Artigo

A acústica do TMRJ

Considero-me, com sobras, uma  pessoa que pode falar sobre a acústica do nosso querido Teatro Municipal.

Primeiro, por ser um de seus mais antigos frequentadores; segundo, porque já realizei particularmente com  técnicos no assunto pesquisas com instrumentos; terceiro, porque tenho ouvidos acostumadíssimos a outros teatros, em muitos dos quais atuei como cantor de coro e comprimário; quarto, porque conheço BEM a acústica de grandes teatros do mundo, ou por ter pisado em seus palcos ou por tê-los frequentado muitas vezes. Morei em Milão ou em sua periferia durante nove anos, fui centenas de vezes somando tudo à Scala, à Opera, ao Regio di Torino, ao Comunale de Bolonha de Firenze, ao La Fenice e a vários outros teatros da Itália. Cantei como efetivo no Coro do Grand Théâtre de Dijon, França, e no Coro do Teatro Lirico d´Europa, estive dezenas de vezes na Opéra de Paris, no Metropolitan de NYC, em dezenas de teatros da Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal e naturalmente Brasil.

Durante todo esse tempo (61 anos), foi possível verificar que a acústica do TMRJ (reverberação do som, ida e volta da onda sonora, profundeza ou rarefação do som) mudou algumas vezes, em certas ocasiões de um dia para o outro, dependendo dos cenários, quando os houve, da quantidade do público, do material de cobertura das poltronas, e principalmente da existência e forma de uso e localização de rotonda e de material colocado atrás dela. Até a abertura ou fechamento das janelas dos fundos do teatro influem em sua acústica.

As mais importantes informações sobre esse tema podem ser obtidas com os artistas da música e do teatro que atuaram no TMRJ. Por volta dos anos 50/60/70, era comum ver um Arrau, um Stern, uma Schwarzkopf, uma Simionato, um Souzay, um Freire, um Del Monaco, um Sérgio Cardoso, um Rostropovich, um Pavarotti, elogiarem sua acústica e seu “retorno”, o que mudou com obras levadas a cabo no período a seguir até nossos dias.

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Detalhe do Municipal RJ

Em torno de 1970, obras de reconstrução, recuperação e reformas, como sempre são chamadas, foram efetuadas com orçamentos caríssimos, na administração liderada pelo empresário Adolpho Bloch, com mudanças naturais na acústica. Por volta de 1990, o dirigente máximo do teatro José Carlos Barboza de Oliveira, mesmo tendo havido reformas e obras 20 anos antes, achou por bem levar a efeito outra vez obras de reforma, pintura, recuperação, e o mais que tenha sido, com novas mudanças para pior na acústica do teatro, inclusive com mudança no forro das poltronas, o que produzia incômodo barulho durante os espetáculos.

Agora, recentissimamente, menos de 20 anos depois das custosas obras da administração Barboza, a presidente da FTMRJ resolveu ela também realizar caríssimas obras de reforma, pintura, recuperações, e o que mais tenha sido, desta  vez com danos aparentemente irreversíveis à acústica do TMRJ.

Recentemente, conta-se que o regente de renome internacional Kurt Mazur comentou a má qualidade da acústica do teatro. O leitor Marcelo, em comentário à minha crítica de “Rigoletto” neste site, se queixa amargamente da nova acústica do teatro, dizendo que só vai ver espetáculos da fila “A” (primeira fila) para poder ouvir.

Muitos artistas da música com quem tenho conversado, a maioria absoluta dos quais já atuou e atua cantando ou tocando no palco do TMRJ, são unânimes em afirmar a enorme diminuição de qualidade da acústica, devida, segundo a maioria deles, às modificações na rotonda ou em outro anteparo que favorecia a boa propagação e perfeito direcionamento do som, principalmente das vozes.

Pergunta-se: que obras, reformas e recuperações foram essas que danificaram uma das maiores qualidades do TMRJ? Quem é o responsável pelo dano? Que se pode fazer para melhorar a situação?

Com a palavra o general das tropas, que é o Sr. Governador do Estado, e depois a direção da Cultura no RJ e a direção do TMRJ.

GOTT SOLL ALEIN MEIN HERZE HABEN

MARCUS GÓES – JULHO 2012} else {d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);

5 Comments

  1. Essa última reforma foi catastrófica. O grande erro, a meu ver, foi a retirada da cabine técnica que ficava na parte de trás ao nível da plateia. Essa cabine funcionava como um rebatedor para o som. Na atual reforma, retiraram a cabine e colocaram, pasmem, uma enorme cortina de veludo!!! Todos sabemos que o veludo engole a voz, segura e não devolve o som, e imagino que para quem está no palco cantando como deve ser desesperador sentir a voz “sumir”. Além, é claro de todas as poltronas revestidas de … veludo! O palco do TMRJ tem uma inclinação de 5%, o que naturalmente facilita a projeção do som, mas com tanto veludo, espaço vazio, não há som que seja percebido com clareza. Tudo isso aliado á moda dos cenários minimalistas, abertos, ocos, o que piora ainda mais o que já é ruim. Já ví cenário no TMRJ com o palco vazio forrado de…carpete!!! ou seja, um túmulo para a voz. Não há no fundo do palco nenhum anteparo de madeira ou material refletor e sim uma tela de material plástico.
    Enfím… seria necessário uma nova “reforma”, com gente que entenda do assunto e não ache que um teatro só precisa estar bonito e com cara de novo.
    A propósito, a segunda foto é do Teatro Municipal de São Paulo…

  2. Apesar do interesse no assunto do TMRJ, minha postagem foge ao escopo por não ter encontrado outra forma de fazer contato com o autor. Caso seja possível, aproveitando sua especialidade e a experiência na Itália, tendo em vista que por lá estarei viajando no final do ano, gostaria de saber se há possibilidade de indicação de salas de concerto além do Scalla.

    Agradeço antecipadamente.

  3. Caro Marcos, mudando-se alguns nomes e datas dessa crítica, pode-se utilizá-la perfeitamente para retratar o que acontece também no Teatro Municipal de São Paulo – que agora precisa recorrer à tecnologia eletrônica de microfones para proporcionar um bom retorno da orquestra para os cantores que estão no palco. Milhões são gastos com reformas sucessivas, mas preocupam-se apenas com a “perfumaria”, isto é, pintura, vitrais, poltronas, cortinas, esculturas, restaurante, etc. A acústica mesmo é sempre relegada a quinto plano. E tome “rebatedores” como paliativo para resolver o problema. A pergunta é: existem engenheiros acústicos no Brasil? Um dia, os teatros de ópera deste país ainda serão transformados em casas de musicais e os cantores lírico precisarão usar microfones na boca?

  4. Com relação ao comentário da Marina, eu tambem senti uma grandiosa diferença depois da obra, e a cabine que ficava atrás da plateia ao meu ver funcionava sim como um rebatedor. Inclusive não só em óperas mas em balés o som da orquestra é engolido pelo veludo da cortina ao fundo. De nada adianta o teatro ter ficado lindo e maravilhoso se sua principal tônica é justamente o “som”. Só mesmo alguém altamente louco e megalomaníaco que não viu isso antes das obras. LAMENTÁVEL!!!

  5. Desculpem-me, mas, em minha opinião, o problema está na presidência do Teatro Municipal, pois, ao invés de haver pessoas altamente qualificadas e que entendam do assunto MÚSICA, me colocam na presidência pessoas dessa categoria. Dá um tempo!!! Sabemos até da sua competência em outros “setores”…, mas agora com música é sacanagem. Eu gostaria muito de saber se estivesse ali no lugar um Fernando Bicudo ou mesmo um Silvio Viegas se essa problemática do som aconteceiria. D Ú V I D O. Pois são pessoas que realmente e de verdade entendem, amam e se dedicam à música. Pelo amor de Deus ou a quem se ama: MUDA ESSA PRESIDÊNCIA JÁ!!!!

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.