Artigo

A moda de julgamento de interpretações musicais por gravações

Tenho repetido aqui neste e em outros sites, blogs, jornais e outras publicações que não se deve julgar edições e interpretações musicais por gravações de nenhuma espécie.

Inisto em que a verdadeira experiência musical e as verídicas fruição e captação da música só podem ocorrer com audição ao vivo, na sala de concertos ou em qualquer outro lugar apropriado.

Virou uma nefasta moda serem publicadas críticas de CDs, DVDs, vídeo-tapes, áudio-cassettes, cópias particulares, edições piratas e tudo mais, como se o que se ouve nos aparelhos fosse a música na sua plenitude e principalmente como se aquilo fosse a verdade musical.

Não é possível negar o valor e a importância das gravações na história de música, mas gravação é uma foto da música, muitas vezes retocada. Vamos a um exemplo que dará a todos os menos experientes neste tema uma visão mais nítida do assunto.

O célebre pianista Glenn Gould, perfeccionista como ele só, fazia suas gravações com muitos microfones móveis, alguns deles pendentes de um longo fio esticado a um ou dois metros acima do piano. Quando Gould queria dar realce à mão esquerda, o microfone acima do lado esquerdo do piano descia meio metro ou mais. Na gravação, o resultado era um maior volume nos graves da mão esquerda. E assim por diante.

Exemplos conhecidos são as intervenções do regente Herbert Von Karajan nos estúdios de edição de suas  gravações. Se ele Karajan achasse que uma intervenção solo de uma clarineta não estava boa, gravava-se o trecho outra vez  ou outras vezes, e o técnico do laboratório fonográfico inseria a gravação escolhida exata e imperceptivelmente no local devido. Karajan era conhecido como um grande técnico nos estúdios de edição das gravações. Em óperas por ele regidas para a DGG e outros selos, a substituição de trechos, principalmente os cantados, ou a simples substituição de uma nota, eram coisa de rotina.

Nas gravações de concertos para violino e orquestra ocorre geralmente que, sendo o violino um instrumento  de som não tão volumoso quanto um trombone, são colocados microfones e kamagra or malegra aparelhos de amplificação próximos ao violino. É por isso que muitas vezes um ouvinte escuta em casa uma gravação de um concerto para violino e orquestra, ouve tudo, inclusive o violino, nos “tutti” e nos confrontos, e depois fica decepcionado na sala de concertos porque ao vivo não ouve o violino como nas gravações.

Este que escreve já teve oportunidade de ver uma ópera no Metropolitan de NYC na qual o barítono tinha voz pequena. Pois bem, poucos anos depois viu em vídeo uma gravação da mesma récita que assistira, e o mesmo barítono estava com uma voz enorme. Microfones, meu caro leitor. Laboratórios fonográficos. Isso existe desde os tempos em que os editores de gravações em 78 rpm mandavam modificar a rotação nas transposições do original para as cópias para tornar certas vozes mais agudas…

Outra vista e ouvida por mim: em 1994 o tenor Placido Domingo cantou IL Guarany, em Bonn. No final do primeiro ato, há uma nota superaguda opcional para o tenor, naturalmente evitada por Domingo, tenor reconhecidamente “curto” (de voz não muito extensa). Pois na gravação lá está a nota superaguda, fantasmagoricamente surgida em espantoso milagre. Laboratórios, meus amigos, edições, monitoramentos…

Conta-se que o célebre pianista polaco/americano Josef Hofmann, por ter as mãos pequenas, fazia suas gravações em um piano especial de teclas mais estreitas, feito sob medida para ele … Que valor terão essas gravações?

Assim, o remédio, já que não vamos deixar de ouvir músicas mecanicamente reproduzidas, é distinguir a verdadeira música, que só existe ao vivo, da música em gravações de qualquer tipo, situando-as em campos diferentes. Que ninguém mais diga “ontem ouvi a Eroica com o Karajan” quando essa audição tenha ocorrido na TV da sala de jantar, mas que se diga “ontem ouvi uma gravação da Eroica etc…”.

Certos leitores (se houver…) dirão que este artigo é preciosista, que é antiquado, que é fora da real. E é mesmo. Gosto mais da Immacolata de Murillo voando com os níveos pés em cima do crescente que das diatribes e facécias de Dali…

MARCUS GÓES – JAN 2013

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3 Comments

  1. UM CONHECIDO, AO LER ESTE MEU ARTIGO, DISSE POMPOSAMENTE “ENTÃO VAMOS JOGAR FORA OS DISCOS DA CALLAS”. TAL INFELIZ DITO MOSTRA QUE ESSA PESSOA NÃO ENTENDEU NADA DO QUE FOI DITO. NO TEXTO, O AUTOR PRESTIGIA AS GRAVAÇÕES, ACHA-AS ÚTEIS À MÚSICA E ALEGA SÓ QUE NÃO SE DEVE JULGAR UMA INTERPRETAÇÃO POR UMA GRAVAÇÃO COMO SE A GRAVAÇÃO FOSSE ALGO SOMENTE MUSICAL, QUANDO ELA É COISA MECÂNICA, NO MÍNIMO COM MICROFONES QUE ALTERAM TUDO, COM INTERVENÇÃO DE TÉCNICOS DE LABORATÓRIO, ETC. . UFA!!!! ETA QI BAIXO !!! MARCUS GÓES.

  2. Assino em baixo as palavras do Marcus Góes. Só se pode julgar verdadeiramente, espetáculos ao vivo. Toda gravação é manipulada, corrigida, amplificada, etc, etc. A minha maior decepção foi ouvir Pavarotti ao vivo, levei um susto. Também há muitas boas surpresas como ouvir um Jon Vickers, por exemplo. Como bem disse o mestre acima, a gravação é um photoshop do artista.

  3. Caro Marcus Goés, meu nome é Sérgio Roberto de Oliveira. Sou compositor (indicado ao Grammy Latino 2011, na categoria “Melhor obra clássica contemporânea”) e produtor (indicado ao Grammy Latino 2012, na categoria “Melhor Álbum de Música Clássica”). Todos os exemplos que você dá são reais. Apenas entendo como equivocada a sua visão do que seja “verdadeira experiência musical”. Acho que a sala de concerto traz uma experiência incrível e que me apaixona (embora, muitas vezes, como compositor, confesso que também decepcione. Justamente por conta dos defeitos em interpretações que simplesmente distorcem a intenção musical do compositor, prejudicando justamente uma experiência musical verídica, do ponto de vista do texto musical).
    Mas também acho que a gravação é uma experiência musical verdadeira. Apenas de outra ordem. Seria o mesmo que afirmar que a experiência cênica só se dá no teatro, desqualificando o cinema. Acho que as duas experiências têm seu lugar. Se, por um lado, o inesperado do tempo real, sujeito a eventuais defeitos, tenha seu charme e obrigue o instrumentista a praticar ao extremo para manter a excelência, a busca incessante da perfeição no estúdio é tão legítima quanto. É ali que o mesmo intérprete – e o produtor musical – procuram passar da forma mais clara e perfeita sua intenção artística, sua visão da obra do compositor. Tendo a possibilidade de corrigir defeitos, que muitas vezes surgem como ruídos nessa comunicação compositor-intérprete-ouvinte.
    Respeito sua posição. Mas acho que a música se manifesta onde há artistas criando e se comunicando. Seja ao vivo, em tempo real, ou repetindo e editando, nas gravações. Ambas formas têm seus artifícios (microfones, máquinas de edição, acústica das salas, instrumentos melhores – ou há mais música num violino com cordas de tripa?). O que importa, ao meu ver, é o resultado musical. É a arte.
    Abraço cordial e respeitoso,
    Sergio Roberto de Oliveira

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.