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movimento.com - Crítica: De volta aos palcos cariocas, o Alabê de Jerusalém
Crítica
De volta aos palcos cariocas, o Alabê de Jerusalém
Desde 2007, acompanho a saga de Altay Veloso para encenar a obra – e ópera - de sua vida, o Alabê de Jerusalém, que consumiu mais de vinte anos de pesquisa, dedicação e devoção.
Dos primeiros ensaios do corpo de baile, numa academia que hoje já não existe mais em Copacabana, até o palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 30 de maio do mesmo ano, foi um longo caminho, palmilhado com firmeza e amor. Lembro que em 2007 escrevi em meu blog um artigo em que falava do nascimento, com o Alabê, de uma ópera brasileira de verdade. Canônica, porém brasileira, com a cara e a cor do nosso povo e das nossas tradições.
Confesso que não gostei de tudo, quando finalmente vi o Alabê pronto, no Municipal. Entre o que o ballet alimentara na minha imaginação e o resultado final que eu esperava, havia lacunas a preencher e excessos a aparar - comparados com a minha própria expectativa e com as referências que acumulo. Mesmo assim, a aura do sonho do Alabê permaneceu em mim, hibernando, até este momento em que acabo de assistir às duas apresentações seguidas no Vivo Rio, nos dias 20 e 21 de novembro, associadas às comemorações do Dia da Consciência Negra.
Alabê de Jerusalém é mesmo uma ópera: segue todos os preceitos do gênero. Este fato não pode ser desconsiderado na hora de analisar o conjunto, a obra de arte total da qual falava Richard Wagner. E aqui me repito, em relação ao que escrevi em 2007: os grandes compositores brasileiros, eruditos ou populares, têm direito a compor óperas que transitem com novidade em meio aos cânones.
Nossos críticos têm a velhíssima mania de rotular, acusar, condenar e julgar todo artista que ousa impor o seu talento acima de nacionalidades ou políticas culturais. Carlos Gomes já sofria isso na pele no seu tempo. Não vamos, pois, nos concentrar nesse tipo de discussão estéril. No palco do Vivo Rio lotado, à minha frente, desenrolou-se uma ópera de grande envergadura, uma obra que, na era da máxima comunicação, o Brasil inteiro e o mundo precisam ter a oportunidade de ver. Não só para se banhar na sua qualidade e beleza, mas também para celebrar e reconhecer o grande talento brasileiríssimo de Altay Veloso, o autor, de Fábio de Mello, o diretor, e de todos os artistas e técnicos que se empenharam em realizá-la.
Lembro aqui que a apreciação de uma ópera, longe de ser privilégio de uma elite (quando começaram a ser criadas, as óperas eram consideradas espetáculos extremamente populares), exige apenas que o espectador aceite fazer parte de um pacto inicial, necessário à compreensão da obra. Ou seja, precisa ler o resumo das ações e, de posse desse conhecimento inicial, acompanhar o que acontece no palco. Eu mesma, quando comecei a me interessar pelo gênero, paguei alguns micos até entender qual o caminho a seguir.
Ainda assim, o Alabê de Jerusalém tem uma linguagem de comunicação relativamente acessível. Não é muito complicado, para a maioria, perceber a grande sacada de Altay Veloso: iluminar a Paixão de Cristo a partir de um olhar sensível, apesar de “estrangeiro” naquela cultura - o de Ogundana, mestre curandeiro, originário do Daomé, que chega a Jerusalém justamente no tempo em que Jesus florescia como sábio e defensor do povo.
Com anos e anos de pesquisa, Altay nos coloca uma questão importante, enquanto povo miscigenado e composto de várias raízes culturais e religiosas. Que razões do destino teriam levado justamente um africano e curandeiro, com um referencial completamente específico, a atravessar rios e mares em condições as mais inóspitas e chegar até Jesus?
Naquele tempo, as contradições dos povos não eram tão evidentes assim. Alguém podia viver 200, 300 anos de uma mesma maneira. Uma religião podia se manter intacta durante séculos, sem grandes conturbações. O proselitismo ainda não havia sido inventado. O que a convivência do Alabê com o Nazareno e seu tempo tem a nos ensinar, ao olharmos com olhos bem abertos para o tempo de hoje? Que todas as religiões levam à mesma essência. O Alabê não trocou seus orixás por Cristo; isso nem lhe passaria pela cabeça. Para ele, o Iluminado veio compreender e traduzir o mundo, tratar seres humanos como iguais, abençoar as mulheres, as grandes geradoras de vida, e ensinar quem quer que fosse a viver na paz, na harmonia, na verdadeira caridade.
Altay Veloso e Fábio de Mello costuraram juntos o enredo da ópera, a partir da representação coreográfica das cenas. De fato, ballet e coro praticamente não deixam o palco: além de dançar e cantar, eles são o povo – adoram, apedrejam, mudam de opinião ao sabor do momento. Ogundana, curandeiro natural do Daomé que agora é uma entidade com mais de 2000 anos de vida espiritual, aporta na Terra num ambiente adequado – um centro espírita, possivelmente – e narra sua história, que em cena passa a ser vivida na Jerusalém do tempo de Cristo.
O olhar e a narrativa do africano acompanham a trajetória do Nazareno desde criança; o Alabê passa pelos milagres, pelos apóstolos, pela gente comum que cruzou o seu caminho. Segue-o ao Monte das Oliveiras, testemunha a traição de Judas, observa atônito o julgamento diante de Pilatos e a fúria do povo em condená-lo. Acompanha-o no Calvário e na Ressurreição. E renova Sua mensagem de fé e esperança para os homens de hoje.
Pelo caminho, evidências da refinada e incansável pesquisa feita por Altay Veloso, recolhidas pacientemente em viagens a diversos lugares do mundo. Ogundana de fato existiu, Altay pôde comprovar. A mãe de Judas, referida em alguns evangelhos apócrifos, aparece diante de Maria. A mulher de um cego curado por Jesus conta suas desventuras, ao ver o marido perder-se na sedução do mundo material. Um filho ciumento sofre com o afeto que sua mãe demonstra pelo Mestre Jesus. E a mãe, socorrida por Maria no difícil parto desse mesmo filho, pede aos céus que perdoem o rapaz. Um poeta vive atormentado por amor a Madalena. Um louco é preso por anunciar a vinda de São João, o Batista. Toda essa gente comum, humana como qualquer um de nós, assume um protagonismo inesperado e belo na obra de Altay Veloso, captado e materializado pelo olhar artístico e atento de Fábio de Mello.
Cantores líricos e populares dividem o palco para cantar essa obra brasileira. Selma Reis, Jorge Vercilo, Cris Delano, Eddy Flash, Ricky Vallen, Claudette Ferraz, Marquinho O Sócio, Marcelo Furtado, Rafaela Fernandes, Telma Tavares, Alex Cohen e outros alternam-se com brilhantismo em diversos papéis, com espírito democrático e grandeza, praticamente sem estrelismos, numa comunhão verdadeira. A força musical da obra permite essa flexibilidade, com resultado excelente na maioria das vezes. As eventuais desigualdades são superadas pela interpretação e a garra sem precedentes dos cantores.
O som enfrentou alguns pequenos problemas na noite de estréia, totalmente sanados na apresentação seguinte. Destaque para a interpretação de Selma Reis em “Maria, cheia de raça”, o momento maior da celebração da força geradora do feminino. Jorge Vercilo fez um excelente filho ciumento no dia 21, revezando-se no papel com Edmon Costa no dia 20.
Claudette Ferraz iluminou, com sua bela voz grave, uma amiga de Maria e a mãe do filho ciumento. Telma Tavares literalmente arrasou como a Mulher do Cego. E Alex Cohen brilhou como o Ateu e um dos sacerdotes que tramam a morte de Jesus. Marquinho O Sócio, com sua poderosa voz, faz um Louco muito especial. E Cris Delano, que é dona de uma voz impressionantemente lírica, encarna uma Judith perfeita, assim como Maria Madalena. Ricky Vallen, uma presença ambivalente, teve uma interpretação irrepreensível do poeta que ama Madalena, logo no início do segundo ato. Como Barrabás, porém, exagerou demais, sobretudo no dia 21. O rapaz, inegavelmente um bom ator e dono de uma bela voz, perdeu-se em trinados à la Broadway e se afastou de seu próprio estilo, que poderia ter rendido uma interpretação mais interessante do sofrido salteador libertado em lugar de Jesus.
Em sua caminhada, o Alabê de Jerusalém ainda poderia, a meu ver, passar por alguns ajustes. Em que pese o caráter inovador da presença quase permanente do ballet em cena, há momentos em que ainda há gente demais no palco. O resultado é que muitas coreografias de rara beleza não conseguem ser vistas – e o palco fica embolado.
Quero deixar claro, aqui, que considero um achado o protagonismo que o ballet desempenha nessa ópera, algo absolutamente inédito. No entanto, para bem da estética de palco e da fluidez do espetáculo, há momentos em que é preciso dosar melhor a quantidade de bailarinos. Creio que, em alguns momentos, conjuntos menores fariam melhor efeito. Em outros, o ballet poderia mesmo ficar ausente.
Uma das cenas complicadas, nesse particular, é aquela em que é tramada a morte de Jesus. Os sacerdotes-cantores se colocam totalmente na frente do corpo de baile – que, ao fundo, está compondo uma cena belíssima, em que duas correntes humanas se justapõem e se entrelaçam, demonstrando medo, união e impotência diante do que virá. Mas ninguém vê isso, porque a cena está tomada!
Para completar, a iluminação praticamente “esquece” os bailarinos. De repente, eles irrompem por entre os sacerdotes que estão parados, com seus trajes pesados, no meio do palco. Dá a impressão de que as pessoas têm mesmo de disputar um espacinho para poder dançar. Por que não posicionar o coro num ponto específico do palco, com uma iluminação eficiente, e liberar a área central para que o público veja a força da cena do ballet? Reforço que, com um conjunto menor, talvez fosse possível distribuir melhor o ballet e o coro no palco.
O encontro do Alabê com Judith é talvez o melhor exemplo de situação em que o ballet, em vez de valorizar, complica a cena. Isso, apesar da qualidade da bailarina, Natália Carvalho, e do solo criado por Fábio de Mello. Como Alabê e Judith estão em planos espirituais diferentes, a idéia do coreógrafo foi representá-la na figura da bailarina, como fez em várias outras cenas da ópera, em que o protagonista é vivido, ao mesmo tempo, por um cantor-intérprete e por um bailarino.
No entanto, nesse momento especial e íntimo entre Alabê e Judith, a bailarina “invade” a cena e atropela o encontro. Muito do lirismo e da poesia do momento se perde com isso, pois nossa atenção é desviada para um terceiro ser que, com certeza, está demais naquele contexto de intimidade. Se a cena se desenrolasse apenas com os dois personagens, teria muito mais força.
Em termos musicais, a obra tem grande consistência e propõe um equilíbrio de estilos, dentro de uma razoável diversidade. Penso que seria importante, na caminhada dessa obra, encontrar os intérpretes certos e incorporá-los à “família”. Substituições ou entradas de última hora são um risco muito grande, pois podem comprometer tanto a apresentação quanto a reputação de um artista que não tenha tempo suficiente para estudar o papel e se preparar.
E, acima de tudo, apesar de todos os recursos que a tecnologia oferece, uma obra como o Alabê de Jerusalém tinha de ser interpretada por uma orquestra completa. Os cantores e bailarinos merecem o acompanhamento orquestral, que só viria coroar o seu trabalho. Sei que muitas vezes o corporativismo dentro das orquestras leva a situações difíceis de serem contornadas, mas acredito que uma boa negociação possa garantir a presença, em futuras apresentações, de uma orquestra à altura da magnitude da obra.
Como a maioria das óperas, o Alabê de Jerusalém é um espetáculo longo, mas nem por isso cansativo. Há um razoável equilíbrio entre os momentos de ação e os de descanso, de modo a equilibrar o fluxo das emoções da platéia – que são muitas e distintas a cada momento.
Comparando as duas apresentações, no meu entender a do dia 21 fluiu muito melhor, sem contratempos e com grande dinamismo. A emoção e a energia marcaram grande presença e a platéia, noventa por cento pagante, reagiu com muita naturalidade e entusiasmo. Vistas a uma certa distância do palco, as cenas eram inacreditavelmente belas, fortes e atraentes, em sua maioria. Faltou um programa com o resumo, o que poderia potencializar o entendimento e acompanhamento da obra pelo público.
O que surpreende e encanta no Alabê de Jerusalém é a capacidade com que mobiliza o público e paira acima de disputas de qualquer natureza, acima de religiões ou de convicções aferradas. Não é uma “ópera negra”, apesar da presença das religiões africanas. Não trata de questões raciais, e sim da redenção do homem. Fala de humanidade, amor, união, transcendência - atributos cada vez mais raros num mundo aparentemente dominado pela violência.
O Alabê de Jerusalém desperta em nós sentimentos muito fortes de compaixão e unidade. E propõe, de modo aberto, a atitude revolucionária que é exercermos de fato a nossa humanidade. É arte que se torna ritual, na medida em que faz aflorar o lado melhor de quem assiste, mas está distante de qualquer pretensão de transformar rituais em arte. O rito se processa a cada apresentação, quando uma reunião aparentemente aleatória de pessoas acaba tendo a força de uma egrégora. Isso nos entusiasma e emociona, adicionalmente às qualidades artísticas do espetáculo.
O Alabê de Jerusalém é, de fato, a obra de uma vida. Aliás, de uma, não; de várias vidas, pois afinal, entre crédulos e troianos, salvamo-nos todos no espaço revelador e livre da arte verdadeira. Que, no caso do Alabê, permanecerá viva e atuante para revelar a saga de Ogundana a muitas e muitas gerações adiante de nós.
Autor Maurette Brandt
em 22/11/2009
Opinião dos internautas___________
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