Crítica

A dramática “Cavalleria rusticana” em dois elencos no TMSP

Verdadeiro espetáculo do verismo no palco do Theatro Municipal de São Paulo estreou na noite de 15 de outubro.

O “verismo”, a música de cores explosivas, violentas e dramáticas, transpondo ao pentagrama a nudez dos sentimentos e paixões humanas (a traição, o ciúme, a vingança com o amor transformado em ódio) adquire culminância entre 1890 e 1902, na trajetória da ópera italiana. A mais famosa das primeiras óperas veristas fez, de fato,  do verismo italiano um sustentáculo do palco de ópera.

Baseada num famoso conto siciliano de Giovanni Verga, com libreto de Guido Menasci e Giovanni Targioni-Tozzetti, o enredo da Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, dramatiza um caso de amor desfeito, a obsessão siciliana com a honra pessoal e a sua consequente exigência de vingança. Mascagni (1863-1945), nitidamente influenciado pelo naturalismo francês, especialmente pelos romances de Zola, traz a história da Cavalleria Rusticana que envolve as paixões básicas de pessoas simples de classes sociais menos favorecidas,  em sociedades humildes, aqui focado  nos camponeses da Sicilia. Nela o compositor expressa, através da intensidade de suas emoções e beleza de suas melodias, as paixões de intensos amores nela vividos.

Pier Francesco Maestrini,  revelou-se uma vez mais um grande conhecedor do “mettier” e cônscio do melodrama pôs à prova sua capacidade criativa, com jogos cênicos inteligentes, próprios e às vezes ousados, não comprometendo em nenhum momento, as nuances da arte lírico-dramática. Cenário belíssimo de Juan Guillermo Nova, em coloaboração de Giuseppe Cangemi, com desenhos de luz de Pascal Merat e figurinos de Carla Galleri: tudo em perfeita harmonia e sincronia resultando num belo visual àqueles que acorreram ao Municipal, em sua terceira récita de assinatura.

Transpuseram a época para os anos 40/50 do século XX o que não prejudicou em nada a veracidade do enredo. Os coros Lírico e Paulistano em excelente forma, atentos e uníssonos deram relevo  às páginas que seus libretistas lhes outorgaram. Diga-se de passagem, que a proposta de unir os corais Lírico e Paulistano num só torna-se muito viável e oportuna por seu diretor artístico, John Neschling, considerando-se que o Paulistano não cumpre, há décadas, o seu principal mister: o de difundir a música folclórica regional e tipicamente brasileira, de todas as épocas de sua história nacional, rezadas pelo seu próprio criador e fundador Mário de Andrade. Foram-se os tempos do ilustre maestro Miguel Arqueróns. 

Atualmente, o Coral Paulistano se resume a ficar emprestado para reforçar o coro da indian viagra sales OSESP em sua bela temporada sinfônica,  ou realizar pequenas missas de caráter mais camerístico, isto,… quando acontece, ou ainda participar de pouquíssimas óperas de menor porte, como foi o recente “Don Giovanni”, ou outra ópera de porte mais camerístico  (Cosi fan tutte, Idomeneo, Le Nozze de Fígaro). E nada mais.

Por outro lado, um só Coral Municipal propiciará, agilizará e vai escancarar portas para a produção de toda e qualquer ópera – a grande ópera – aquelas que estão ausentes do palco máximo de São Paulo, há décadas. Procedida a junção dos coros, poder-se-ão realizar Boris Godunov, Guillaume Tell, O Príncipe Igor, Semiramide, Nabucco, L’Africaine, Faust, Les Vêpres Siciliennes, Mephistofeles, Parsifal, Les Troyens, Turandot além de obras coral-sinfônicas como Le Roi David, Missa  Solemnis de Beethoven, Sinfonias nº 2 (Ressurreição) e nº 8 (dos Mil, de Mahler); Messa da Requiem, de Verdi entre outras do repertório universal. Eis aí o Coral Municipal.

Santuzza encontra-se entre os cobiçados personagens dos sopranos e mezzo-sopranos de grande extensão vocal. Tanto verídico que Fiorenza Cossotto,  Giulietta Simionato,  Renata Tebaldi,  Marta Rose, Jessye Norman,  Elena Souliotis, Elena Obraztsova e Violeta Urmana a incluem em sua galeria de papéis. O papel vocal e dramaticamente exigente de Santuzza ouvimos na pele de Angeles Blancas Gulin, de ascendência espanhola, numa emocionante e atormentada performance. O célebre racconto “Voi lo sapete, o mamma” e os duetos com Turiddu e Alfio foram de excelência dramática e musical. Grande voz e aprimorada técnica.  

Na noite de 17 de outubro foi a vez de Elena Lo Forte, que já trabalhou com Al Pacino, Francis Ford Copppola e atuou no filme “O Poderoso Chefão III”. Soprano lírico spinto de um timbre mais homogêneo e aveludado, dicção clara e bom volume, dotada de refinamento técnico, fez uma Santuzza muito segura em todas as suas páginas. Cantou e representou condignamente tanto no racconto, quanto nos duetos com seu amado e o compadre. Na Jupyra, obteve um desempenho vocal ainda superior a Angeles Gulin sendo uma cantora também de grandes possibilidades em seu registro. A frase: Bada…a te la mala Pasqua, spergiuro! de Lo Forte foi de arrepiar !

O camponês Turiddu de Fernando Portari demonstrou domínio de sua técnica vocal com uma “Siciliana” desenvolta e bem projetada e a partir dessa convenceu a todos pela sua comodidade no papel. Mas no dueto “Tu qui, Santuzza”, no “Viva il vino spumeggiante” e na despedida “Mamma, quel vino è generoso”, foi Richard Bauer (17/10) que mereceu os melhores “bravos” e o público soube retribuir pelo bonito registro e timbre de tenor lírico spinto, muito mais adequado para Bauer que a voz Portari.

A Mama Lucia destinada a um contralto autêntico, vivido pelo mezzo soprano Lídia Schaffer, não transmite a veracidade da matrona severa siciliana de Menasci e Targioni-Tozzetti.

Alfio, o compadre, aqui transformado numa espécie dos mafiosos de “O Poderoso Chefão I”, conforme Pier F. Maestrini concebeu o espetáculo, cercado de seu séquito, obteve seu melhor momento no dueto com Santuzza “Oh, Il signore vi manda, compar Alfio”, nas vozes de Angelo Veccia/Gulin (15/10) e Lo Forte (17/10).

A Lola de Adriana Clis apresentou um registro marchetado enquanto Mere  Oliveira se desencapelou em uma Lola sedutora e musical.

A Orquestra Sinfônica Municipal venceu bem na execução de ambas as obras, faltando-lhe apenas um rendimento melhor no célebre Intermezzo, que tornou a Cavalleria Rusticana tão popular. E uma observação de protesto a Victor Hugo Toro: esta foi a primeira “Cavalleria” executada sem o majestoso órgão Tamburini, desde 1967/68, quando de sua instalação em nosso teatro máximo. Inaceitável é aquele teclado ordinário e escolar, instalado no meio da orquestra e emitindo um som primário e paupérrimo numa página tão eloquente como esta de Mascagni. Tullio Collaccioppo, Diogo Pacheco e Jamil Maluf, maestros paulistas,  nunca o dispensaram nesta execução. 

A Jupyra de Antônio Francisco Braga com libreto de Luiz Gastão d’Escragnolle Dória, datada de 1900, cuja primeira apresentação deu-se a 7 de outubro daquele ano, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, foi a eleita para completar a dobradinha desta apresentação. Com música de inspiração e influências de Jules Massenet empregando também o “leitmotiv” com soluções wagnerianas, cuja característica entre outras, é uma escala descendente num modo utilizado no nordeste brasileiro, repetitivo, por vezes consecutivas e moduladas.

A interpretação de Angeles Gulin nesta difícil tessitura, desigual de escrita e desenhos melódicos, foi de bom nível, considerando-se a sua estreia no papel e a sua disponibilidade enfrentando-o, sem perspectivas de reapresentá-la em outras cidades brasileiras ou países. Sobre o Carlito de Marcello Vannucci, portou-se a contento em seu desempenho; melhor ainda foi Fernando Portari nesse papel; Angelo Veccia  (Quirino)  não ultrapassou o regular nesta investida. David Marcondes supera-o nesse personagem, sem dúvidas, o que já foi comprovado no Rio de Janeiro, quando de sua participação na Orquestra Sinfônica Brasileira/Repertório. Marina Considera apresentou um fraseado defeituoso como (Rosália), soprano lírico de bom volume vocal e bonito timbre demonstrado no dueto com seu namorado.

Cenário tipicamente brasileiro, tropical, atraente pela amplitude e assinalado pelas características regionais, de Juan Guillermo Nova e complementado por eficiente iluminação de Pascal Merat.

Escrito por Marco Antônio Seta, em 18 de outubro de 2013.

Inscrição sob nº 61909 SP / MTB

 

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3 Comments

  1. Uma vez mais Marco Seta nos proporciona um conhecimento mais profundo sobre a arte operística.

    Valiosa a inserção do espetáculo no momento histórico que o inspirou, esclarecendo as diferentes faces do contexto no qual se ambienta.

    A análise dos diferentes ângulos pelos quais o espetáculo pode ser apreciado – cenários, iluminação, figurinos – auxilia o entendimento de sua grandiosidade.

    Bastante apropriado também trazer à tona a questão dos corais, sugerindo alternativa para que o potencial do Paulistano e do Municipal possa ser explorado em toda sua dimensão.

    Os artistas tiveram seu desempenho detalhadamente apreciado, como já é praxe nos escritos de Marco Seta, enaltecendo os méritos e apontando as limitações de cada um. Esta parte, aliás, é onde sua apreciação é mais contundente, reconhecendo o que precisa ser reconhecido, mas não perdoando aqueles que ficam aquém do esperado.

    Siga em frente Marco. Suas críticas configuram uma contribuição importante para os apreciadores que gostam de ir mais fundo na apreciação dos espetáculos.

  2. Muito obrigado Plinio Ribeiro pelas suas observações. Um tio muito querido e inesquecível, uma vez me disse: “Na Cavalleria Rusticana”, não existe trecho ruim, tudo é bonito, tudo é música de verdade. E bem guardei essas palavras desde os meus quinze anos.
    Um abraço a você.

  3. Pois é Marco, seu texto encerra, com muita propriedade, o que podemos dizer de uma critica de pessoa conhecedora do tema, melhor dizendo especialista e ainda com “ouvido absoluto” capaz de distinguir, no calor do espetáculo, uma nota cantada, que não atingiu seu máximo esperado.
    Então, resta-nos portanto, ler e ficarmos inteirados do que houve de mais relevante e obter com a leitura da critica informações que nem sempre são veiculadas nos meios de comunicação.

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.