Crítica

“Tosca”, de Puccini retorna com sucesso ao Municipal do Rio.

Quando nos referimos à “Tosca”, de Puccini, uma questão se depara: qual o soprano não gostaria de representá-la?

Haricléa Darclée foi a sua primeira intérprete, em 14 de Janeiro de 1900, no Teatro Costanzi de Roma, recebida friamente na “premiére”. Não tardou, porém, em inscrever-se entre as mais queridas do público, que a perpetuou ao longo de todo o séc. XX. Gilda Dalla-Rizza, Claudia Muzio e Magda Olivero precederam Maria M. Callas e Renata Tebaldi, que na década de 50, disputaram a melhor performance nos maiores palcos, incluindo-se suas atuações no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na temporada de 1951, quando as duas rivais cantaram a “Tosca”.

O soprano iugoslavo Zinka Milanov, a sueca Birgit Nilsson; as italianas Elisabeta Barbato, Atonieta Stella e Renata Scotto; as francesas Solange Petit-Renaux e Regine Crespin; as norte-americanas Leontyne Price, Grace Bumbry e Leona Mitchell e a brasileira Ida Miccolis, uma inesquecível TOSCA da história deste Municipal; todas legaram em suas interpretações de talentos, um verdadeiro festival  em diversificados registros e timbres, a este personagem cobiçado pelos sopranos dramáticos e lírico “spinto”.

A toda sorte, é irrecusável que “Tosca”, dentre as doze óperas de Puccini, seria a mais identificável com os presupostos da corrente “verista”, com libreto de Giacosa e Illica, extraído do drama homônimo de Victorien Sardou, cuja peça foi levada pela primeira vez em 1887 com êxito estrondoso, concorrido pelo toque mágico da atriz Sarah Berhnard (1884-1923) que a criou.

A maior contribuição de G. Puccini à perpetuidade da ópera, deve-se ao calor comunicativo de sua magistral música. Há que apontar, ainda os seus avanços técnicos na partitura: ao lado da linha vocal, inconfundível “pucciniana”, já se observa uma estrutura orquestral bem mais moderna, em distribuição instrumental de uma riqueza sonora e contagiante a quem as ouve. Um belo exemplo disso é a madrugada romana (3o. Ato) de cunho impressionista à moda debussiniana, descritiva, poética e pitoresca; o belo dueto de amor “O dolci mani”, com efeitos já expressionistas; bem como o jogo cromático que define Cesare Angelotti ou o tema musical que pincela o Sacristão no 1o. Ato; e sobretudo os três acordes que compõem o “leit-motiv” de Scarpia em vários momentos da obra e a cena quase atonal do “Te Deum” (celebrando a 1a. Vitória de Marengo, em favor de Melas contra Napoleão Bonaparte) e tantos outros momentos de indiscutível dignidade técnica-musical.

O violento contraste de paixões, o trágico conflito de almas e de episódios e  o clima dramático foram reeditados ontem, domingo às 17 h. no Theatro Municipal do Rio de Janeiro na récita de estreia da atual produção de “Tosca”, assinada por Carla Camurati, como cenógrafa e diretora cênica, hoje também presidente da Fundação Theatro Municipal. Realizou um trabalho bastante aceitável no que se refere à cena, uma vez que optou por respeitar o convencionalismo deste gênero, acrescentou slide projetado na cortina (madrugada romana ) e um acertado mobiliário de estilo e época. Apenas poderíamos requerer um pouco mais de envolvimento cênico no quadro contrapontístico entre o coro e o soprano e o paralelo diálogo entre Scarpia e Cavaradossi, onde o “estático” predominou no palco. Interessante a adição de membros do coro,  atuando no camarim da Presidência da República,  durante a pomposa  cena que encerra o Iº Ato (Te Deum), uma das mais impressionantes do espetáculo visto ontem no Municipal.

A iluminação cênica é demasiado escura, dando quase sempre,  ideia de penumbra, faltando luz para os principais artistas,  o que aflige o público, concorrendo para uma visão ótica exaustiva e incômoda. O nível atingido, em linhas gerais, correspondeu às exigências do público carioca. Para esse resultado, muito contribuíram os elementos complementares da ópera: os bonitos cenários dos dois primeiros atos em tons cromáticos e terrosos respectivamente com uma inteligente sugestibilidade, exceto do terceiro ato,  rudimentar e precário,  faz tombar a plasticidade dos anteriores (via-se atrás do ciclone movimentos de pessoas transitando aleatoriamente de lá para cá) o que dispersa a concentração do público.

Vale assinalar também, os coros precisos e afinados, tanto no “Te Deum”  onde soou imponente, como na cantata, no que merece um elogio o seu preparador Maurílio S. Costa. A indumentária apropriada de todos os solistas, coro e comparsaria da lavra da arquiteta, cenógrafa e figurinista Cecília Modesto e a participação do afinado e eficiente coro infantil da UFRJ, dirigido por Mª José Chevitarese.

A orquestra do Municipal que esteve geralmente atenta ao seu comandante Silvio Viegas, se fez desafinar nas trompas do alvorecer romano (Ato III) o que é imperdoável, tratando-se de umas poucas frases musicais , desta que é a principal página sinfônica na ópera. Desencontros de harpa no dueto “Non la sospiri” também foram assinalados por nossa presença.

A protagonista, o soprano Sondra Radvanovsky comprovou que tem consciência do que faz. Cantou com intensidade emotiva, flexibilidade e calor. Reconhecida internacionalmente nos maiores teatros de ópera do mundo, mostrou-se elegante no comportamento cênico de todo o drama, concedendo um “bis” à célebre ária “Vissi d’arte”, atendendo às aclamações da plateia pela sua extraordinária versão, cantando-a ajoelhada, nos momentos mais delicados desta linda ária. Emitiu “pianíssimos” e filamentos de  memoráveis  precisões, tanto na ária principal, como nos duetos com Arancam e Juan Pons.

Ao lado par o tenor brasileiro Thiago Arancam como o Cav. Mario Cavaradossi, deu satisfação intensa, porque permitiu verificar que esse cantor hoje, sem favor, se situa entre os jovens proeminentes artistas internacionais. A suas árias “Recondita armonia” e “E lucevan le stelle” beneficiaram-se de ótimas versões, favorecendo-se,  sobretudo no Ato II, para emitir o grito de “Vitoria”, muito bem lançado pelo jovem tenor, sempre mais aplaudido do que as mais belas árias….porque toca as cordas desportivas do público que o observa. O dueto amoroso “O dolci mani”, foi exteriorizado com sinceridade autêntica com Radvanovsky.

Em plano sensível de homogeneidade se desenhou o sádico, sanguinário, prepotente e perverso Barão Vittelio Scarpia do barítono dramático Juan Pons. Voz generosa, de timbre penetrante, correndo eficientemente, se alçou com pujança sobre o “Te Deum”. Sua envergadura, aí apenas entremostrada, iria se expandir ao longo de todo o Atto II. Tudo o que precede o seu assassínio por Floria Tosca, transcorreu com classe e elegância, obtidas através de seus dotes cênico-vocais em bela carreira internacional desde os anos 80.

O pequeno papel do “Consolle della spenta republica romana” o Cesare Angelotti, na voz de Carlos Eduardo Bastos Marcos, esteve apenas discreto; muito preso ao regente, foi uma figura apagada. Ao contrário, Eduardo Amir revelou um belo timbre de barítono, com voz bem apoiada e adequada ao gênero buffo do velho Sacristão. Saíram-se ainda a contento o Spoletta na pequenina voz do tenor leggero Geilson Santos; o barítono Ciro D’Araujo como o Sciarrone e o ótimo baixo Frederico de Oliveira (carcereiro) de voz pujante. Assinale-se que Taluya Góes foi um pastorzinho afinado e musical….Parabéns garota!

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