Crítica

“A menina das nuvens" estreou com relativo sucesso

O Teatro Municipal de São Paulo, após a reforma,  iniciou ontem 07 de Agosto seus espetáculos líricos.

A aventura musical “A menina das nuvens”, de Villa-Lobos com libreto de Lucia Benedetti, em produção de 2009 do Palácio das Artes – Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, subiu à cena sob a direção musical de Roberto Duarte que realizou uma revisão na partitura, inclusive uma abertura musical contendo os temas principais que julgou conveniente alinhavar  e ajustou certas passagens omitidas na ópera.  Suas qualidades de arranjador foram colocadas a serviço de Villa, a fim de organizar o trabalho  do mestre que faleceu antes da estreia, ocorrida em 29/11 e 04/12/1960 (em récita matinal) no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob a batuta do inesquecível Mtrº Edoardo de Guarnieri e direção cênica de Gianni Ratto.

Justamente por já transcorrerem 51 anos de sua “première”, difícil encontrar as pessoas presentes naquela data. Portanto, não há referencial de um espetáculo, inédito ainda em São Paulo, como nas demais cidades brasileiras; fato este que favorece sobremaneira a  produção e a realização da obra.

Orquestrador exemplar, Villa-Lobos diversificou nesta obra,  tal como em “Yerma”, toda a gama instrumental adequada aos temas (variada percussão com tímpanos, gongo, pandeiros, bombo, caixa-rasa, celesta, triângulos, chapa metálica, piano,  xilofones, além de harpa e quinteto usual de cordas; todavia condensou  os sopros de madeira e de metal,  praticamente a  instrumentos solistas, desdobrando os pares  ou trios de rotina desses naipes.

A harmonização desta partitura é bastante espessa e a densidade orquestral chega, às vezes, a encobrir as vozes solistas. Regeu a Sinfônica Municipal, Roberto Duarte, merecedor aqui de aplausos pelo seu trabalho de resgate da obra de Villa. Ao Mtrº Abel Rocha,  agora diretor do Municipal, sugerimos a produção em 2012 das óperas daquele que é o maior compositor lírico das Américas: o paulista Carlos GOMES, esquecido e vilipendiado pelos próprios brasileiros.

chloroquine
Curioso notar que apesar de GOMES ser o patrono de honra de nosso Theatro Municipal, do qual há um lindo brasão dourado encimando o fosso de orquestra, recém-polido e restaurado, nenhuma ópera de sua autoria foi ou está programada no ano do centenário do teatro da capital de seu estado natal.  Há sim, homenagens a Wagner,  Ravel e Johann Strauss.

Rosa  Magalhães, artista plástica de elogiável currículo, apresentou um trabalho de apreciável criatividade e pesquisa, oferecendo ao espetáculo, enriquecido pela iluminação de Pedro Pederneiras, momentos de enlevo,  luz e poesia, justificados pela premiação de ambos por esta montagem cênica.

Tíndaro Silvano deu plasticidade à sequência cênica, que por momentos  caí  em monotonia, com passagens  coreográfica bem fundamentadas, difundidas pela brilhante bailarina Maíra Campos (solista do Corpo de Baile) que colaborou para o visual e o equilíbrio ativo.

Gabriella Pace, a menina das nuvens, demonstra atualmente bom volume  de voz, exceto algumas notas estridentes na região de agudos; sente-se bastante à vontade e segura em seu papel.  O barítono Homero Velho (Vento Variável) destacou-se por belo timbre vocal conduzido em boa escola e pela desenvoltura cênica-musical. Inácio de Nonno faz um  razoável Corisco e Adriana Clis uma sonora e muito musical Lua.

Lício Bruno, baixo-barítono (O Tempo) revela-se com uma dicção e interpretação cênica de bom nível, o mesmo podendo-se assinalar de Flávio Leite (Soldado) e do contralto Sílvia Tessuto (Mãe); expressivos e musicais.  Lindo o timbre  do tenor Giovanni Tristacci (Príncipe).  O vício de modificar o timbre vocal em função da cena, se torna muito desagradável e desproporcional. Foi o que se ouviu nas vozes de Regina Elena Mesquita  e Fabíola Protzner (Anita) , cujas performances  oscilaram no canto e na cena, por vezes exaltados.

document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

2 Comments

  1. Pessoas que se intitulam críticos, deveriam ter um ouvido mais educado, mais preparado para ouvir partituras que fogem do tão óbvio repertório lírico. Nem só de Verdis e Puccinis é feita a cena operística. A música de A Menina das Nuvens de Villa-Lobos é brilhante, inteligente, lírica, terna. Só um ouvido viciado em tonalidades maiores e orquestras tocando as melodias que são repetidas pelos cantores pode não perceber a genialidade de uma das últimas obras de Villa. Assisti ao espetáculo na estréia e fiquei profundamente tocado com a música e a cena. A orquestração comenta o caráter, o espírito das personagens e o canto segue por outro caminho. Genial! Nada fica a dever a Janacèk, que usa o mesmo procedimento e ninguém questiona sua genialidade. Modificar o timbre é um recurso teatral, no caso da Rainha má, o estranho seria se ela cantasse com voz de Branca de Neve… Ópera é a junção de música e teatro… Alguém que se propõe a criticar, deveria conhecer essa obviedade. Parabéns ao Theatro Municipal por abrir sua temporada com essa joia esquecida do patrimônio musical brasileiro.

  2. O estranho meu Sr. é ter que aguentar essas cantoras a fazerem um parlato a ópera inteira, coisa que nenhum teatro do mundo que se preze, aceitaria. O que é pior, quando empostam a voz, ouve-se um som medonho, desigual e muito desagradável! Justamente por eu ter um ouvido educado, é que não aguento ouvir esse ruído.

Comments are closed.

Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.