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movimento.com - Artigo: Schumann - um gênio? Artigo

Schumann - um gênio?



Tem ocorrido nos últimos anos o recrudescimento de uma tendência que atinge críticos, musicólogos e musicistas: a de classificar hierarquicamente compositores célebres, taxando-os de “gênios” ou “não gênios”, de criadores ou copiadores, de influenciados ou não por Fulano ou Sicrano, de autores “maiores” ou “menores”, e por aí.

Na grande sucessão germânica (o termo inclui a Áustria), a linha é clara: Bach, Haendel, Gluck, Haydn, Mozart, Weber, Beethoven, Schubert, Schumann, Mendelssohn, Wagner, Brahms, Richard Strauss, Schoenberg, Berg. Mahler se inclui mais na sucessão de compositores “internacionais”, a exemplo do russo Tchaicowsky e do tcheco Dvorak, ambos êmulos de Brahms.

Pois bem: neste ano do bicentenário de Robert Schumann temos lido muito a seu respeito e verificamos que há vários musicólogos, musicistas e estudiosos que lhe negam a condição de “gênio”, ou mesmo de compositor digno de figurar na relação acima. Para muitos, uma relação que começa com Bach e passa por Mozart, Beethoven e Wagner não pode conter, a eles nivelado pelo menos na citação, o nome de Robert Schumann. Ele mesmo Schumann não se definia como “um gênio musical”. Ora, o tema é espinhosíssimo e polêmico. O que é ser “gênio” musical?

Se o critério de mais peso no julgamento for a popularidade, ninguém vai ganhar de Chopin, nem de Verdi, mais executados entre os mais executados; se o critério for o da inventividade criadora, quem vai ganhar de Bach? Se for o a da variedade de suas obras, quem ganhará de Mozart? Se for o da capacidade inovadora, quem derrotará Wagner? Se for o da beleza melódica, todos se igualam, dependendo do gosto e das emoções do fruidor; se for o da força criadora ao inventar novos estilos e novos modos de compor, quem sobrepujará o leão da música chamado Beethoven? E que dizer de Stravinsky? De Schoenberg? De Villa-Lobos?

Então, onde é que entra Schumann? Por que ninguém põe em dúvida se Mozart ou Beethoven são gênios musicais, e muitos vacilam em dar essa condição a compositores como Weber, Mendelssohn, Schumann?

Schumann se coloca exatamente, na história da música, como o mais importante dos compositores alemães que se seguem a Beethoven e Schubert e antecedem Brahms. Nascido quando LvB era ainda vivo e se achava no auge de seu poder criador, e quando Schubert era ainda um menino, foram aqueles dois os seus predecessores mais influenciadores e mais diretos, deixando-se claro que evidentemente ele não deixou de muito ouvir e muito estudar as partituras de Mozart, de Weber, de seu coetâneo Chopin (nasceram ambos em 1810), de Paganini, de Rossini.

Desde muito jovem ligou-se fortemente à literatura, especialmete à poesia, começando por ler Goethe, Schiller, Scott, Byron e vários poetas menores de seu círculo. Interessa-se tanto pela literatura que chega a pensar em abandonar a música. Mais tarde, muitos poemas que leu serão postos em música em composições para canto e piano. Schumann foi o mais literatizado compositor de seu tempo, fundador de revistas, crítico e comentarista de música e literatura. Essa mistura dará origem a um compositor sobretudo original, de estilo inconfundível. O ouvinte acostumado identificará de pronto uma obra de Schumann, mesmo que nunca a tenha ouvido.

Sua obra compreende um sem número de obras primas, entre as quais se destacam, em relação incompleta escrita de memória, o célebre concerto para piano e orquestra, a suíte Carnaval, para piano, o quinteto para cordas e piano, as quatro sinfonias, sendo a quarta em original forma cíclica e a segunda contendo um dos mais belos adagios do romantismo musical alemão, os Estudos Sinfônicos para piano, as Cenas Infantis, para piano, e uma notabilíssima série de Lieder que se inscrevem como o que de melhor se fez no gênero, ao lado dos Lieder de Schubert e dos que viriam de Brahms e Richard Strauss.

Toda a obra de Schumann se caracteriza pela existência da música não como um fim em si, mas como meio de trazer à luz um conjunto poético de ideias, sentimentos, situações, pensamentos, atitudes. Foi ele um compositor “sincero” consigo mesmo e com os outros: pretendeu estabelecer uma estreita relação entre a música e o mundo objetivo que o cercava, e nunca abriu mão dessa intenção.

Isso deu à sua obra um caráter pessoal inconfundível, e se não fez dele um gênio da estatura de um Beethoven ou de um Mozart, o põe perto deles, em merecida companhia. Um grande e inspirado compositor e poeta da música. Se não um gênio musical absoluto, foi ao menos o gênio do Lied alemão, que encontra nele, na opinião de quem escreve, seu maior compositor.

MARCUS GÓES – JANEIRO 2010


Autor Marcus Góes
em 23/1/2010


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