EntrevistaLateralÓpera

A garota da saia na cabeA�a

Livia Sabag, uma das mais talentosas encenadoras de A?pera do paA�s, conversou com o Movimento.com.

 

Ela A� paulistana, formada em artes cA?nicas pela Universidade de SA?o Paulo (USP), e atualmente estA? cursando um mestrado em encenaA�A?o de A?pera em Lisboa. Aos 35 anos, Livia Sabag da Silva Ramos acaba de estrear no Theatro Municipal do Rio de Janeiro uma remontagem de As Bodas de FA�garo a�� produA�A?o que ela originalmente concebera em 2014 para o Theatro SA?o Pedro, de SA?o Paulo (leia crA�tica da montagem no TMRJ).

Competente e meticulosa, a diretora conquistou o carinho do pA?blico e o respeito da crA�tica especializada, mas como serA? a Livia dos bastidores? Rodrigo Esteves, que repete no Rio o FA�garo que fizera no ano passado na capital paulista, sentencia, a respeito do trabalho da artista: “Trabalhar com a Livia A� uma experiA?ncia que todo cantor deveria viver. AlA�m do seu extremo profissionalismo, A� uma pessoa doce, gentil e carinhosa, que sabe tirar o melhor do artista, respeitando as diferenA�as que existem dentro de um elenco”.

JA? Marcos Menescal, tenor do Coro do Theatro Municipal que foi escalado como eventual substituto e por isso pA?de acompanhar os ensaios das Bodas como observador, nA?o poupa elogios A� diretora. Segundo ele, Livia A� “serena, calma, doce, respeitosa, simpA?tica. Ao mesmo tempo muito sA�ria, muito concentrada, muito profissional. Conhece perfeitamente a obra (isso pode parecer uma coisa A?bvia, mas jA? trabalhei com diretores que tinham no mA?ximo uma vaga ideia da obra que estavam dirigindo). A� capaz de criar um ambiente de ensaio muito positivo e descontraA�do, o que, certamente, beneficia a atuaA�A?o de cada cantor, dos coristas e dos atores, que assim conseguem se expressar com liberdade, com naturalidade, sem pressA?o. Devo dizer que se trata de uma artista com quem eu teria o maior prazer em trabalhar numa prA?xima oportunidade. Espero!”

NA?o A� sA?. Livia Sabag A� quase uma infiltrada no verdadeiro “Clube do Bolinha” da direA�A?o cA?nica das produA�A�es lA�ricas brasileiras. Os encenadores que trabalham constantemente com concepA�A?o e direA�A?o de espetA?culos de A?pera no paA�s sA?o, quase todos, homens, e as poucas mulheres brasileiras que se aventuraram no ofA�cio nos A?ltimos anos nA?o conseguiram se firmar. Exceto, claro, Livia, a garota que, aos 9 anos de idade, ao brincar de danA�ar com uma saia na cabeA�a na casa do tio famoso, Fabio Sabag, ouviu dele uma profecia: “Esta vai ser artista”.

Com o trabalho de preparaA�A?o das Bodas concluA�do, e o espetA?culo estreado, uma vez mais com sucesso de pA?blico e crA�tica, Livia, jA? de volta a Lisboa, conversou, por online e-mail motrin 400 mg , com o Movimento.com.

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Movimento.com a�� Livia, vocA? A� hoje uma das mais conceituadas encenadoras de A?pera do paA�s. Fale um pouco sobre sua relaA�A?o com a A?pera: como tudo comeA�ou? Qual foi a primeira A?pera que vocA? ouviu?

Livia Sabag a�� Minha relaA�A?o com a mA?sica, teatro e A?pera comeA�ou na infA?ncia, em casa, nos ensaios do meu pai, nos discos que meus pais escutavam, e nos concertos e espetA?culos que tive a sorte de frequentar desde pequena.

Lembro-me de ouvir muitas gravaA�A�es, ver cenas de A?pera em VHS, ouvir o Benito Maresca, que foi professor de canto do meu pai, comentando produA�A�es, maestros e cantores, mas a primeira vez que assisti a uma A?pera inteira foi, acredito, pela televisA?o em 1990. Eu tinha 10 anos e vi com minha irmA? uma produA�A?o de Order Aida. Eu jA? gostava muito de teatro e fiquei bastante impressionada com o que vi. Um pouco mais tarde, talvez um ano depois, fui assistir com meu pai a uma montagem do Trittico, de Puccini, no Theatro Municipal de SA?o Paulo. Lembro-me de ter ficado fascinada pela montagem de Suor Angelica.

 

Movimento.com a�� Seu pai, o maestro Marco Antonio da Silva Ramos, e seu tio-avA?, o ator e diretor Fabio Sabag (1931-2008), influenciaram de alguma forma na sua opA�A?o pela carreira artA�stica?

Livia Sabag a��A�Certamente. Escolher a carreira artA�stica sempre me pareceu mais natural do que outras carreiras. Sempre tive enorme admiraA�A?o pelo trabalho do meu pai e do meu tio, e acho que desde pequena fui estimulada por muitas pessoas da minha famA�lia a gostar de arte e a fazer arte. NA?o me lembro de um dia na casa da minha mA?e sem mA?sica, e acho que a maior parte do tempo que passei com meu pai na infA?ncia foi dentro de salas de ensaio. Lembro-me claramente de uma cena, no apartamento do meu tio Fabio, em Copacabana, em 1989. Ele estava se preparando para sair para o trabalho (naquela ocasiA?o estava dirigindo a novela Que Rei Sou Eu?, na Rede Globo), e eu estava danA�ando no corredor com uma saia na cabeA�a, fazendo uma peruca… Meu tio passou e disse: “Esta vai ser artista”. Devia ser sA? uma brincadeira, mas eu levei a sA�rio…

 

Movimento.com a��A�Como se desenvolve, geralmente, o seu processo de criaA�A?o, a partir do momento em que vocA? aceita um convite para dirigir determinado tA�tulo lA�rico?

Livia Sabag a��A�Geralmente inicio o meu processo lendo o libreto e dando uma primeira olhada na partitura. Depois procuro boas gravaA�A�es e anoto minhas primeiras sensaA�A�es e ideias. A partir daA� comeA�o a mergulhar profundamente no libreto e na mA?sica, iniciando uma etapa de estudo na qual procuro ler diversos artigos que reflitam sobre aspectos diversos da obra. Procuro conhecer as fontes que deram origem ao libreto, entender o contexto em que a obra foi criada, ler anA?lises musicais, e A� sempre nesse processo de investigaA�A?o que o processo criativo comeA�a a acontecer. As peA�as vA?o se encaixando e a cabeA�a comeA�a a voar. Vou me apropriando da mA?sica e do texto, e as ideias vA?o vindo… pouco a poucoa��

 

Movimento.com a��A�Seus trabalhos recentes foram todos sucessos absolutos de pA?blico e crA�tica. Isso aumenta a responsabilidade quando chega um novo convite? Como vocA? lida com essa recepA�A?o normalmente tA?o positiva ao seu trabalho?

Livia Sabag a��A�Acho que eu sempre me cobrei bastante, independentemente da crA�tica, entA?o nA?o tenho certeza de que alguma coisa tenha mudado na forma como eu lido com a recepA�A?o dos espetA?culos. Eu me entrego completamente para cada trabalho, entA?o A� sempre bom sentir que os espetA?culos emocionam, comunicam, enfim, tocam grande parte do pA?blico.

A Volta do Parafuso, Theatro SA?o Pedro, 2013
A Volta do Parafuso, Theatro SA?o Pedro, 2013

 

Movimento.com a�� http://mttaborsoap.com/?p=11525 A�Dentre as produA�A�es que dirigiu atA� hoje, vocA? destacaria uma ou duas como as suas prediletas?

Livia Sabag a�� A�Tenho vA?rias prediletas por motivos diferentes. Entre elas estA?o certamente The Turn of the Screw ( online A Volta do Parafuso, de Britten), uma das minhas A?peras preferidas e que tive a oportunidade dirigir em SA?o Paulo em 2013, no Theatro SA?o Pedro; SalomA�, que dirigi em 2014 no Theatro Municipal de SA?o Paulo ao lado do maestro John Neschling, por quem eu tenho enorme admiraA�A?o; e, no momento, estou apaixonada pela produA�A?o atual de As Bodas de FA�garo. A A?pera A� linda de morrer, a equipe artA�stica e o elenco sA?o excelentes e o ambiente de trabalho no Theatro Municipal do Rio de Janeiro A� muito agradA?vel.

SalomA�, Theatro Municipal de SA?o Paulo, 2014
SalomA�, Theatro Municipal de SA?o Paulo, 2014

 

Movimento.com a��A�Em entrevista recente ao online Movimento.com, o maestro John Neschling anunciou que a direA�A?o do Theatro Municipal de SA?o Paulo estA? tentando reverter o cancelamento de duas produA�A�es lA�ricas para 2016. Uma delas seria a A?pera Elektra, de Strauss, para a qual vocA? chegou a ser anunciada como a responsA?vel pela encenaA�A?o. O que vocA? pode adiantar sobre a sua encenaA�A?o de Elektra? A� uma A?pera que abre um leque de possibilidades, nA?o?

Livia Sabag a��A�Sim! A� uma obra riquA�ssima, com uma mA?sica impactante e um libreto que carrega em si muitas obras teatrais anteriores, como Electra, de SA?focles, a Oresteia, de A�squilo, Hamlet, de Shakespeare, entre outras. Estou num momento bastante crucial da criaA�A?o, no qual comeA�o a transformar as minhas sensaA�A�es e ideias em propostas materializadas. Ainda nA?o tenho como comentar detalhes sobre a encenaA�A?o.

Livia Sabag ensaiando L'Enfant et les SortilA?ges, Theatro Municipal de SP, 2011
Livia ensaiando L’Enfant et les SortilA?ges, Theatro Municipal de SP, 2011

 

Movimento.com a��A�Uma das caracterA�sticas marcantes do seu trabalho A� o respeito profundo que demonstra pela obra de arte com a qual estA? lidando. Nunca encontrei nas suas concepA�A�es aquilo que me acostumei a chamar de “invencionices vazias”, ou de “o diferente pelo diferente”. Quando um diretor comete equA�vocos desse tipo, A� por que nA?o prestou bem atenA�A?o A� obra, nA?o a compreendeu verdadeiramente?

Purchase Livia Sabag a��A�Essa A� uma questA?o delicada. Acredito, sim, que uma encenaA�A?o problemA?tica pode ser causada por uma falta de entendimento do que o texto narra. Como diz o recentemente falecido diretor francA?s Patrice ChA�reau, um dos meus encenadores preferidos, a questA?o nA?o A� ter ideias ou nA?o. A� fA?cil ter ideias. A questA?o A� saber como ideias concretas podem expressar os conteA?dos do texto (mA?sica e libreto).

 

Movimento.com Order a��A�Releituras cA?nicas, nA?o raro, dividem a opiniA?o do pA?blico. HA? quem defenda que elasA�sA?o necessA?rias para aproximar a A?pera das plateias de hoje. AtA� que ponto isso A� verdade, quando filmes, sA�ries e atA� novelas com roupagem “de A�poca” fazem sucesso com esse mesmo pA?blico?

Livia Sabag a��A�Acredito que toda encenaA�A?o A� uma releitura, considerando, como diz Umberto Eco, que todo texto A� aberto, por mais aparentemente fechado que ele seja. No processo de encenaA�A?o, estamos sempre elegendo determinados aspetos para perscrutar, revelar, desdobrar, em detrimento de outros. A interpretaA�A?o do encenador, do maestro, dos cantores se dA?, sobretudo, nesse processo de apropriaA�A?o e escolhas. As possibilidades de criaA�A?o sA?o diversas, no entanto a A?nica coisa que eu acredito ser fundamental A� a necessidade dos criadores se aprofundarem no texto para que tenham condiA�A�es de desenvolver uma interpretaA�A?o consistente, pois, embora todo texto seja aberto, nem toda interpretaA�A?o A� pertinente.

Sobre a questA?o do contexto temporal, muitas pessoas acreditam que situar uma encenaA�A?o no contexto histA?rico em que ela foi criada A� ser fiel ao original. Isso pode ser um grande engano. Uma produA�A?o pode alterar o contexto histA?rico para destacar outros elementos fundamentais em uma determinada obra. A� preciso entender que muitas vezes o que A� considerado fidelidade A� obra, ou A�s intenA�A�es de um autor, A� na verdade uma fidelidade A�s convenA�A�es de encenaA�A?o ou de realizaA�A?o musical que foram sendo sedimentadas no decorrer do tempo.

 

Movimento.com a��A�VocA? finalmente apresentou um trabalho seu no Rio de Janeiro (As Bodas de FA�garo, estreada originalmente em 2014 no Theatro SA?o Pedro, de SA?o Paulo). Faltava o Theatro Municipal do Rio no seu currA�culo? Como foi o processo de ensaios dessa remontagem?

Livia Sabag a�� A�Sem dA?vida faltava o Theatro Municipal do Rio de Janeiro no meu currA�culo. O processo de ensaios de As Bodas de FA�garo foi especial. Tive a sorte de contar com uma equipe artA�stica e dois elencos excelentes. E como jA? disse, um ambiente de trabalho muito agradA?vel.

 

Livia Sabag

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com