Crítica

A estrela Marília

Monólogo musical costura cartas de amor e canções de Herivelto Martins.

Os personagens desse drama são bem conhecidos por muitos brasileiros – sejam aqueles que acompanharam as tramas reais pelas páginas dos jornais dos anos 1940; sejam os que viram a peça de estrondoso sucesso que lotou o Teatro João Caetano, no Rio, no final dos anos 1980; ou mesmo entre os mais jovens, que conheceram essa novela de cores fortes por meio de uma minissérie que a Rede Globo produziu em 2010. O fato é que Dalva de Oliveira, a maior cantora da música popular brasileira (na opinião de Heitor Villa-Lobos), e o compositor Herivelto Martins são, para muitas pessoas,  personagens e compositores dos antigos sambas-canção. As brigas do casal ocuparam tantas manchetes de jornais e deram origem a sofridas letras de diversos sucessos do rádio.

 

Marília Pêra é uma das pessoas que conhecem bem de perto esse folhetim da nossa música. Ela própria personificou a protagonista no espetáculo A Estrela Dalva, a peça de Renato Borghi e João Elísio Fonseca, com direção de Roberto Talma, que agitou o centro do Rio em 1987. Foi nessa época – em que via os dramas do casal pelo prisma de Dalva – que Marília conheceu Herivelto e sua segunda mulher, a aeromoça gaúcha Lurdes Torelly – o motivo das desavenças de Dalva e Herivelto que culminaram na dissolução do Trio de Ouro (conjunto que tinha ainda a presença de Nilo Chagas).

Tantos anos depois, Marília volta ao epicentro do furacão, mas, desta vez, para contar a versão dos fatos pelo ponto de vista do compositor. As cartas a Lurdes e algumas das mais de 600 composições são os fios condutores do monólogo musical Herivelto Como Conheci, em cartaz no recém-reinaugurado Theatro NET Rio, em Copacabana (brava, NET, pela iniciativa!).

Baseado no livro de Yaçanã Martins (filha de Herivelto e Lurdes) e Cacau Hygino, o espetáculo tem adaptação e direção de Cláudio Botelho, expert em musicais (Um Violinista no Telhado, Gypsy, Hair, Beatles num Céu de Diamantes, entre tantos outros) com quem Marília trabalhou em Gloriosa – A Vida de Florence Foster. É de Botelho a acertada definição “monólogo musical” para este espetáculo, que, mesmo sem dramaturgia bem elaborada, se sustenta bastante bem (exceto pelo momento desastroso em que a atriz, em suas próprias palavras, “tergiversa” com o público e abandona completamente o universo dramático).

 

“Cantorinha”

Marília se define como “cantorinha” (em entrevista ao jornal O Globo de 26/06/2012). Apesar de afinadíssima e dona de razoável extensão vocal, a artista não possui timbre particularmente belo – mas que não chega nem perto de ser desagradável. Em compensação, seu domínio da arte dramática é tamanho que, aliado aos seus carisma e magnetismo, mantém hipnotizada a plateia, enquanto recita trechos das epístolas e dos telegramas amorosos. Fascínio que apenas grandes damas do teatro conseguem exercer.

As belas canções – entre as quais estão Dois Corações, Atiraste uma Pedra, Caminhemos, Segredo erowid e Ave Maria no Morro – são lindamente acompanhadas pelos músicos Thiago Trajano (arranjos, violão e bandolim) e Márcio Castro (piano e acordeão). Vale destacar ainda, em meio aos eficientes profissionais que fazem a beleza do espetáculo, a preparação vocal de Paula Leal, o desenho de luz de Paulo Medeiros e o elegante cenário (não creditado no programa).

O romantismo das missivas embaralha-se com o desespero das letras de algumas canções. O furor das brigas de Dalva e Herivelto se contrapõe à serenidade da união do compositor com Lurdes. Só uma coisa não deixa dúvida: o talento – especialmente de Marília Pêra, mas também de Cláudio Botelho e de todos os músicos e profissionais envolvidos – é o tom maior que dá elegância a este espetáculo aparentemente simples, mas, na verdade, de impressionante sofisticação.document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);}

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com