é admirável. Com a colaboração de diversas emissoras europeias, que traduzem especialmente para a emissora brasileira seus programas, em geral ótimos, para o português, a programação divulga além de muita música do repertório tradicional, diversas obras de compositores contemporâneos brasileiros, cujas composições não teriam espaço em emissoras comerciais.

Uma equipe de burocratas e políticos ligados ao partido que está no poder do governo federal chamam a emissora de “elitista”. Inúmeras demissões já foram feitas desde o início do ano, sendo que os cargos, ao que parece, serão ocupados por “simpatizantes”. Chegaram a fazer uma proposta indecente de que os funcionários de carreira se demitissem, perdendo todos os seus direito trabalhistas, para que uma distante possibilidade de recontratação acontecesse.

Na última sexta-feira, 25 de outubro, o apresentador Lauro Gomes Pinto, do importante programa “Sala de Concerto”, se despediu dos ouvintes, anunciando que havia sido demitido e que o programa seria cortado. Este programa oferecia uma rara oportunidade a jovens instrumentistas brasileiros se apresentarem, e os concertos eram transmitidos ao vivo pela emissora. Este tipo de oportunidade a jovens músicos foi sepultado pelos “camaradas” de Brasília. Além do grande profissional Lauro Gomes Pinto centenas de profissionais da emissora no Rio estão sendo demitidos, entre os quais jornalistas, produtores executivos, apresentadores, locutores, operadores de áudio e técnicos de manutenção.

O Rio de Janeiro que já está sendo massacrado do ponto de vista cultural pela administração do mais impopular governador do Brasil, Sérgio Cabral, que está sucateando os corpos estáveis do Theatro Municipal do Rio (orquestra, coro e ballet), agora recebe mais um golpe vindo desta vez do governo federal. Acredito, de vez em quando, que a saída para os artistas que se dedicam à música clássica seja mesmo…o aeroporto. 

 

 

1 Comment

  1. Caros amigos, a Rádio MEC não vai acabar. Ela está funcionando muito precariamente devido às demissões e a programação, é claro, deixa muito a desejar. O grande problema é a conservação do nosso bem maior: o precioso acervo da rádio.
    Estou muito bem e o mais importante, com a consciência tranquila. Disse tudo o que tinha a dizer e vamos em frente.
    Abraços.
    Lauro Gomes.

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