CríticaLateralMúsica de câmaraRio de Janeiro

A fada gris dos teclados

Ela veio sem muita conversa, sem muito explicar. Chegou silenciosa ao enorme palco, quase ressabiada, de sorriso discreto. É notório seu pouco afeto a concertos. Vestia um belo costume gris, anguloso, de algodão (como aprecia), que pareava com seus curtos cabelos cinzentos. Na quietude que dominava o Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 9 de outubro, a lisboeta Maria João Pires sentou-se ao piano, trazida pela Dell’Arte, e encantou.

Ela começou nos teclados bem menina – aos 5 anos deu seu primeiro recital solo; aos 7 anos, tocou concertos de Mozart em público e, aos 9 anos, recebeu o prêmio da Juventude Musical Portuguesa. Seu reconhecimento internacional veio logo depois dos 25 anos, quando venceu o concurso internacional do bicentenário de Beethoven, em 1970, em Bruxelas.

Ainda assim, evita recitais o quanto pode e vem se dedicado ao Centro de Belgais para o Estudo das Artes, que montou em Portugal. “O piano nunca foi o centro da minha vida, nem em criança. Foi-o para o exterior, na medida em que sempre me viram como pianista, mas para mim e para as pessoas mais próximas nunca o foi. Um satélite muito importante, sim, que tomou um grande espaço, demasiado grande a partir de certa altura”, contou ao jornal português Público.

Suas gravações de obras do alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) e do polonês Frédéric Chopin (1810-1849) são consideradas antológicas. Sobre este, ela disse: “É uma música muito íntima e muito profunda. Chopin é o poeta profundo da música. Mas ele também inventou essa coisa terrível chamada recitais de piano. Isso me fez sofrer toda a minha vida.”

Duas sonatas de Beethoven e seis noturnos de Chopin integraram o recital do Rio de Janeiro. A começar pela célebre Sonata nº 8 m dó menor, Op. 13 – Patética. Composta em 1798, tem esse nome por exalar pathos, sentimento. O primeiro movimento (Grave – Allegro di molto e con brio) é vigoroso e cheio de pausas dramáticas – nos quais Pires sempre enxerta alguma dose de doçura.

Mesmo compenetrada, a pianista deixou sua sisudez se substituída por um sorriso de Mona Lisa em rápidos momentos da obra. “Beethoven é fundamental para qualquer músico. E para qualquer pessoa. Foi um iluminado, um mensageiro que trouxe algo à humanidade, tocado por uma graça. Ele fala de tudo em suas obras, de disciplina, de desprendimento. O estudo de Beethoven substitui qualquer moral, qualquer religião. Não tenho necessidade de tocar Mozart, posso ficar anos sem ele. Mas não me afasto nunca de Beethoven.”, declarou ao jornal O Estado de São Paulo em 2010.

 

Para fechar a primeira parte do concerto, Maria João Pires apresentou seis Noturnos de Chopin, os Op. 9 ns. 1, 2 e 3 (escritos em 1830-32); os Op. 27 ns. 1 e 2 (1835); e o Op. 72, nº 1. As peças foram interpretadas com beleza estilística ímpar, sem arroubos, com enorme elegância de fraseado e grande lirismo (e sem pieguismos). No conjunto, formaram um bloco coeso e harmônico. Era quase impossível despregar olhos e ouvidos da pequena fada em cena, que salpicava sobre as notas suspiros, paixão, doçura, elegância e enlevo. A própria pianista pareceu suspirar, discretamente, em meio aos floreios românticos.

Na volta do breve intervalo, a última peça do programa: a Sonata nº 32 em dó menor, Op. 111, de Beethoven. Obra tardia, foi a derradeira composição para o piano do Gênio de Bönn. É uma sonata cheia de surpresas, arroubos e ousadias rítmicas e cromáticas. “[A Sonata Op. 111] passando quase despercebida aos contemporâneos, não foi senão mais tarde que [dela] se compreenderam as riquezas”, escreveu Jean Witold.

Aos 75 anos, Maria João Pires flutuou sobre o teclado, absorta em sua arte e senhora de sua técnica. Ainda bem que não se aposentou e, mesmo pouco frequentemente, sobe aos palcos para os detestados recitais. Talvez tanto a excelência de suas potencialidades como o enfado pelos rituais concertísticos sejam frutos da longa estrada de sete décadas debruçada nas teclas. “Com a idade, vamos ganhando em experiência e perdendo em capacidades físicas. Quando me lembro de quais eram as minhas capacidades aos 20 anos e quais são hoje… Mas também sei mais coisas, portanto é bom.”

 

Fotos: Renato Mangolin

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com